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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sossego

Depois de sobrevoar boa parte das minhas terras hoje à tarde, pisei em casa e pude ler o sagrado jornal. Com uma sensação de dever não cumprido porque mais uma vez não consegui vislumbrar toda a minha propriedade, o meu crescente pedaço de “chão do mundo”. Um único dia já não é mais suficiente, agora preciso de dois para fiscalizar os meus protegidos pés de laranja. Mais alguns anos e em três dias já ficaria apertado.

Eu tenho uma espécie de fixação pela propriedade, admito – isso é coisa comum –, uma fixação que começou ainda nos tempos do movimento. O movimento era o dos sem terra e eu, um dos seus inúmeros integrantes. Agora eles são, para mim, como pragas que se multiplicam. Pragas para as quais ainda não inventaram um inseticida específico. Eu era um deles, comecei de baixo, mas passados dois meses eu já freqüentava o alto escalão. No topo só chegam os mais ambiciosos e essa qualidade transborda em mim. Minha avó sempre dizia: “como você é articulado, menino!”; Uma pena ela ter visto que, na verdade, eu sou é um grande articulista...

Já com dois anos de movimento e algumas ocupações – nem sempre de terras improdutivas – no histórico, eu consegui comprar a minha primeira fazenda. Permaneci no movimento e contratei meu primeiro “laranja”, estava formado um verdadeiro ciclo vicioso.

O ciclo: eu comprava mais terras, quase todas as propriedades vizinhas da antiga fazenda hoje me pertencem, continuava no movimento e empregava mais “laranjas”. No entanto, com dez anos de movimento eu sumi do Brasil. Percorri os estados Unidos e a Europa e fui esquecido pelos companheiros de cá. Graças a deus, esquecido, era tudo o que eu queria. Saí do movimento e, por ironia, troquei meus 15 “laranjas” por incontáveis laranjeiras.

O motivo de ser deste registro não é qualquer arrependimento passado, mas sim a irritação causada por uma reportagem.Tenho dinheiro, terra, família. Já plantei muitas, mas muitas árvores, mesmo que todas iguais, e não escrevi nenhum livro, nem nunca quis. Ainda assim arrumam um jeito de tirar meu sossego.

A página 8 do jornal de hoje me mostrou que lá de Washington (que eu já visitei quando larguei o movimento) a Senadora Marina Silva pretende modificar a CPI dos assuntos agrícolas. Graças à minha imunidade latifundiária, até então eu estava tranqüilo, mas o problema é que a tal senhora de óculos quer incluir o que ela chamou jocosamente de “ruralistas” nas investigações. Não gosto dessa expressão, mas até onde eu sei, ela se refere ao grupo do qual faço parte. Mas, pensando melhor eu pergunto a vocês: Será que o Brasil está realmente mudando? E por quê, logo agora que eu me dei bem?

Jean Baptiste

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Gente boa

Nada mais comum nesse mundo, ou em qualquer outro, do que um gente boa.

Difícil dar uma volta no quarteirão sem topar com um legítimo exemplar dessa ordem. Gente boa não quer profundidade, nem tem grandes projetos: ele é o que ele é.

Perdoem, meus amigos, a tautologia, mas gente boa não admite comparações. O que seria o oposto de gente boa? Gente má? Definitivamente não. Atenção! Falta leveza a qualquer concorrente que ouse se apresentar... Gente boa é alguma coisa auto-suficiente, não precisa do outro.

Gente boa não quer nada além do que ele traz: frescor. Gente boa não é juiz, nem réu, nem lobo nem vovozinha. Permitam fazer dele um funâmbulo, que percorre a linha que liga o paradoxo ao nada.

Gente boa pode ser o ladrão da esquina, basta ele devolver o seu documento. Apesar do susto, foi gente boa.

Nenhuma contradição machuca um gente boa, ele requer boa dose delas. Gente boa nunca tem ideologias. Cazuza foi um registro exemplar, quis deixar de sê-lo: fracassou. Nem o maior dos poetas conseguiria livrar-se de tal fardo.

Ninguém: pobre, rico, santo, assassino, escapa do fato de em algum momento ter sido um... gente boa. É isso o que nos justifica.

Gente boa não merece ser escrito, nem dito pessoalmente. Gente boa está sempre em terceira pessoa. Nunca anda conosco.

– Tá vendo aquele sujeito?

– Não.

– Então, ele é muito gente boa.

– Concordo.

A coisa mais parecida com um gente boa que eu já vi foi o ovo da Clarice. Se bem que este carrega um mistério, oculta poderes. O nosso objeto não: gente boa é sempre um legítimo gente boa. Não se pode ser mais ou menos.

Gente boa não precisa de qualidades. É capaz de boas atrocidades. E isso justifica a violência que tantos outros gente boas nos divulgam.

Ser gente boa exige apenas uma condição: que antes seja gente. O meu cachorro é muito gente boa. Porque alienado como todos nós.
Jean Baptiste