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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Gente boa

Jesus era gente boa. O Senna era gente boa. O Dom Pedro II, dizem, era gente boa. A madre Teresa de Calcutá era gente boa. Também o Zumbi, a Chiquinha Gonzaga, o Martin Luther King, o Gandhi, Saão Francisco de Assis, enfim... todos gente boa. Mas essa galera toda, infelizmente, já morreu. Fazer o quê? Paciência. Todo mundo tem que morrer um dia. Agora gente boa, boa mesmo, pra mim, é o Sarney.

Pára pra pensar. Homem bom, caridoso, com um coração grandão assim que mal cabe no peito. Nordestino, ele superou o preconceito e venceu na vida. Liderou o Brasil depois de anos uma marcha fúnebre, literalmente. Foi o primeiro presidente civil a assumir o poder depois de décadas de ditadura militar. Não é todo mundo que agüenta isso não... Generoso, ele não hesita em dividir. Conseguiu um monte de coisas e quer mais é que os outros tenham o mesmo. E nada mais natural do que querer dividir isso tudo com as pessoas que ele mais ama, especialmente os familiares e amigos.

Corajoso. Todo mundo aí falando um monte de coisa sobre ele e o homem continua lá, firme e forte. Seguindo em frente de cabeça erguida. E a humildade? Nossa... Ele não tem medo de perder o lugar onde está não. Ele mesmo diz, se quiserem me tirar daqui, podem tirar.

Enfim, eu podia ficar aqui me rasgando de elogios, mas acho que já deu pra ter uma certa idéia do nível de quem estamos falando. Claro que todas essas personalidades que eu citei no começo têm suas muitas qualidades, mas para mim, não tem competição. Eles são todos pessoas bem legais, mas agora, gente boa, boa mesmo, só o Sarney.


Lois Lane

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O galo no meu Sabino

O diacho já era difícil: ler. Aquele bando de letrinha, tudu junto, coladinho, exprimido que nem fosse pau-de-arara no primeiro dia da colheita. O tal do texto então, vixe!, era pior. Mas o professor disse-que-disse que eu tinha que aprender mais de lê e escrevê pra conseguir a tal da aposentaduria. Eu não entendi direito não, mas o professô dotô falô que é bão, mas bão mesmo porque a gente ganha mermo sem trabalhar e eu não sou cabra de ficar recusando dinheiro assim que sobrando num tá...

Comecei e já fiquei cabreiro. O nome do “homi” era Fernando. Até aí, vá lá, porque o nome do pequinininho do seu João lá da obra também é. Mas depois tinha escrito lá: Sabino. Tinha, sim senhor que eu vi. Foi nessa aí que eu encasquetei. Sabino, cê sabe, lá na minha terra é um pé de planta assim amaralinho, meio vexado, miúdo, que quase num dá, mas não é que dá.

Agora onde já se viu dar um nome assim tão garboso desse, Fernando, e botar do lado Sabino. Vá lá que seja, aqui na cidade grande eu já vi uns nomes abirobados que só: as minha vizinhas lá em casa mermo, uma é Madeinusa, e a outra Chevrolete. Mas é da Silva. Da Silva eu conheço. Da Silva tem um monte que tem. Agora, Sabino? Resolvi que era miór deixar isso pra lá que eu ainda num tinha lido era nada.

“A laranja foi um dia inventada por um grande industrial americano, cujo nome prefiro”... Có-Có-Ricó!

Ta aí o galo. Logo no começo do meu Sabino. Se fosse uma, duas, vá lá, até umas cinco vezes eu tinha mareado e pronto. Mas o diacho do galo ficou cantando o tempo todo. Era eu abaixar a cabeça e o embestado começava:

“Fruta cítrica, suculenta e saborosa, ela começou sendo chupada às dúzias por este”... Có-Có-Ricó! Óie, e o pior é que ocê num acredita. Eu dô um doce pra quem adivinhar o nomi do professor. Filipi Pena. Eita, mas vai ter coincidência assim lá nus inferno!

“Com o correr dos anos o molecote virou moleque e o moleque virou”... Có-Có-Ricó! “Apaixonou-se pela filha do dono do”... Có-Có-Ricó!! Diacho, assim é que eu não vou sair do lugar. “Meteu-se em peripécias amorosas que já inspiraram dois”... Có-Có-Ricó! “Passou a vender laranjas. Como, porém”... Có-Có-Ricó!! “Pior foi a emenda que o soneto, no caso”... CÓ-CÓ-RICÓ!!!!!! ARRE, EU VOUDAR FIM NESSE GALO!

Antes de entregar o bicho ao Sete-Pele resolvi conversar com o maldito e pedir pra ele pará com essa apurrinhação:

- Ô seu frango, será que não dá pro senhor ir cantar de galo em outro lugar, não?

Mas não deu foi em nada, e eu que já tava fumando numa quenga resolvi de uma vez: o galeto ia morrer. Só faltava decidir como.

Primeiro, eu pensei no mermo que ocê: vou degolar o safado. Mas eu não tinha UMA machadinha que fosse pra contar história... Aí eu pensei então em esfolar o bicho. Mas ia ficar tudo breado e eu ainda ia ter que limpar.

Pensei em matar o desgraçado de rir, de susto e até de vergonha, mas isso ia demorar muito e eu ainda não tinha lido era nadica de nada. Tinha que ser uma coisa rápida. Por causa disso aí também que eu desisti de fazer um canja, se bem que a patroa até que ia gostar...

Eu quis dar um tiro, uma facada e até uma flechada no frangote, mas eu não tinha nem arma, muito menos arco-e-flecha. Tinha uma baladeira daquelas que você bota a pedra no meio e puxa, mas duvido que isso fosse dar cabo do enxerido. Ainda dava pra eu tentar afogá, queimá, enterrá e atropelá o bicho. Mas no fim, resolvi que, cabra macho que sô, eu ia era esganá o galo.

Saí e fui atrás dele. O fingido tava logo ali e num foi difícil de achar porque até sem eu tá mais lendo ele continuava dando uma de cantor. Olhei pro desgraçado e disse:

- Ô seu galeto egoísta dos diabos, ocê quer é acabar comigo! Por sua causa o professor vai ralhar com mais eu até cansar e eu num vô consegui aprendê lê nem escrevê. Num vo consegui minha aposentaduria, vo ficar burro, velho e pobre, sem um tustão no bolso, meus mínimo num vão ter o que comer e minha patroa é bem capaz de mi enxotar purque eu num presto pra nada. E o ocê nem se importa!

Óie, mas eu juro pelo meu santo Antônio dos cajueiro do rio são Francisco da Paraíba que di repente, num é que o bicho parou de cantar? Ficô me bisoiando com aqueles óio miudinhos assim que nem tivesse achado um milho no meio da terra e eu já que já tava era achando aquilo tudo muito estranho, num tinha idéia do que ia se suceder dipois. O tal do galo sentô ali mermo no meio do quintal,baxô o pesoço, colocô a cabeça no chã, abriu o bico e soltô assim baixinho que quase num deu pra ouvir:

- Có.

E bate a caçuleta. Vixe!


Lois Lane

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

É tudo culpa da Maya

- Não dá. Não dá. Não dá! Assim não tem santo que ajude!

Dizem por aí que Deus é brasileiro. Afinal de contas o Senna, o Pelé, o Chico Buarque, o Cartola e o Machado de Assis são todos brasileiros. Vai ver Deus é mesmo brasileiro... Mas também tem o Sarney, o Collor, o Sérgio Naia, o Eurico Miranda... É... Pensando bem, acho que Deus deve ser norueguês.

Andam dizendo por aí também que nem sabiá mais canta na terra das palmeiras e que os brasileiros andam tão desiludidos com a pátria amada que estão até acelerando a ida para o céu em busca de uma vida melhor.

Cansado de ver o fluxo de entrada no céu atingir um nível caótico com a chegada de tantos brasileiros, São Pedro resolveu que era, enfim, hora de levar um tête-à-tête com o Cara:

- Senhor, o senhor sabe que em quase dois mil anos de história da Salvação eu nunca tomei o seu infinito tempo com os meus problemas, mas é que, de uns tempos para cá, a coisa tem ficado cada vez mais vermelha lá nos portões. Eu já recrutei todos os querubins disponíveis, acabei com as férias dos serafins – por sinal, dá uma intercedida por mim depois -, contratei dois arcanjos novos e ainda assim não consegui dar conta de tanto brasileiro que chega pedindo para entrar no céu. Ô povo pra saber pedir!

Eu sei que há 6,6 bilhões de outras preocupações na Sua cabeça. Foi por isso que eu mesmo já pensei em como resolver o problema. É simples, Altíssimo, só é preciso que os brasileiros gostem mais do Brasil. Assim, eles vão ficar felizes e não vão querer aparecer por aqui tão cedo. Por exemplo, que tal se o Senhor desse uma mãozinha pra tirar o Sarney do Senado? Até quem não é brasileiro vai ficar feliz. A única pessoa que pode ficar triste com isso é o próprio Sarney e se ele quiser morrer, isso não é problema meu porque na minha fila é que ele não vai ficar.

- Nada feito.

- Tudo bem, fazer o quê? E que tal se o Fluminense ganhar um jogo? Pense só quantos torcedores desiludidos e amargurados ficariam felizes com esse feito! Muitos suicídios serão poupados, lágrimas de emoção serão derramadas e a esperança vai renascer. Veja bem que eu não estou pedindo pra ele não ser rebaixado, porque aí também já seria demais.

- Impossível.

- Poxa, Elevado, assim vai ficar difícil. Já sei, e se o Senhor desse um sumiço de verdade no Belchior? Ah, vai, confessa que até o Senhor está torcendo pra que isso aconteça.

- Melhor esquecer.

- Dá pra dar um jeito na seca? Acabar com o desmatamento? Tirar todas as molas do carro do Rubinho?

- Olha, essa última até que eu gostei. Pronto, ta aí. Vou tirar todas as molas do carro do Rubinho.

- Poxa, Deus, obrigado, pelo menos uma eu consegui. Agora o Criador me dá licença que acabaram de me avisa que o Raj ta subindo aí.


Lois Lane