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terça-feira, 29 de setembro de 2009

Gente boa

“Não precisava dar um tiro na cabeça dele”. Todos devem ter ficado sabendo do assalto que aconteceu na Tijuca, na tarde da última sexta-feira. Um homem fez uma refém e ameaçou explodir uma granada. A polícia, para impedir um desastre, atirou na cabeça do assaltante. A frase que abre a crônica foi dita pela irmã do rapaz, que se chamava Sérgio Pereira Pinto Júnior. Sim, ele tinha nome!

Eu estava decidido a ignorar os comentários a respeito do acontecimento e, até mesmo, a me retirar das discussões – o que, para mim, é uma tarefa realmente complicada. Antes, procurei abstrair as considerações sobre a morte de Sérgio (decidi chamá-lo por seu nome, não por “assaltante”, “criminoso” ou algo do tipo). Bem, como ia dizendo, as considerações sobre sua morte estavam sendo feitas em tempo real dentro de minha casa. Meus pais e irmãos comentando, ou melhor, comemorando a ação da polícia. Eu evitei passar pela sala para que ninguém pedisse minha opinião, pois ela, invariavelmente, gera polêmica. E me faltava paciência para discutir naquele momento. Aliás, faz tempo que me falta paciência para debates do tipo.

Estava conseguindo levar um dia calmo, livre de problemas, até que esbarrei com dois conhecidos na rua. Eles comentavam, com fervor, que a cena do boné de Sérgio voando no momento do tiro havia sido uma das mais bonitas a que haviam assistido na vida. Confesso que tive espamos musculares na hora. Foi necessária uma altíssima dose de autocontrole para não começar a esbravejar o que penso com considerável dose de estupidez. Obtive sucesso e consegui ficar quieto. Até agora, pelo menos, quando resolvi escrever para liberar minha implicância com grande parte da sociedade. Às vezes, um pouco de misantropia faz bem.

Só que a minha misantropia é, ou, pelo menos, tenta ser democrática, ao contrário da que manifesta a classe média brasileira, da qual faço parte. Existe um maniqueísmo quase doentio em nossa sociedade, e é ele quem me causa profunda irritação. É preciso encontrar um inimigo. No nosso caso, o inimigo é o tráfico de drogas e tudo o que dele surge como conseqüência. É comum ver a mídia e as pessoas falando em “gente de bem”. Quem é de bem trabalha, não usa drogas, não rouba e não trafica, além de possuir alguns outros predicados. E quem não é de bem é o quê? Não precisa muita esperteza para concluir que a criminalidade e a violência urbana sejam resultado principalmente de uma forte e covarde desigualdade social. Não se trata de defender a delinqüência, mas de entender a razão pela qual ela existe. E de não naturalizar o bandido como um inimigo a ser combatido e exterminado. Porque o inimigo não é a violência que começa basicamente nas comunidades pobres. O inimigo é a violência da não-educação, da indiferença e da falta de emprego. O inimigo é uma sociedade estruturada de um jeito, digamos, torto, que jamais poderá “dar certo”.

E então o leitor me pergunta, com razão, o que fazer com a criminalidade, como punir, enfim como resolver o problema. E eu respondo categoricamente que não faço a menor idéia. Se nem Foucault, que concluiu que o Sistema Penal, tal qual ele é, jamais irá funcionar, eu, que nem a graduação concluí ainda, não tenho nada a sugerir. Só não acredito que haja uma linha divisória entre “gente boa” e “gente má”. E não consigo entender como uma pessoa que acredita que esta divisão exista e que se considere no campo da “gente boa” tenha um acesso de alegria assistindo à decolagem do boné de um homem que acabou de levar um tiro na cabeça. Não sei se a polícia teria outra solução. Talvez atirar fosse a única alternativa, apesar de discordar que houvesse necessidade de matar. De qualquer forma, não me sinto vingado ao ver um bandido, no caso, o Sérgio, sendo morto. É tão ruim quanto teria sido vê-lo explodir a granada. Aproveito para lembrá-lo, leitor: Sérgio também era um ser humano.

Quando tenho meus momentos de misantropia, ela se dirige a todos, sem exceção, com o perdão da redundância. Recuso-me a detestar uma classe em especial, pois isso seria de uma atitude de requinte quase sádico. Mais sádico ainda quando o pano de fundo é Brasil, país onde, historicamente, a delinqüência resulta das péssimas condições de existência. Foi assim nas senzalas, foi assim no cangaço e é assim que é nos morros e subúrbios cariocas. Mas a gente boa, “de bem”, continua sentindo êxtase vendo os que ela considera “de mal” sendo exterminados. Acredito que seja mais fácil assim: a existência se torna confortável se naturalizamos uma parte que desanda da sociedade, seja lá por qual motivo, como algo a ser combatido e erradicado.

Perdoem a acidez. É que o boné de Sérgio Pereira Pinto Júnior me fez lembrar o boné de Pedro Bala, o capitão da areia de Jorge Amado. E minha misantropia se acentua quando constata que, 72 anos mais tarde, o drama ainda é exatamente o mesmo, assim como a nossa sociedade. Novamente, perdoem a acidez.
Bertholdo

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Crônicas de Frufru

Tenho um poodle-toy macho chamado Frufru. Frufru é um daqueles cachorros únicos, sabe? É ele quem me acorda irremediavelmente às oitos horas todas as manhãs e quem me lembra de ir às compras quando falta algo na despensa de casa. Também é Frufru quem me avisa se alguém bate à porta, desde que a campainha quebrou. O alarme de Frufru é seu inconfundível latido, seco e veemente. Antes, ele rosna. Segundos depois late como um animal em desespero, prestes a ser executado. O veterinário explicou que o latido reflete a personalidade do cachorro. O meu é, sem dúvida, impaciente. Talvez ele o seja por nunca na vida ter cruzado. Mas é que Frufru jamais se interessou por cadela alguma. Sempre que andamos na rua juntos ele esnoba todas as fêmeas de sua espécie. A verdade é que Frufru, em sua ânsia companheira, nunca demonstrou interesse em participar da reprodução canina. Desculpe, preciso me corrigir. Ele nunca - havia - demonstrado interesse, até um episódio peculiar ocorrido três dias atrás.

Estávamos na fila do mercado, para pagar pelos hambúrgueres que Frufru me lembrara de comprar algumas horas antes. Foi quando vimos, logo à frente, dona Milú. Dona Milú era a vizinha de minha mãe, que eu e meu cachorro visitávamos duas vezes por semana. Frufru gostava muito de ir lá. Ele encostava a cabecinha no parapeito da janela e observava, sem cessar, os movimentos da casa ao lado, onde dona Milú invariavelmente cozinhava. No mercado, ao notar a presença de dona Milú, Frufru começou a latir ansiosamente. Foi quando percebi que ele latia de maneira diferente. Não era mais aquele ruído seco e afobado. Era um latido mais calmo e paciente, diria que até um pouco sedutor.

Há anos, dona Milú mantinha um penteado impecável, indo com freqüência ao salão de beleza, me contara mamãe uma vez, com um pontinho de inveja. Então me dei conta de que Frufru não tirava os olhos dos cabelos de dona Milú, e estava a ponto de saltar em cima deles. Quando consegui exercer certo controle sobre a ânsia de meu cão, finalmente tudo fez sentido. Os cabelos grisalhos e longos de dona Milú, presos numa espiral roliça que ia quase até sua testa, firmados com alguns grampos e certamente um tubo inteiro de laquê, eram uma autêntica poodle-toy fêmea. E Frufru estava perdidamente apaixonado pela poodle-toy capilar de dona Milú.

Cumprimentei dona Milú e fui embora o mais rápido possível, deixando os hambúrgueres para outra ocasião. Saí do supermercado direto para o Petshop. Era preciso arranjar uma namorada para Frufru antes que ele tentasse outra vez molestar o coque de dona Milú. Não adiantou. Ele se recusava a flertar com todas as cadelinhas, das tosadas às peludas, das velhas às novas, das grandes às pequenas. Até outras raças eu tentei, mas não surtiu efeito algum. Frufru estava decidido. Depois de perder a hora três vezes numa mesma semana, me preocupei. Meu cachorro havia parado de latir não apenas para me acordar, mas também para que eu atendesse a porta e fosse ao mercado. Ele estava deprimido, era visível. Tomei uma decisão, provavelmente a mais difícil de minha vida. Dei Frufru para dona Milú. Agora, toda vez que visito mamãe, bato na porta ao lado, para rever meu cãozinho. O coque de dona Milú está sempre desarrumado...


Bertholdo

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Café com leite

Entrei numa daquelas lanchonetes de esquina nos arredores do Largo da Carioca e pedi um café. Quando me abaixei para pegar uma moeda de um real que caiu da minha recheada carteira, olhei para a calçada e a vi. Ela tinha a pele negra e brilhante. Mas não era um negro escuro, preto, quase azulado, como a pele de um autêntico africano. O tom era marrom, misturado, deixando evidente um longo período de miscigenação. Imaginei que se juntasse algumas gotas de leite ao meu café, talvez reproduzisse sua cor. Logo desisti da idéia. Joguei um punhado de açúcar no copo e dei o primeiro gole. Seus cabelos, curtos e desgrenhados, se misturavam à sujeira e à tonalidade do papelão, que lhe servia de travesseiro. Vestia apenas uma camiseta branca. O pano sobrava para todos os lados. É provável que coubessem ao menos três dela dentro da mesma roupa. Era magra, esquálida. E chegava a causar repúdio só de olhar. Respirei fundo e tomei o segundo gole do café. A magreza apenas autenticava a fragilidade, da qual já se podia desconfiar apenas pelo seu tamanho. Ela era um pouco maior do que um caixote de feira, daqueles nos quais se carregam as bananas e as goiabas. Bananas e goiabas que ela certamente não comia havia dias. Resolvi pedir um biscoito amanteigado, do tipo que também se vende na feira. Engoli o biscoito junto ao terceiro gole do café. Não pude ver a cor de seus olhos, pois eles estavam fechados. Devia estar com sono, já que fazia mais um dia de calor insuportável no Rio de Janeiro. É comum sentir preguiça e o corpo mole quando a temperatura é muito alta. Por isso eu precisava da cafeína: para espantar o meu sono de depois do almoço naquele dia quente. Então tomei o quarto e último gole do café. Larguei o copo no balcão e agradeci ao funcionário. Olhei mais uma vez para aquela menina, para ter certeza se dormia ou não. Ela continuava inerte. Devia estar dormindo, sim. Dei-me conta de que era bobagem a idéia repentina de verificar se respirava ou não. Olhei para a rua e notei que nas outras calçadas mais pessoas dormiam. Assim como outras trabalhavam vendendo parafernálias no sinal e nos camelôs e assim como outras apenas vagavam sem rumo. Quase todos tinham a mesma pele da menina adormecida. É, convenci-me de que ela apenas dormia. Talvez também precisasse de um gole de café.


Bertholdo