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terça-feira, 6 de outubro de 2009

- Tá bom, mãe. Pô, já falei que eu vou voltar de carona.

- Mas se cuida, então.

- Até parece que não me conhece, mulher! Beijos.

Pedro se considerava um adolescente normal que errava dentro da medida do esperado para os adolescentes comuns dos “tempos de experimentação”. Tinha tido algumas namoradas, traiu a primeira com a segunda e essa com a posterior, mas nada de caso pensado, e não que achasse isso certo. Simplesmente ele não parava para pensar muito a respeito e, afinal, ele não tinha prometido amor eterno. Achava sempre que com a atual é que era, essa sim, um relacionamento maduro.

Era do grêmio da escola e implicava com o pessoal do clube de xadrez, mas não chegava a sentir especial prazer nas perseguições organizadas pelos por alguns amigos. Também não se manifestava contra. Recebia uma mesada que dividia em duas parcelas: uma para comprar um carro e a outra para saídas. Saídas que envolviam beber, mas dezessete anos é quase dezoito e ele se considerava extremamente equilibrado e consciente.

Nunca chegou a pegar o carro da mãe e sair alcoolizado, mas aceitava uma carona ou outra quando considerava que o estado do motorista não representava perigo. Já era uma grana que economizava no táxi. Matava algumas aulas como todo mundo da sua idade, mas nunca chegou a perder o ano. E o curso de inglês era tão chato! Ele queria mesmo era fazer um intercâmbio, mas não sobrava dinheiro pra isso.

Jogava altinho na praia nos fins de semana e lá se envolvia com todo tipo de gente. No posto 9 de bermuda e sem camisa você não sabe quem é quem. Um dia foi chamado pra uma festa num sítio e lá rolou maconha. Ele aceitou, só pra ver como era. Nunca pensou em virar dependente ou coisa assim, ele não era cabeça fraca pra isso. A mãe queria saber de quem era o churrasco, ele disse que era de um amigo e não contou qual. Não era de nenhum amigo, mas era amigo de amigo, e ele tinha carona pra voltar.

Pra quem nunca tinha fumado nem cigarro convencional, até que ele foi bem. O problema é que os vizinhos, já cansados daquele tipo de festa com seu cheiro e o som nas alturas, ligaram pra polícia. Tinha tanta bebida, e ele, menor de idade, correu com todo mundo pra entrar nos carros, pular o muro ou o que fosse pra não ter que acordar a mãe no meio da noite e depois ouvir lição de moral em casa. Colocou uma garrafa de vodka embaixo da camisa, ele sempre quis uma garrafa daquela vodka polonesa, e se ela ali ia ficar pros policias.

- O que é que você tem aí escondido?

- Nada, pô.

- Então joga no chão e bota a mão na cabeça.

- A mão na cabeça? Há há, ta maluco. Não sou pivete não, porra.

- Joga essa merda no chão e bota a mão na cabeça.

“Ah, fala sério! Que PM babaca.” A reação foi rápida, ele ia tirar a garrafa e mostrar logo o que era, mesmo se ele tivesse que ser levado, depois ele se entendia com a mãe. Não era possível que ela achasse que ele nunca tinha bebido ou fumado um baseado. “Merda!”, o policial atirou. Atirou de novo. Foram dois estalos secos. Um nas costas e o outro na direção do ombro esquerdo.

O celular tocou. A mãe sempre achava que nessas festas de adolescente nunca tem comida e ela queria dizer que não tinha nada demais na geladeira, mas tinha dinheiro pra pedir alguma coisa, se ele chegasse com fome. Não seria necessário.


Srta. Bones I

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Gente boníssima

O maior gente boa que eu conheço é o meu pai. Não é que o malandrinho se dá bem com todo mundo? Não sei explicar direito porque ele é gente boa, isso é coisa que só se vê no dia-a-dia: ele é político e ele é charmoso – não no sentido literal, não com aquela barriguinha de oito meses de gestação de gêmeos gordos –. Sinal disso é quando os SEUS amigos vão te visitar e não querem sair da cozinha porque lá “tá legal”.

Ele é irritantemente cativante. Aos 48 começou uma faculdade com a desculpa de passar o tempo. Com dois meses já estava ganhando festinha surpresa da garotada de ADM da Estácio. Mais conhecido como “velho”, “coroa” ou “tio”, recebeu um tragicômico carro de mensagens com direito a espuma, tapete vermelho, coroa e megafone. No primeiro período, porque no aniversário seguinte a galera já tinha aquela intimidade e a animadora do carro de mensagens não era mais a moça do braço quebrado, mas um autêntico travesti cantando “At first I was afraid, I was petrified” na porta da nossa casa e chamando minha mãe de baranga.

E ele é gente boa porque eu nunca levei uma palmada. Eu nunca nem tive que ouvir broncas gritadas a plenos pulmões, a gente sempre batia altos papos como se minhas conversas aos seis anos fossem tão relevantes quanto a paralisação de funcionários da empresa dele. Eu me sentia gente grande. E ele é gente boa porque quando eu estou surtando com minha velhice – vinte anos não é pra qualquer um não – ele me fala dos planos pós-aposentadoria. É mesmo um bon-vivant. Me diz que a gente tem a idade que sentimos ter.

É gente boa porque quando vamos fazer compras pegamos um carrinho só nosso, separado do da minha mãe. No dela se concentram toda a sorte de coisas saudáveis e cascudas. No nosso só o trivial: chocolate, sorvete, congelados, cerveja e amendoim pros jogos do Premiére Futebol Clube e Pringles, afinal, se mente sã é corpo são, o inverso também se aplica. E mesmo com toda essa garotice ele é a pessoa com mais senso de justiça que eu conheço, ainda me admira ver como ele sempre sabe o certo a dizer e fazer. Mais ou menos no estilo daquele faxineiro do Planalto que achou a mala recheada e devolveu.

E ele é gente boa porque sempre que eu vou de alguma night tem um lanche me esperando dentro do forno. As vezes ele acorda, me vê naquele estado deplorável e diz “você é fraquinha, quando eu tinha sua idade já passei três dias virado” e eu respondo “mas o aprendiz nunca supera o mestre”. E nem quero.
Srta. Bones I

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Sinceridade infantil

Dizem que criança não mente, e acho mesmo que todos vocês já devem ter presenciado um momento de “sinceridade infantil”. É trágico, torça para nunca ser alvo de um desses arroubos de franqueza. Eu tenho uma sobrinha com sete anos e ela consegue ser mais ácida do que uma fita com piadas do Costinha.

Nada me tira da cabeça que a babá dela na verdade tá dissimulando uma promessa ou cumprindo um carma. A pobre Shirley é meio gordinha, é verdade. Mas a menina não dá descanso, outro dia meu cunhado estava recebendo vários amigos em casa para um videokê e a Shirley quebrou uma cadeira. No ato, sem pestanejar, sem perder o timing a menina disparou: “Droga, Shirley! É a 3ª essa semana, vou ficar sem ter onde sentar”.

A Shirley passou por todas as tonalidades possíveis de vermelho. E por falar em cores, mais novinha quando ela ainda não sabia todos os nomes de cores, ela virou pra um dos tios –um negro azulão – e mandou na lata: “Tio Carlinhos, você é tão lindo assim todo roxo!”. Mas família não é termômetro pra isso, todo mundo dá risada e acha isso uma gracinha.

A verdadeira escola da vida é o primário. É lá que se aplica a lei do mais forte e a máxima de que “aquilo que vai, volta”. Com essa mania de perseguição aos gordinhos ela conseguiu uma bunda inchada. Virou pra uma menina barrigudinha e disse que ela tava grávida. “Quais vão ser os nomes dos seus gêmeos? Há há há. *risadinha escrota de criança chata*”. Levou um belo pontapé no traseiro e ganhou um bilhete na agenda que pedia pra minha irmã ir lá conversar com a “tia”.

A última dela foi demais. Minha irmã foi ao mercado fazer compras – e eu não sei porque as pessoas insistem em fazer compras com filho pequeno se já ficou mais do que comprovado que isso dá merda em 101% dos casos – e ela pediu porque pediu pra passar na casa a minha avó, a “bisa”. Tanto fez que a mãe dela resolveu ir. Chegou lá e minha avó disse “Oi querida, veio visitar a velha?” ao que minha irmã foi logo respondendo “É vozinha, vim matar a saudade”. Não é que a garota emplacou um: “Mentira, bisa. Ela nem queria vir, só eu e ela só me trouxe porque não tinha almoço pronto lá em casa”.


Srta. Bones I

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O problema não é você, mas talvez seja

Tenho um amigo que sofre de disfunção erétil. Calma, não tenho. É que todo mundo diz que “tem um amigo” com tal problema para conseguir a resposta de algum drama pessoal sem ficar envergonhado, sentir o rosto esquentar e ter certeza das dezenas de dedos reprovadores – imaginários – pelas costas. Mas não posso dizer que é comigo, aquilo que não é. E eu realmente tenho um amigo com problemas, adivinhem, sentimentais. Óbvio!

Entramos no século XXI sem os jovens poetas tuberculosos e as musas pálidas (essas foram substituídas pelas turbinadas cheias de curvas estratégicas e volumes reveladores). Mas parece que por uma transmissão intrusa via Bluetooth as pessoas continuam se contaminando pelo indesejado amor. Todo mundo já deveria a ter aprendido a deixar seus “mecanismos de transmissão e recepção” desligados: isso só serve para consumir sua bateria mais rápido e te deixar vulnerável a toda sorte de “arquivos” (arquivos aqui com valor de “amores”) indesejados.

Um dia esse meu amigo – cara, não sou eu – estava numa festa e antes das três doses de vodka que a situação merecia, assim a seco, ele viu a sua ex num contato muito empolgado com um desconhecido. Aí ela estava lá, também recém-saída de uma desilusão amorosa. Eles se encontraram e uma semana depois já eram o antibiótico um do outro. O tipo de remédio a que o seu organismo vai se acostumando e você apela para a automedicação, aumenta as doses por conta própria tudo sem falar com seu médico. Depois ninguém pode vir reclamar dos efeitos colaterais. A musa do meu amigo era bipolar.

Por oito meses eles namoraram sem briga, sem ciúme, sem traição, sem desgaste. Depois disso ela terminou. Não era ele, não era ela, não era outro. Ela só não queria mais, pronto. Algumas semanas depois eles se reencontraram e, por sugestão dela, tentaram uma reaproximação. Na segunda, praia, na quarta, rodízio de japonês, na quinta, cinema, na sexta, bar e no sábado ela terminou tudo. Foram num aniversário e ela não falou nem uma palavra, não fez nem um carinho. Ele foi perguntar e ela disse que ele “poderia se poupar de certas coisas”.

Não tem desfecho, eu ainda gasto cerca de duas horas diárias consolando esse amigo. Entre tantas metáforas intrincadas eu diria que são os efeitos colaterais do Bluetooth ativado. Pode ser bom ou pode ser ruim, mas um dia desses no Cinemark eu recebi no celular o trailer de “Se beber, não case”, e foi bom.


Srta. Bones I