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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Vencer, vencer, vencer

Era um grupo de seis rapazes. Conversavam entusiasmados ao saírem do passatempo do final de semana: o futebol, única atividade daqueles que estudavam e trabalhavam o dia inteiro e que só queriam se divertir correndo atrás da bola em pleno sol do meio dia. Em meio aos gritos, o mesmo tema ainda os unia: o futebol. Qualquer um diria “ah, é a paixão brasileira”. Eu diria que isso tudo beira o fanatismo.

Perto do campinho onde jogavam, havia um bar. Ah, não me faça lembrar o nome. Era um boteco onde eles costumavam parar e ver os jogos da rodada do Brasileirão no final de semana. A cerveja gelada fazia a tulipa suar, assim como os rostos dos rapazes. Na televisão, adivinha sobre o que o comentarista falava? Sim, o futebol. Mas não era qualquer futebol. Era o Flamengo – time que comandava o termômetro de exaltação dos seis torcedores da mesa, atentos a cada lance, cada novidade.

A novidade dessa vez não era muito boa. Além de eles não poderem ir ao próximo jogo, contra o Barueri e fora de casa – ah, sim, esqueci de mencionar que eles iam em todos os jogos no Maracanã – o ídolo das últimas vitórias também iria desfalcar a equipe. Suspenso, o atacante Pet vai ver tudo do banco, assim como os torcedores. E ele, logo ele, o sérvio quase quarentão que retornou ao clube por causa de uma dívida antiga, tornou-se um dos grandes ídolos da torcida.

Apesar disso, nada abalava a confiança dos rapazes. “Se o Flamengo ganhar essa, entraremos no G4” - um deles gritava. Pois é, a décima vitória consecutiva do rubro negro já rende lucro para os jogadores, que ganharam R$ 60 mil cada em bônus. E os torcedores, é claro, ganham cada vez mais esperança de que o time poderá ser o campeão do Brasileiro 2009. Aliás, a esperança que já está com eles desde o início, desde o “uhhh” na ameaça de um gol, desde a pelada do fim de semana em que se imaginam fazendo os dribles dos craques, desde a voz que entoa o hino do clube... até a conversa no bar com os amigos.

Jornalista

terça-feira, 22 de setembro de 2009

A lingüiça dos primeiros socorros

A história a seguir é baseada em fatos reais, corriqueiros. Portanto, leitor, é melhor ficar atento... isso também pode acontecer com você. Tudo começou em um cursinho de primeiros socorros, desses que todo mundo já participou na vida, ministrado por um instrutor dos Bombeiros – normalmente gordinho e careca, pois os saradões nunca são escalados para dar esse tipo de curso. A turma estava lotada, enquanto o instrutor falava de como reagir em casos de corte ou perfuração seguidos de hemorragia. Nesse momento, eu já sentia náuseas e via estrelinhas coloridas na minha frente, sentindo que iria desmaiar a cada foto exibida no slideshow que o bombeiro levara para ilustrar os acidentes. Ao levantar-me para ir ao banheiro, uma senhora - que parecia ter seus 45 anos – levantou o dedo e parou a apresentação para contar seu caso real.

Respirei, voltei, sentei e resolvi ouvir aquilo tudo. A senhora descrevia um domingo em família, com o filho de nove anos em casa e o amiguinho dele, da mesma idade. O filho, João Pedro, e o amiguinho, Marcos, estavam como dois anjinhos assistindo um filme qualquer na TV, deitados no sofá e comendo inofensivas pipocas. Ela estava na cozinha, fazendo mais alguma coisa para eles comerem e, conforme contou, achava incrível o silêncio vindo da sala – pobre mãe, será que ela não imaginou que isso seria um futuro “problema”?

Meia hora depois, a mãe resolveu levar pãezinhos de queijo quentinhos para as crianças. Chegou na sala somente a tempo de ver a cena do crime: João Pedro e Marcos estavam brincando, em silêncio, de correr em volta do sofá, até que um deles esbarrou na mesa. Em cima dela estava o recipiente de vidro lotado de milho de pipoca, que caiu justamente na cabeça do amiguinho de seu filho. A histeria estava armada: Marcos chorava com a cabeça aberta e cheia de sangue e João Pedro gritava socorro – mesmo sem ter mais ninguém em casa.

Por um momento – e também por instinto – a mãe pensou no mais óbvio, no que você provavelmente pensaria. Foi até a cozinha procurar gelo para pôr na cabeça da criança, mas lembrou-se do que a empregada dissera no dia anterior: a máquina de fazer gelo estava com defeito - uma espécie de Lei de Murphy para ricos. Num ato desesperado, abriu o freezer e pegou a única coisa congelada que havia: uma lingüiça para churrasco. Isso mesmo, leitor, uma lingüiça congelada. Rapidamente, a mãe levou a lingüiça para sala a fim de estancar o sangue da cabeça do amiguinho de seu filho. Com a lingüiça na cabeça e mais tranqüilo por estar sendo remediado, Marcos pediu para chamar a sua mãe. Ao fim do desespero inicial, a anfitriã da casa e heroína do dia ligou para o hospital e para a mãe de Marcos, explicando toda a história e vangloriando-se por ter uma lingüiça salvadora. Uma semana depois, ela contava o ocorrido naquele curso de primeiros socorros, aconselhando todos a terem, pelo menos, uma lingüiça para churrasco reserva no congelador.


Jornalista

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Crônica de um bom dia

“Bom dia, minha amiga. Bom trabalho, minha linda. Tudo bem, meu amigo?”. Um dia comum, de sol, às oito da manhã, lá está ele, com um contagiante sorriso, desejando um “bom dia” a todos aqueles desconhecidos – que, provavelmente, acordaram de mau humor naquela preguiçosa manhã de segunda-feira.

As milhares de pessoas que passavam diariamente pelo bairro não eram suas amigas, muito menos colegas. Mal olhavam ou retribuíam os votos daquele simpático vendedor de balas – sim, porque, para elas, ele não passava de um vendedor de balas conformado com a vida e aparentemente bem-humorado. E não era só às oito da manhã: a qualquer hora do dia, seja ensolarado ou chuvoso, lá estava ele – mesmo trajado com uma capa de chuva transparente - contente e satisfeito com a vida, como se tudo fosse perfeito e nada pudesse abalar a injeção de auto-estima diária que ele queria passar aos seus “amigos”.

Os amigos eram os fregueses, mas a propaganda do vendedor de balas, amendoins, chocolates e “os passatempos para a sua viagem” era outra. Jamais seria capaz de entrar em um ônibus e incomodar o silêncio dos passageiros, gritando “dez paçocas a um real, hein, só na mão do camelô”. Não, ele não se considerava um camelô e vendia seus produtos pela simpatia dos olhos claros espelhados – pois bastava qualquer pessoa olhar dentro deles ao retribuir o “bom dia”, que podia ver a si próprio. E o reflexo de si próprio diante da alegria daquele simples vendedor de rua poderia, muitas vezes, constranger os passantes, que, em sua maioria, eram executivos estressados, estudantes com pressa e trabalhadores de um grande shopping da cidade – desanimados e cansados com a rotina.

Alguns até tornaram-se seus amigos. O vendedor sabia se o filho de uma freguesa estava doente, se um cliente tinha entrado de férias e, claro, sempre conseguia uns trocados com aqueles que, frequentemente, paravam alguns minutinhos para conversar e contar as novidades. Ele também sabia sobre os acontecimentos no entorno do shopping, os assaltos, batidas de carro, assuntos que envolviam a polícia e os jornalistas e, sempre, com muita calma, tinha todo o tempo do mundo para explicar tudo o que aconteceu com detalhes para os que tinham paciência para ouvir – o que era raro.

Só o que ninguém sabia, ao certo, era quanto tempo aquele vendedor de balas na rua trabalhava no local. Mesmo que muita gente não reparasse nos olhos espelhados, as pessoas não podiam ignorar a presença daquele homem, muito menos o efeito de sua voz feliz, ecoando um “bom dia” que refletia em todos, até mesmo naqueles que se sentiam insatisfeitos com suas rotinas. Hoje ele estava varrendo a rua enquanto eu passava. Ele parou e me desejou um bom dia. Eu retribuí... com toda a esperança de que aquele dia fosse realmente bom.


Jornalista