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sábado, 12 de setembro de 2009

Com "I" e com "L"

Espere, já vou achar. Tinha certeza de que estava aqui, mas no meio de todos esses papéis não garanto encontrar mais nada. É um envelope não muito grande, de papel pardo e com o conteúdo não muito rechonchudo. Aqui está. Perdoe a demora, é que são muitos. Desde que o Galvão chegou aqui com essas modas de informática, não tivemos mais paz. O chefe gostou da idéia de modernizar e agora estamos passando todas as fichas para o computador. Um martírio – que me desculpem os mártires, mas é.

Já adianto que cumpri tudo o que estava programado e, por isso, posso me dar ao luxo de perder tempo em prosa. Bom, estava eu lendo despretensiosamente os papéis, quando me deparei com esse. Tive que separar para comentar. Li mais de 1 milhão de fichas nos últimos dias e, com certeza, essa é uma das melhores. Assustou-se com o número? Deixe eu explicar então. O chefe teve a esperta idéia de organizarmos as cidades que apadrinhamos. Bom para ele, que se chama Pedro e teve que arrumar uma aldeia com pouco mais de 75 mil fichas. Já eu, que me chamo Gonçalo... Poderia ser pior. Pobre Sebastião...

Tudo começa numa família simples. Geralmente, as melhores começam assim. Pais dedicados criam filhos bons, na maioria das vezes, inclusive nesta. Não li a ficha deles, mas posso dizer que se empenharam verdadeiramente. Que primor de menina! Respeita os mais velhos, se esforça na escola, ops, na faculdade e ainda trabalha. É caseira, não tem vícios, nem faz mal a ninguém. Pode parecer careta, mas isso conta muito. Ainda mais para um santo como eu.

Possui uma sensibilidade rara, por mais que seja distraída, na maioria das vezes. É honesta ao extremo, e isso posso garantir. Sonha como apenas os pequenos podem sonhar, pois são capazes de ver mais de perto o chão sujo e duro. Tem muitos amigos. Muitos. Não há quem diga algo de ruim sobre ela. É unanime. Gosta de sorrir como poucas pessoas, por mais que, por vezes, deixe a rotina lhe cansar. É humana. Tem defeitos, é claro, mas não fica bem para mim sair falando assim deles. Não posso me entregar a malidissências.

O que mais gosto nela é a luta. No Brasil, pessoas simples que chegam à faculdade tem que ser admiradas. Ela, além de entrar, se destacou pela eficiência e inteligência. Chamou a atenção de todos por seu modo de trabalhar duro e de liderar com leveza. Sabe brigar por seu espaço sem fazer inimigos, o que é raro, e, principalmente, sabe cedê-lo quando é preciso. Quando todos são levianos, endurece e os acorda, e quando estão todos endurecidos, descontrai e pondera.

Posso dizer que é madura sem perder a jovialidade, que é leve, mas tem fibra, e que tem força, mas delicadeza. Que ama a música, os doces, os desenhos e Johnny Depp, mas tem namorado. Que é genial, sem ser pedante, engraçada, sem ser inconveniente, e pequena, sendo gigante. Bom, dizem que os homens são insetos. Se são, sem dúvida a Jane é uma joaninha.


Mudo

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sotaque Irrônico

Meu sofrrimento é eterrno. Jurro que sou totalmente inocente e, inclusive, desde que nasci, nada pude fazerr para merrecer tamanha pena. Cerrtas vezes, me perrgunto se não serria um castigo a meus antepassados, já que estes, parra aumentarr meu desprazerr, não tive ao menos a chance de conhecerr. Na verrdade, nem sei de onde vim. Pelo sotaque, devo ser da Frrança, mas, como dizem que também puxam os “erres” no Quebec, não tenho certeza.

Não me aguento mais de pé e não suporrto mais estas roupas que esquentam demais no calorr, pesam demais na chuva e não prrotegem do frio. Meus brraços doem de cansaço e meu pescoço está tão durro que prrocurro nem lembrrar que o tenho. De cerrto, deve estarr pensando que é frrescurra minha. Pois experrimente carregar peso porr tanto tempo. Ou melhorr, veja o quanto consegue manterr a mão apontada para o céu com o cotovelo completamente esticado. Duvido que conseguirria mais tempo do que eu. Dessa dorr eu já me resignei, pois o que me irrita mais são os joelhos. Se soubessem o quanto eu odeio ficarr de pé… Prrefirro nem olharr parra minhas perrnas, que já devem estarr de desenhadas de varrizes horrendas.

Outrra coisa que me enfurrece (não pense que sou tão ranzinza, só estou aproveitando a rarra oporrtunidade de me lamentarr) é verr como as pessoas se alegrram com a minha torrturra. Apontam sorrindo, jogam coisas em mim, olham até de lunetas (sim, não pensem que não vejo os que trripudiam de longe, sou boa de fisionomia) e fotogrrafam para não se esquecerr. Serr humilhada diarriamente porr serres tão pequenos me deixa verrde de ódio. Sinto tanta raiva que enlouqueço e acho que estão andando na minha cabeça.

Ainda falando sobrre o que me irrita (não desista, acho que agorra é a melhor parrte), penso como os homens são injustos. Outrro dia, descobrri o porrquê do meu sofrrimento (sim, já sabia, mas não disse antes só de raiva). Sou um tipo de marrco parra eles. Soube que até gostam de mim, o que não muda o meu rancorr, que fique bem clarro. Não pude me moverr nos últimos 123 anos de dias interrmináveis e noites frrias ao relento parra que nunca se esqueçam do quanto é imporrtante ser livrre. Irrônico, não? Não me consola nem um pouco saberr que não fiz nada de errado e que o que faço é por sacrrifício, pelo contrrárrio. Felizmente, isso não tem adiantado e vejo o quanto esses homens que parrecem andarr para onde querrem são tão ou mais presos do que eu, pois nunca andam parra onde devem e terrminam porr gastarr sua liberdade em círrculos infinitos, o que é muito mais cansativo. É isso, querro mesmo é que não sejam livrres, prronto falei. É que me revolta muito. Sabe o que é o fim da picada? É terr descoberrto que me chamam de Estátua da Liberrdade. Aí já é demais.


Mudo