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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Aprenda a se candidatar à presidência

Quem se lembra das eleições de 2006? E de uma candidata da oposição que defendia as questões “esquecidas” pela maioria e a participação das mulheres no poder executivo? Então, a nova feminista do poder político é a provável candidata à presidência pelo Partido Verde. E de tempos em tempos, ela apresenta suas opiniões de maneira exaltada, que sempre ganham destaque no alto da página da editoria País.

Desta vez, a senadora, pretensa presidente, questionou a CPI do MST. Como pode apenas um movimento ruralista ser investigado? Existem tantos movimentos agrários pelo país. Vamos investigar todos! Candidata nova da vez é assim: ganha espaço no grito.

Nas eleições de 2006, a candidata da blusinha branca de babados (uniforme de guerra!) gritou tanto no palanque que hoje ela é mais reconhecida e, claro, lembrada por causa do seu saltitante dente no meio de um discurso do que pelas suas ideias. (O que ela falava naquele momento mesmo?)

Por outro lado, a bola da vez, nem precisa abrir a boca para se tornar destaque. Esta dá aula de como aparecer na mídia e já é favorita nas pesquisas. Existem tantas coisas que ressaltam seu nome: apoio político, visual novo, calúnias sobre seu passado, doença grave etc. Quem precisa abrir a boca, antes do tempo, numa situação dessas?

Enquanto isso, o velho discurso da luta contra o preconceito de gêneros e das minorias ecoam entre os pequenos candidatos, os ataques ao discurso dos concorrentes também. Mas é assim que funciona, se não tem o que propor, o caminho é criticar o já dito e com veemência. Resumindo, criem polêmica! “Os atos falhos falam mais do que o discurso”, que frase de efeito! Toda aquela concepção de Freud junto com a análise do discurso... Nada disso. Apenas um ataque da emergente candidata a forte concorrente. Ela seguiu a lógica do: fale mal, mas com eficiência. Tal declaração ganhou destaque como subtítulo na página do jornal.

A época de eleição, e olha que ainda nem chegamos lá, apesar do chato horário eleitoral, também nos proporciona vários momentos de risos, piadinhas infalíveis feitas pelas mentes mais capciosas e criativas, as sacadas dos marqueteiros, a disputa de ibope na mídia etc. Mas, o candidato que se sobressai é aquele que apresenta uma causa que apenas ele defende.

A nova “Heloísa Helena”, só que revestida pelo PV do Acre, acredita que ela é a única candidata que se importa com a questão ambiental, em um momento que discutimos a poluição do meio ambiente em mesa de bar e trocamos nossas sacolas plásticas por sacos ecológicos. Pois bem, fiquem de olho se alguém quiser mencionar a questão ambiental na sua plataforma política, será uma ideia totalmente copiada da fértil mente da senadora acreana.

Qual será a próximo argumento dos pretensos candidatos para aparecer? Dou uma dica: crítica ao programa Bolsa Família. Talvez dê uma nota na primeira página.

Raposa do Pequeno Príncipe

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Boa gente

- O que você quer da vida?

Levantei a cabeça.

- O que?

Segunda Chance.

- O que você quer da vida?

Pensei, pensei, pensei. Carros, mansões, sucesso, poder, mulheres. Vazio.

- Ah, muita coisa. – respondi.

- Você acaba de perder 10.000 reais!

- O que?!

- Você perdeu.

Então percebi o microfone na mão daquele homem que me indagava sobre os desejos da minha vida. Surgiram duas câmeras erguidas por outros homens de crachá.

- Não foi essa semana, pessoal. Fique de olho aberto, o próximo poderá ser você. Corta!

Levantei e caminha apressadamente até o homem com o microfone.

- Não entendi. O que aconteceu?

- Você não assiste à televisão?

Ele esperou minha resposta, mas eu nada disse.

- Somos do programa que realiza seus desejos. Basta você dizê-lo.

- Qual é o programa?

- Oras... Tenho que ir.

Entraram num carro e partiram com todo equipamento.

Eu realmente perdera a chance de ganhar dez mil reais? Estava apenas sentando num banco de praça lendo o jornal. Então respondo para mim mesmo o que eu devia ter dito:

- Sorte.

Nunca tive sorte na vida, as oportunidades apareciam todo momento, mas para eu alcançá-las era quase impossível. Acredito que tudo começou com meu nascimento. Cesariana, sete meses de gestação apenas, algo deixou de ser formado em mim, talvez, algum gene da esperteza, ou da sorte, ou do sucesso. Nunca ganhei na Lotomania, Lotofácil, nem na raspadinha. Meus cupons de embalagem nunca foram sorteados e, para finalizar, nunca tive o prazer de gritar: Bingo!

Porém, não sou um azarado. Nunca caiu um armário no meu pé, nem cocô de pombo na minha cabeça. Pensando bem sobre esse assunto... existem várias coisas na minha vida que eu desejei e nunca obtive, mesmo com a oportunidade na minha frente. Na escola, por exemplo, nunca consegui ser o orador da turma, sempre tinha um cara que falava melhor. No time de futebol, a mesma coisa. Eu jogava bem, mas a braçadeira de capitão nunca chegou perto de mim. Eu era esforçado, tirava boas notas, mas nunca as melhores da turma. Se me recordo bem, nunca ganhei um sorteio.

Na época do vestibular a mesma tortura. Aqueles malditos centésimos e milésimos me afastaram da minha desejada vaga em Comunicação Social. Eu era o primeiro na fila de espera da reclassificação e continuo lá até hoje, porque nenhum infeliz desistiu e abriu uma vaguinha para mim. Então, segui a carreira das Letras, esta eu conseguir passar sem depender da sorte. No mercado de trabalho, então nem se fala, foram análises de currículo, dinâmicas, entrevistas e mais entrevistas. Falo três línguas, estudei numa das melhores universidades do país, mas tudo que eu consigo parece medíocre comparado aos meus amigos. Se, por acaso, eram apenas dois candidatos, eu e outra pessoa, certamente a outra pessoas ocuparia a vaga.

Após o episódio na praça me convenci de que eu não podia contar com a sorte para nada e as oportunidades não significam nada além de chances perdidas. Talvez eu seja uma pessoa pessimista e a sorte não gosta de pessoas assim. Passei uma semana pensando no ocorrido me culpando pela estupidez e etc. Procurei o tal programa na televisão e não achei nada parecido. Minha namorada e meus amigos tão pouco sabiam. Claro que não lhes contei sobre o evento na praça. As minhas estupidez e burrices eu guardo para mim.

O destino gosta de brincar com a gente. Não foi que eu encontrei nesta bendita semana de reflexão, com o tal cara do microfone num restaurante. Primeiro duvidei. Depois decidi confiar na minha memória. Era ele. Não pude me controlar, tive que ir até ele falar alguma coisa. Ele era o culpado de eu estar questionando todo minha vida.

- Com licença, senhor.

- Sim?

- Gostaria de conversar com o senhor.

- Estou a almoçar. Mas digas o que queres.

- Posso me sentar?

- Quem és tu?

- Eu quero saber quem é você.

- Assim fica difícil.

- Sou o cara que perdeu o prêmio semana passada.

- Ah, sim. Isso, às vezes, acontece.

- Mas acontece comigo sempre. A chance está bem na minha frente e eu a perco.

- Você é uma pessoa pessimista?

- Talvez.

- Você faria alguma trapaça para conseguir essas oportunidades? Mentiria ou omitiria informações relevantes?

- Não sei. Acho que não.

- Então, Você é boa gente.

- Como assim?

- Você tem uma namorada?

- Sim. Cecília.

- O senhor diria que ela é bonita?

- Claro!

- Linda e estonteante?

- Hum... ela é bonita, mas...

- Mas existem outras bem mais bonitas e você as conhece. Então você é boa gente.

- Não entendo sua lógica?

- Já traiu sua namorada?

- Não! Aonde você quer chegar?

- Foi você que me disse que não consegue nada na vida. Onde você mora?

- Tijuca.

- Qual foi a coisa mais importante da sua vida?

- Viajei com para os Estados Unidos há alguns anos.

- Boa Gente!

- Que merda ficar me chamando de Boa Gente!

- Você não mora no subúrbio e nem na Zona Sul. Você não namora Luana Piovani, mas também não está a misere. Seu trabalho não é braçal, porém não é um líder. Você nunca construiu algo grandioso, mas tem alegria.

- Não entendo. Quer dizer que sou gente boa porque não sou um homem poderoso e nem um completo fudido?

- É assim que a gente define na mídia, na verdade, na vida. Você não vai aparecer na mídia porque não fará nada de grandioso. Por outro, não fará nada muito besta. O grande empresário e o assaltante aparecem. Você não.

- Minha vida é nada?

- Para você não. Nem para os que estão próximos de você. Afinal, você é boa gente.

- Que raios de definição maldita essa!

- Você não será invejado e, portanto, não será odiado. Mas também, não será adorado. Espere, ao menos, ser esquecido.

- Que versão triste da minha vida.

- Não tem nada triste na minha lógica. Você é o número 8.

- Oito?

- Aquele que sabe um pouco mais que os outros. Mas não é tão competente para chegar a nove, dez....

- Você nem me conhece.

- ...aquele que todo mundo cumprimenta na portaria, mas esquece de convidar para festa.

- Chega!

- Você é a média. Grande média da população mundial...

- Não quero mais saber.

- Então o que queria?

- O programa realmente existe?

- Claro que existe.

- Quero uma segunda chance.

- A lógica do programa é o inesperado. Não temos acordos. Procuramos alguém na rua com a cara do programa, o interpelamos e damos o que a pessoa desejou, através de uma quantia em dinheiro. É apenas um quadro.

- Meio besta, não?

- O público gosta.

- Qual o nome do programa?

- Boa Gente.

Me levantei e fui para casa determinado a terminar o meu romance esquecido há anos. Agora ele vai virar best-seller.
Raposa do Pequeno Príncipe

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Um homem para chamar de seu

É fato, já diagnosticado e comprovado. O mais importante das nossas vidas é com quem iremos nos casar. Nem adianta dizer que é a profissão. Porque não é. Quantos filmes você vê sobre pessoas que estão indecisas entre serem médicos ou artista plástico? Agora me conta quantos falam sobre encontrar a pessoa certa para se viver feliz para sempre? Então, a gente sabe que a vida real não é bem assim. Mas a ficção é o processo catártico dos nossos desejos. Não são apenas as mulheres que dão suspiros na frente da tela entre os beijos apaixonados de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet . Tudo bem, não é exatamente suspiro que os homens dão ao verem Scarlet Johanson se pegando com a Penélope Cruz, mas eles também têm seus sonhos românticos.

Existe uma coisa, que podem ter certeza, todos nós vamos ter durante a vida, e não é catapora, nem gripe. É a frustração amorosa. Quem nunca se apaixonou pela vizinha gostosona e tudo que conseguiu foi um “Bom dia!”, ou então, pelo professor do colégio e tudo que recebeu foi um “Muito bom”, por você ter respondido certo a questão. Bem é uma condição geral, nascemos, crescemos e temos correr para encontrar o ator principal da nossa história.

Tudo começa na infância, quando aprendemos que não existe amizade entre sexos diferentes. Pois, estamos brincando com um amiguinho, e nossos pais já começam com a ladainha: “Ohn... Olha o namoradinho dela, que bonitinho e blá, blá, blá...”. Assim, a gente começa a detestar os garotos, apenas para não passar por aquela pagação de mico. Mas a gente cresce e ocorre o inverso. Nossos pais afastam qualquer possibilidade de namoro até os 18 anos. Portanto, tenho a tese que a nossa vida, basicamente, consiste em nascer, sofrer, e se desesperar até conseguir um casamento. Estudos, trabalhos são apenas laboratório para aparecer bem na tela ao lado de um bonitão. No meu caso... Bem, terei que exemplificar por meio da minha história para vocês terem certeza que esta não é apenas uma hipótese, mas uma verdade comprovada cientificamente.

O percurso em busca do ator perfeito começa cedo. A gente passa a maior parte da nossa vida em papéis ridículos e contracenando com vários coadjuvantes. Ganhei o meu primeiro papel aos dez anos. Eu estava sentada na portaria do colégio, esperando o meu pai me buscar, quando o avistei. Cabelo em corte assa delta, pele branca e uma pinta do lado direito do lábio superior. Essas foram informações suficientes para eu me apaixonar perdidamente em segundos. Naquele dia, ao chegar em casa, corri para o meu diário e escrevi: “Não sei nada sobre ele, nome, idade ou endereço, mas estou completamente apaixonada pelo menino da pinta do lado direito do lábio superior”. E pronto, assim ficou registrado o começo da minha primeira e devastadora paixão. Que realmente devastou as minhas notas na escola, pois o dia que não estava sonhando acordada, eu passava o tempo tentando descobrir coisas sobre o tal rapazinho.

Primeiro comecei a segui-lo depois do recreio. Depois montei guarda onde colocavam as cadernetas, para descobrir a identidade da criatura que dominava as folhas do meu diário: “Eu amo o menino da pinta do lado direito do lábio superior. Eu amo o menino da pinta do lado direito do lábio superior,...”. Todo dia o inspetor olhava pra mim desconfiado e eu sorria. Às vezes, ele me olhava com as sobrancelhas já franzidas e eu dava sorrisinho bege. Roubar uma caderneta é como assaltar um condomínio fechado na Barra. Como atravessar a mesa de carimbos do inspetor? Um dia tive uma idéia. Fingi que ia amarrar o tênis e apoiei o pé em baixo da mesa e a forcei para o meu lado. Ela não se moveu. Coloquei mais força. Ela sacolejou. Saco! Meti a mão e virei tudo de uma vez no chão. Páááá. Inclusive, virei junto. Caderneta para todo lado, um inspetor furioso, e alunos rindo muito alto. Não me importei, afinal, era uma prova de amor. E eu consegui! Entre milhares de fotinhas de rostos feios no chão, lá estava a dele.

Agapito? Agapito Leite Troina Neto. 10 de agosto de 1976. Rua General Domiciliano Ramos, 171, Pau Ferro. Telefone: 2250.6969. Filiação... a caderneta voou da minha mão no momento em que eu ia anotar o nome da minha futura sogra. Fui mandada para sala de aula. Por que o indivíduo tinha que se chamar Agapito? Existe tanto nome bonito. Sempre sonhei em me apaixonar por Paulo ou Raul. Logo, as pessoas souberam da minha platônica paixão. Óbvio que as piadinhas surgiram, era: “fulaninha gosta de agarrar pinto” pra lá, “fulaninha gosta de leite do pinto” pra cá. Nome infeliz. Foram meses de embromação, eu morria de vergonha que ele soubesse que eu o namorava escondido. Mas, vocês se lembram da época de colégio, né? Ele ficou sabendo e tacou um baldo de granizo na minha cabeça. Palavras como pirralha, feia e sem peito ressoam na minha memória até hoje. Crianças são tão cruéis. Não acredito que levei um fora de alguém chamado Agapito. Terminou com muitas lágrimas e frases no meu diário, caderno e agenda: “Por que ele não me ama?”. A vida seguiu.

Não vou contar de cada frustração amorosa e pés na bunda que eu levei. Isso daria um filme de Woody Allen. Passei cinco anos sem querer saber do sexo aposto. Até que me apresentaram um roteiro muito interessante, não teve como recusar. Sinopse: Professor e aluna. Ele manda mensagens românticas, flores, telefonemas no meio da tarde, milhares de elogios e tudo para ganhar apenas um beijo. Você, a mocinha encantada, acredita que é irresistível e cede. Qual é a próxima cena? Você descobre que ele tem outra namorada. Há três anos. E no dia do aniversário dele, que ele quis passar com a família e não pode lhe ver, eles estavam viajando juntos. Final feliz: Eles se casam e você tem toda vida pela frente. Mais choros e postagens depressivas no blog.

Passamos por muitos coadjuvantes durante a história. Um deles era um cara que me amava desesperadamente, lambia meus pés, fazia o que eu mandava, me dava presentes a cada semana e metade do salário dele era direcionado a mim. Conclusão, eu o achava um panaca sem personalidade, o trai, e terminei com ele no nosso aniversário de seis meses de namoro. Comecei a sair com outro. Este não confiava em mim, não me pagava nada, reclama quando eu deixava de pintar as unhas e até de um fio desarrumado do meu cabelo. Uma espinha na testa! Me apaixonei perdidamente. Ele me chamava de egoísta, eu dizia que ele era um “cabeça-dura”. Ele trabalhava o dia inteiro e eu vivia nas chopadas da faculdade. Portanto, em seis meses, seis términos. Por fim, ele me trocou por uma mulher dez anos mais velha, engenheira e rica.

Nada mais de relacionamentos sérios e a minha idade aumentando. Minha mãe me mandava arrumar um homem. Eu comecei a olhar minha lista do MSN atrás de algum atrativo esquecido dos tempos da escola, nada. Lista do Orkut, entre mais de 500 pessoas, todos os coleguinhas bonitinhos tinham pendurado no pescoço uma patricinha com franjinha no cabelo. Frequentei boates e boates. Essa foi a época dos figurantes, você acaba aceitando qualquer papel, porque você não tem mais unhas e seu cabelo está caindo. Eles até ligavam no dia seguinte e marcávamos alguma coisa para o próximo fim de semana. Mas logo se perdia o interesse. Eu não ligava por orgulho. Eles não ligavam por que viam que não ia me levar para cama no terceiro, nem no quarto, nem no quinto encontro. Minha mãe já dizia: Quer arrumar namorado em festa? Só em festa de família. Na night, as pessoas só querem refeição para uma noite e a self-service.

Existe tempo pra tudo. Há tempo para você esnobar e o tempo de aceitar qualquer coisa que aparecer. Infelizmente para os homens as regras funcionam diferentes. Aos trinta anos estamos acabadas. Somos olhadas numa boate como espécie de animal nocivo e em extinção. Na igreja somos julgadas como beata contra a vontade de Deus. Como não crescestes e multiplicastes, mulher? A sociedade te vê como a mal amada ou semelhantes piores. Ou vai dizer que você nunca ouviu dizerem que tal professora é um carrasco por falta de homem? Hein? Sabe por quê? Pois desde pequenas aprendemos a encenar fazendo comidinha e a cuidando da casa e dos bonequinhos. Então, nunca conseguiremos o Oscar sem alguém para contracenar essas cenas. Conclusão geral: Não há saída, na verdade, todo mundo quer um homem para chamar de seu.


Raposa do Pequeno Príncipe

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O livreiro

O acervo dele é imenso. E a cada dia ele adiciona mais um item a sua coleção. As pessoas estupefatas, aos milhares, admiram a imensa coletânea. Não apenas admiram como também participam dos investimentos do proprietário. Cada um doa a sua contribuição, e é necessário apenas preencher um pequeno formulário.

Desse modo, mais ou menos, que tudo começa. As pessoas o conhecem por meio um amigo em comum ou um membro da família, já fisgado pela ostentação do novo companheiro. Sua fórmula de sedução é antiga, mas a vestimenta é nova. De modo que é aceito como novidade, conforme a máxima “nada se cria, tudo se copia”. Cada vez mais ele reúne membros para sua seita, apesar da propaganda não ser tão grande quanto à dos concorrentes.

Porém, às vezes, o importante nem é o produto, mas o vendedor. Uma boa lábia convence homens solteiros a comprarem brincos caros para as pretensas futuras namoradas e mulheres a investirem em cremes redutores de medidas. O livreiro é esperto, digamos assim, bom de lábia. Ele no fundo quer apenas vender seu produto, mas oferece tantas outras coisas além do objeto, que nos convence que suas pretensões são outras.

Após recolher as suas informações pessoais, ele seduz as pessoas com notícias, anúncio de eventos e apresentação de estatísticas. Manipula quem gosta de fazer listas e os que apreciam compartilhar “conhecimento” com seus semelhantes. Poderíamos chamá-lo de produtor cultural, já que ele organiza um ambiente para as pessoas poderem discutir sobre os livros e autores, escrever opiniões e dar dicas de leitura. O livreiro nos remete a personagens já conhecidos. A imagem de um estante preenchida por capas de livros, com conteúdo virtual, é como um novo álbum de figurinhas. Os seguidores do livreiro exalam a vaidade de quem apresenta uma coleção de selos raros. O produtor reúne membros da equipe com 200 títulos e outros apenas com sete, as pessoas se sentem sábias ou ignorantes em sua presença. O poder do livreiro é ínfimo comparado ao seu amigo turco, mais popular e sedutor. Mas, sua força está no desejo de posse das pessoas, que no fim das contas é a arma de toda a concorrência.

O livreiro pretende subir alguns degraus na próxima semana durante a XIV Bienal do Rio de Janeiro e, assim, se juntar a demanda dos colegas de compartilhamento de vídeos, fotos, músicas etc. Mas como ele é muito vaidoso intelectualmente, ele só quer saber o que você já leu, o que tem a dizer sobre o livro e o que poderá emprestar (?) e não mais que isso. Um clube de leitura e opiniões de quem entende do assunto no meio do mar de verborragia “pseudo-inteligente” dos seus membros.


Raposa do Pequeno Príncipe