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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Paraná

Não há dúvidas. A economia dos locais atingidos pela operação da Divisão Estadual de Narcóticos foi fortemente afetada. Campo Magro agora deve estar anoréxico, Almirante Tamandaré afogado, Colombo perdido de sua rota e Agudos do Sul mais boleado do que nunca. Foz do Iguaçu, então, agora secou de vez, com certeza. As palmas distribuídas nos jornais do país atestam a eficiência do que seria (impressionante!) o começo do “Paraná contra as drogas”, nome que inspira uma verdadeira mobilização generalizada e emocionante. Parabéns às divisões policiais envolvidas, que, até onde meus contatos e, assim, minha vã coleta de informações alcançam, saíram de moral limpa. E é claro, literalmente limpos, seus rostos tampados e braços musculosos estampados nos jornais. Tudo sem sangue.

Pensando em sangue, tenho uma proposta a fazer. Lembrando das últimas semanas de confronto entre polícia e tráfico no Rio de Janeiro... Veja bem, eu disse confronto, nada que remeta ao positivismo do nome e à assepsia da operação paranaense. Bem contrário, até. Mas acho que não preciso recorrer à origens das palavras ou dicionários para me fazer entender, tenho certeza de que o carioca tem prática, e nada como a prática no assunto para te fazer especialista nos jargões.

Pois eu me pego imaginando possibilidades pra lá de imaginárias. Imagina só (com força, eu sei): a polícia resolvem extender o exemplo do Paraná, só que no Rio. Desconsiderando toda a guerra civil antes deflagrada e chegando direto ao ponto da suposta glória policial, claro. O tráfico estaria absolutamente desarticulado, enfraquecido, as comunidades livres do domínio do comércio das drogas. Do comércio das drogas. O caminho está livre para novas possibilidades de domínio. E agora, o que seria dos milhares de demitidos pelo tráfico, das comunidades órfãs? Uma solução imediata: novos caminhos seriam abertos, ou ainda mais abertos, estuprados, escancarados para as formas de domínio alternativas. Foi tudo o empurrãozinho fantasiado de empurrão que a milícia precisava. Nada como uma boa política de exploração de serviços e submissão das comunidades para garantir aquele lucro.

Claro que a gente sempre pode pensar pelo lado otimista da questão. É quase que uma política de aquecimento e reformulação da economia narcotráfica. Com a operação, o material novinho, que acabara de chegar e nem embalado estava, veja só, todo perdido (sabe-se lá para quem). O tráfico restante, depois de reorganizado, vai precisar de novas remessas. A dobra da demanda vai estimular a produção. A oferta vai ser duplamente maior. Duplamente econômica! Duplamente lucrativa!

Joaquim Lima

terça-feira, 22 de setembro de 2009

De volta para minha terra

No dia em que vim de Riachão de Jacuípe pensei que minha vida estaria solucionada. Acho bom fazer uma pausa já aqui para explicações. Minha cidade é rica, grande e importante, quase importada. Tenho provas vivas, na memória. Na época, lembro bem, as fazendas tinham das agriculturas de maior avanço que se podia ver. É bom que fique claro.

Mas vamos voltando pro que interessa. Não vim aqui me dar ao trabalho de falar das importâncias de minha terra, até porque são óbvias. O assunto é bem que outro.

Pois vinha eu para o Rio de Janeiro, em pensamento mais leve impossível, em formato de divagações distantes exatamente isso: “Agora, sim, minha vida está solucionada”. Penso hoje que, apesar de toda a boa educação de minha origem, educação sem igual pelas professoras do meu Riacho, mal devia saber eu o que realmente significava “solução”. Não falo daquelas químicas que se criam nesses laboratórios de avançadas pesquisas daqui, mas da resolução, mesmo, entende? Ter a vida feita. Antes fosse a solução laboratorial. Eu bem que jogava dos ácidos mais corrosivos em todos esses ônibus, pra eles virarem de miniatura pra criança brincar. É só pro que servem. Pois era disso que me referia quando vim aqui dizendo que queria voltar pra minha terra natural, nada desse asfalto todo que só roda sobrevive, ferradura gasta rapidinho. Esses meios de transporte duros como o chão que andam tão me tornando uma pessoa que eu não era quando de lá vim, com meu pensamento mole de sonho luminoso da cidade.

- Então, como foi que você passou a querer voltar?

Vou te contar como...

Cheguei aqui logo, com meu jegue que de mais resistência não havia. São os jegues de Jacuípe, fortes filhos dos cavalos bonitos de fazendeiros da História passada. O combustível deles é só mato do caminho, e o mato não precisa mudar de cor do verde pro azul e ainda estar acrescentado de mais e mais moedinhas pra que eles se deixem ser montados e saiam andando. Eles saem quando o jacuipenho bem quer e precisa. Às vezes é só dar uma pressionada, uma apertadinha a mais na barriga que eles logo vão. Com ônibus não é assim. Pressiona o motorista, aperta o despachante da tropa, pode dar até chute na lataria daquela porcaria, nem adianta... É só quando eles querem. Ou melhor, como bem repetiu pra mim o trocador da última vez: “O horário de partida é sete horas e 42 minutos”.

- Muito bem, então porque você quer voltar pra sua terra mesmo?

É que eu moro nos arredores do centro, como aqui chamam de nome bonito, “periferia”. Acontece que pra chegar no centro, que é onde consegui bom emprego, preciso pegar dois burros,..digo, ônibus! Aquele meu jegue, lembra? Pois ele ficou pra trás, numa cidadela de mais mato, porque achei que aqui, coitado, ia ter que comer capim gelado de geladeira. Então eu assumi que precisava de ônibus. Pensei “Mas quanto avanço ótimo! Meus caminhos vão ser mais rápidos e meu esforço vai ser nenhum..!”. Mal sabia, mal sabia que dali só ia querer meu jegue e terra muito molhada, a única coisa que faria ele empacar no caminho de volta...Porque relógio, relógio ele nem sabia o que era..!

- Então..?

Então eu preciso do que hoje vejo como uma lata de ferro duro, desconfortável e sufocante que funciona pela hora. Não uma, mas duas! E é essa combinação que trás o problema. A hora e o número. O número dois... Não tá entendendo, né? Pois meus colegas de infância já teriam entendido, nosso raciocínio lá era treinado pra ser rápido. É que eu saio de casa e pego um ônibus até mais perto e depois outro pro trabalho. Acontece que o primeiro ônibus sempre saia atrasado. Eu passei a não chegar a tempo de pegar o segundo, que de lá ta saindo quando no outro eu to chegando. Desde então eu tenho esse problema, e tenho que ficar lá, em pé, esperando o próximo que só sai depois de 42 minutos, que eu sempre penso que podia estar usando pra adiantar as minhas coisas, o meu dia. Coisa que não se pensa em Riachão, mas que os atrasos dos transportes rápidos te ensinam a pensar.

- E então, o que você concluiu disso..?

Calma, calma que a coisa só piora. O que acontece é que, quanto mais se chega perto de consertar as coisas e elas ainda não funcionam, pior. Nessa cidade do Rio é muito assim. As coisas são quase consertadas, ficam cada vez mais quase funcionando. E isso é que mais trás irritação, coisa que pouco se sente em Riachão, mas que o tempo perdido na falta de tempo te ensina a sentir. Foi o que pouco a pouco comecei a sentir e lá fui reclamar. Comecei aos poucos, pedindo que saíssem cedo, depois fui quase chorando, e então quase gritando. Os atrasos diminuíram, mas ainda estavam lá, e pior: agora quando o primeiro ônibus tava chegando eu via o segundo partindo, cada vez mais quase comigo, mas ainda sem mim. Até que a diferença passou a ser um minuto! Por um mísero minutinho eu não pegava o segundo ônibus. Aquilo me amargou mais e mais até o dia que perdi minhas estribeiras todas! Fui e gritei mesmo, coloquei dedo na cara e tudo. O despachante ficou até vesgo, como se tivesse procurando alguma coisa no meu dedo pra se justificar!

- É verdade... Mas, então, conclusão? Daqui a pouco já vamos pro próximo bloco!

Pois bem, tudo bem... No dia seguinte, eles solucionaram o problema. Deles. Atrasaram o horário oficial de partida pra um minuto mais tarde. O meu minutinho! E aí sim, então, passaram a sair estritamente no horário exato: seis horas e um minuto.

Uma hora antes da hora que chega ao primeiro destino.

Um minuto depois da partida do segundo ônibus.

41 minutos de espera urbana oficial para mim.

Todos os dias. É por isso que eu percebi que isso não é vida, sabe, essa espera toda que na minha terra não me incomoda, mas que aqui é perda de segundos doloridos contra o relógio, que cheiram a óleo diesel... Eu preferia o esterco fresco. Por isso, Gugu, vim aqui no “De volta para minha terra”... preciso voltar pra Riachão de Jacuípe!


Joaquim Lima

sábado, 12 de setembro de 2009

De fora pra dentro

É como se conhece as pessoas. De fora pra dentro. Assim é mais fácil descrever, principalmente quando ainda se está adentrando numa alma, porque num corpo posso adentrar rapidamente, nos primeiros momentos de minha primeira impressão, que é profunda. É só acompanhar a memória de como se desbravou quem antes te era estranho, mesmo que te pareça sempre estranho. Quando se lembra do início, é certo: você conhece mais, por mais que a vontade de conhecer não deixe enxergar assim. Entre eu e ela não é diferente. Sinto conhecer menos, por mais que saiba que conheço mais, por querer conhecer ainda mais. Mas comecemos do início...

Pois bem, de fora pra dentro. Dos fios de cabelo às pontas dos dentes brancos e dedos de cores mutáveis em unhas: absolutamente brasileira. Ouça a história da família dela e você vai saber, tenho certeza: absolutamente brasileira. Ali tem miscigenação, se tem. Tem gente da terra, gente imigrada do mar. Ah, tem. De vários mares provavelmente. Daí uma beleza que pode ser difícil de entender, mas que se entende sem perceber, naturalmente, como ela parece ser. Com sorriso espontâneo ilustrou revistas de marias e joãos quando esse mundo ainda era novidade simples, quando ainda estávamos bem de fora. Dali começava um caminho pra dentro sem que nem percebêssemos, e de lá se deu um mergulho lento que até hoje ainda faz conhecer, vai sempre fazer. Chegamos à sua marca maior: ela está ali pras coisas práticas da vida, para colaborar em tudo aquilo que é seu e é concreto. Talvez por isso seja menina tão capaz de concretizar o que parece ser um caminho de desejos simples e grandes que traçou há muito tempo e está percorrendo sem dificuldades. As coisas do mundo simplesmente parecem acontecer para ela, talvez por se parecer tão disposta a ajudar a fazer com que as coisas dos outros aconteçam. Mesmo que com movimentos minúsculos, ela está ali para isso. Tanto que quando não está tanto, acho que está e sem querer peço que esteja. É como quando peço-lhe um favor sem querer, achando que ela estava quase que me pedindo para que eu o pedisse. Ou quando preciso de um... Um pote de geléia! Qualquer coisa que ela diga me faz achar que a qualquer momento pode tirar um pote de geléia da bolsa, que por acaso estava ali e agora serve pra me ajudar! Por mais surpreendente, parece natural que aquele pote esteja ali, porque a bolsa é dela. É de fora, de dentro dela.


Joaquim Lima