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terça-feira, 10 de novembro de 2009

A minha anta é o Stallone

Candidato novo a presidência precisa se armar até os dentes para entrar no campo de batalha do planalto, local de muitas baixas, baixarias e briga de saltos altos. Seja para se diferenciar dos políticos cara (plataforma) de paisagem, seja para se apoiar no anseio do povo pelo sangue dos mesmos. A novata Marina se veste de verde (graças a Deus não com aquela sunguinha rosa do Gabeira), entra chutando a porta e descarregando sua metralhadora giratória. Com um “quê” de Rambo, se me permitam o trocadilho silvestre (de selva, não do Stallone). Bem diferente de seu falecido mentor Chico Mendes, uma comparação que me agradaria bem mais de fazer do o troglodita que não perdoa ninguém. Como disse o soldado preso em cativeiro para o terrorista comunista no primeiro filme “Deus perdoa, Rambo não”, na tentativa mais infame de engrandecer um personagem. Mas não é que funcionou com ele, quem sabe sabe Marina não adota uma faixa vermelha e consegue chegar até a quarta versão. Sonho secreto de nosso atual presidente, que está mais para Denny DeVito.

Marina fala mal de CPI aqui, critica chefe da casa civil ali e nas horas vagas se dedica ao hobby favorito de todo candidato, criticar a plataforma dos outros. Afinal, quem não critica se trumbica... Ou algo do tipo. A nova filiada do PV parece ter ficado incomodada pelos outros pretendentes ao cargo do pingüim do Batman terem acrescentado ao seus discursos o seu “ganha voto”, o meio ambiente. Esperneio para a mãe, choramingou para o pai, mas seu dedo de politica não resistiu e logo saiu por ai apontando seus inimigos em local público. Visto que agora que esse tema se tornou preocupação de boa parte do eleitores não há nada mais natural que isso aconteça. Sua irritação pela popularização da plataforma que parece ser algo não natural. Assim como a CPI do MST.

Falar mal de politico que é sim algo natural. Eu faço, Marina faz, Diogo faz. Mas o que diferencia Mainardi de mim é a anta. E o que diferencia Marina dos outros é o Stallone. Não venho aqui pisar em uns e defender outros. O que só não em desce bem é politico que se exclui da sujeira do seu local de trabalho... Ah! E é claro de ter um presidente que se candidatou como o guerreiro salvador estilo Schwarzenegger e por passe de mágica da sessão da tarde se transformou no irmão gemio DeVito.

Jefferson Rocha

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Como se mata uma lembrança

Uma frase de Adriana Lunardi me pegou pelos pés. “A existência, como se sabe, é uma noção dada pelo tempo”. Se tudo que já aconteceu só deixa certeza de sua existência pela lembrança deixada, o tempo faz questão de apagar. É preciso isolar até matar de solidão o que nos liga ao passado indesejado. Conto lhes como exemplo a história de um amigo de um amigo meu. Mesmo sabendo todos os detalhes do acontecido juro de pé junto que não fui eu:

Adriano sempre se surpreendeu com sua falta de bom senso. Não bastava já morar na mesma rua que Ana, tinha que se oferecer para cuidar do cachorro enquanto ela viajava? “Não se preocupe Adriano, Thor já te conheci, não vai dar trabalho algum” ela falou ao telefone enquanto ele anotava tudo que era preciso fazer. Regar as plantas, recolher a correspondência e deixar na estante sobre a pia. “Para que eu estou falando isso se você já sabe tudo?”. Adriano sabia mesmo? Sabia nada! A mais de um ano Ana era só uma lembrança desbotada. Hoje nem mais a cor de seus olhos ele conseguia se lembrar com certeza. E mesmo que continuasse sem a ver, a ideia de cuidar de Thor por amizade soava cada vez mais ridícula.

No dia seguinte, por pouco os joelhos não falharam e provocaram a sua queda no meio da sala. Estranhamente ainda a mesma sala, intacta de antigos verões, até o controle remoto continuava no lugar de sempre, escondido no vão da almofada esquerda do sofá. Só as paredes que não mais tinha as fotos do antigo casal. Para Adriano isso fora um choque. Ele percorreu a casa com Thor em seus calcanhares balançando o rabo de alegria. Ascendeu um cigarro para disfarçar o perfume de Ana impregnado no ambiente. Foi até o aparelho de som e tirou o cd do Chico Buarque, que de tanto tempo que estava ali não se sabia o paradeiro de sua caixa. “Coloca Chico pra gente Dri?” falou Ana através da voz azeda de Adriano. “Chico agora vai dormir! Chegou a vez do Jorge Ben”. E ele colocou um antigo cd seu perdido em meio aos muitos dela. Sem seu cheiro e sem seu barulho aquela casa já não lhe causava tantos calafrios. Havia usado a mesma tática para apagá-la do resto da sua vida.

Só depois disso ele deu o primeiro afago em Thor, que então deitou num canto e liberou a casa para ele. Adriano foi sozinho até o quarto, evitando fazer qualquer barulho (para ninguém). Ainda azul, ainda com os mesmos objetos e com a mesma mancha de cigarro no tapete, culpa dele. Mesmo se as paredes falassem não diriam nada, só o encarariam com um silêncio constrangedor. Adriano abriu o armário e se deparou com a primeira mudança. O conteúdo já não era mais tão igual assim. Pegou nas mãos um vestido que nunca vira antes (e mesmo assim, a cara de Ana) e seguindo uma vontade sem explicação, o vestiu. Alisava a próprio corpo em frente ao espelho. Os peitos deixavam a desejar, mas o quadril trabalharia muito bem nas ruas de Copacabana. Jurou pela coca-cola que tomava que não havia nada demais no que estava fazendo. Adicionou um chapéu e um charpe à Adri-Ana. Mas na procura de algo melhor encontrou sua antiga jaqueta. No susto, deixou o cigarro cair e queimar novamente o tapete, mas não era pra menos, andava procurando aquela jaqueta a mais de um ano. Era sua favorita. E de Ana também. Não fazia ideia de que ela estava ali, de que parte dele ainda estava dentro daquele armário.

A brincadeira perdera toda a graça, Adriano resolveu desligar a música e ir dormir.

Sonhou com sua jaqueta e com Ana dentro dela. Ela vinha em sua direção com seu olhar dengoso, que há muito não via. Pronta para dizer algo. Ele interrompe. “Essa jaqueta é minha!” Ela fecha a cara. “Você veio aqui por causa de mim ou da jaqueta?!”. Ela tira a jaqueta e joga nele. “A jaqueta ainda é minha, você não...”

Adriano acorda ao som da campainha berrando. Assustado corre até a porta. Atende sem pensar. É apenas o carteiro vestido de amarelo e ele recebe as cartas de vestido longo de flores do campo. Deixa as cartas na estante em cima da pia e nota que ainda não fizera nada que lhe foi pedido. Thor lambia um pote vazio em desespero e as plantas murchavam. Adriano correu contra o tempo e contra a irresponsabilidade que iria cair em seus ombros. Ana daria um chilique com certeza.

Foi devolver o vestido apresado, mas não que por muito acidente encontrou um caixa de sapatos no fundo do armário. Ele abriu, mesmo sabendo o que isso iria dar no fim. Estava tudo ali em fotos. O primeiro encontro a viagem pra Búzios o segundo aniversário de namoro o natal na casa da família dela o dia que Thor nasceu o primeiro aniversário de namoro Adriano dormindo Thor dançando Chico o último encontro Adriano lavando a louça de vestido Ana gritando numa montanha russa o último aniversário. Fotos que antes se penduravam na sala, no quarto e até tinha uma bem engraçada no banheiro. Adriano pegou sua favorita chorando sem fazer barulho e guardou o restante. Picou em milhares de pedacinhos e misturou na comida de Thor, na água para as plantas e nas cinzas do cinzeiro. Trancou a porta e foi trabalhar com sua jaqueta.


Jefferson Rocha

domingo, 27 de setembro de 2009

Gente boa

Acho que preciso de umas férias. Algo no meu cabelo desgrenhado, nas minhas olheiras perpétuas e no meu humor intragável me diz isso. Meus olhos de ressaca não enganam nem mais ao velho bento da Capitu, preciso mesmo de um tempo. Umas férias do meu trabalho, da faculdade e até das minhas atividades de lazer. Pois acho que estou ficando louco, mas não posso ter certeza. Melhor mesmo é pedir ajuda.

Afinal, esse mundo lá de fora está cheio de depressivos, doidos varridos e pessoas medicadas com remédio traja preta de nível de terceiro Dan. Portanto, frenquentar um simples psicólogo hoje em dia é coisa de amador. É como ser o mais alto dos sete anões. Não é lá grande coisa. Se é que você me entende. Até porque, todo mundo sabe que esse papo de que tamanho importa é invenção do namorado da Branca-de-neve que adora fazer trocadilhos com seu calçado número quarenta e cinco.

Até aquele seu companheiro de trabalho sempre sorridente, de bem com a vida pode se mostrar um verdadeiro biruta (num estilo Britney Spears misturado com a menina Maísa do SBT), que já passou pelas mãos de todos os psicólogos e psiquiatras da região.

Foi o que aconteceu comigo numa quarta-feira cinzenta. Sentado em minha cadeira entediado com o que estava fazendo fui cutucado pelo meu vizinho de mesa. Ele me chamou para uma conversa, embora antes eu nem soubesse dizer como é sua voz, e se mostrou um verdadeiro conhecedor da linha Freudiana, Lacaniana e outras bem assustadoras de tantas sessões terapêuticas que já havia feito. Soube descrever minha aflição melhor que eu e me propôs algumas reflexões.

Ele sugeriu uma terapia do grito, alegando que uma simples análise não resolve nada. Tentei sugerir algo menos escandaloso como interpretação de sonhos ou me indicar alguns calmantes. Ele riu da minha tentativa e tentou mudar minha opinião para uma terapia em grupo envolvendo hipnose. Desesperado, consegui convencer ele a continuarmos numa simples conversa mesmo, antes que ele começasse a juntar o pessoal do trabalho. Mesmo que simples assim me ajudou muito. Principalmente por perceber que perto dele mina loucura é igual a uma cassação de deputado. Não oferece perigo algum.

Eu agradeci vislumbrado. Ele sorriu e me mostrou a última coisa que aprendeu com seus psicólogos. A cobrar. Agora ele passará uma semana de folga e eu fazendo carga horária dupla. Disse adeus as minhas férias.

Enfim, para ser gente boa... Boa da cabeça... Precisei de ajuda que virou a nova moda verão-primavera desse ano. Então fui ao divã como uma criança que vai até o Papai Noel na praça de alimentação do shopping e fiz o meu pedido. “Doutor, você tem que me tornar um cara legal”. Afinal, eu também sou normal. Uso óculos escuros a noite como todo mundo, tomo pílulas para enxaqueca, gastrite e dor muscular como todo mundo e tenho bons problemas como todo mundo. Problemas que me deixam na dúvida da minha saúde mental. Se bem que louco é justamente o cara que tem certeza de sua sanidade. De qualquer forma, se essa crise não terminar em suicídio ou casamento, eu vou ficar legal.


Jefferson Rocha

domingo, 20 de setembro de 2009

Hora do rush

Notei hoje minha condição lamentável e sem volta em que me encontro. Entristecido, constatei que de fato havia acontecido comigo algo que tentava adiar dês de que entrei na faculdade, algo que abalava minha liberdade e sepultava minha vida social. Havia me tornado um engravatado. O terror de todas as crianças, o pavor de todos os jovens desleixados já não tão mais crianças assim e o demônio dos fantasiosos socialistas bem marmanjos e barbudos.

E de um dia para o outro, conseguir economizar cinco reais na compra de um anti-séptico bocal e descobri que vai poder acordar mais tarde no dia seguinte, são as únicas coisas que consegue te pegar de surpresa e fazer o seu dia. Assim, corre para comprar uma agenda, almoça correndo, perde aula para resolver pepino e agüenta a hora do rush.

Ah! A hora do rush! Quando o transito anda a dez por hora os nervos ficam a mil. Por mais que isso seja comum, uma hora cansa. E imagine minha tristeza quando me dei conta que enfrentar uma viagem de ônibus em pé e espremido fazia agora parte da minha vida. Não mais era mais um simples universitário .

Pois bem, a hora do rush pode ser traduzida literalmente como uma hora de grande movimento, de pressa, de afobação. Talvez por isso quem deixe pra ir pra casa mais tarde vive um happy hour. A minha hora do rush favorita sem dúvida é a volta para casa. Pois de manha muitas vezes as pessoas ainda nem acordaram direito, ficam até simpáticas de tanto sono. De noite não. A noite é um caos, um espetáculo! Aquele momento mágico em que as ruas se iluminam de luzes vermelhas (as do freio), de gritaria, de movimentação (ou a falta dele). Quando chove então tudo se compara ao penteado que sua tia usava nos anos 80, engraçado de tão triste.

E o olho de furacão de tudo isso é com certeza um ônibus parado no meio da ponte Rio-Niterói. Lotado de pessoas, malas e crianças chorando. Não há muita opção. É encarar isso ou a as barcas e seus passageiros andando a passos mais curtos que o próprio pé e de cabeças baixas para entrar na embarcação. É a marcha dos condenados. Só falta as roupas listradas e as bolas de metal presas aos tornozelos.

De qualquer forma, o ônibus é o lugar dos insatisfeitos. Quem está de pé quer sentar, quem está sentado quer outro lugar melhor. São horas da sua vida desperdiçadas por mais que você tente torná-las aproveitáveis. Tem os que lêem (sortudos sentados), os que ouvem música (trilha sonora de um filme em que nada acontece) e os que dormem (os mais talentosos conseguem fazer isso até de pé). Mas com certeza a atividade favorita para passar o tempo é fazer amizades novas. Afinal, todos ali têm algo em comum. A melancolia. Quando menos se espera um estranho vira pra você, bufa e reclama de alguma coisa. E é sua obrigação como trabalhador devolver uma reclamação ainda mais indignada, caso contrario você não merece estar ali. É um estranho no ninho. O alvo mais comum das reclamações é o motorista e sua lerdeza, mas por fim a culpa mor vai para a viação, aqueles “cheios da grana que não pensam no trabalhador” e não dão um jeito de melhorar o transporte público.

Assim, por mais de uma hora três ou mais pessoas revoltadas trocam injurias. No final se despedem sorrindo. “Foi um prazer te conhecer” e vão pra casa dormir cedo.

Quando se tira férias disso tudo todos querem ir a um lugar totalmente diferente do seu dia-a-dia e cometem a burrada de ir para o meio do mato e fingir que está gostando de todas picadas de mosquitos, noites mal dormidas e do calor. Levam a câmera digital, que conseguiram comprar economizando seis meses, ou seja, passando aperto por seis meses. E logo vão botar seu investimento pra funcionar. Mas como se tira foto no meio do mato? “Ah, sei lá! Fingi que tá contemplado a natureza!” Então o urbaninho vira de costas e abre os braços para a mãe natureza, mas mesmo tendo contas para pagar, datas para lembrar, matérias para decorar, tarefas a zelar, uma alergia para tratar, um namoro para administrar, sonhos para apagar, a natureza te grita de volta “Perca peso”.

E quando você está preste a largar tudo para ir morar no Sana, lhe falta aquele motivo para pirar. Domingo chega para aliviar e segunda para recomeçar.


Jefferson Rocha

sábado, 12 de setembro de 2009

Charada

Quem será? Quem será? O alvo dessa crônica. Se alguém acertar ganha uma bala Juquinha ou uma estrela dourada do professor Felipe “peso” Pena para colar na testa. De qualquer forma, a resposta dessa charada é (como todos sabem) um de vocês que lêem ou ouvem essa crônica, cheios de expectativas e nervosismos enrustidos. Com uma curiosidade de uma criança que espera o presente do papai Noel chegar. Será que alguém escreveu sobre mim? Quem escreveu sobre mim? O que escreveu sobre mim? E se ela for lida em voz alta para todos, será que isso é bom ou ruim?... Bem, talvez eu possa matar a sua curiosidade.

Da mesma forma que naquela famosa brincadeira de fim de ano, onde amigos de faculdade, de trabalho ou familiares trocam presente, eu digo: O meu amigo secreto é... Daqueles que lêem muito ou que consegue disfarçar muito bem. Não é por menos que cursa esta matéria. Porém, não tem cara nenhuma de quem já leu algum livro do Wood Allen ou um estudo da fotossíntese feita por plantas subaquáticas, a última vez que abriu um livro de biologia provavelmente foi no vestibular. Por isso, os aspirantes a cineasta e biólogo da turma podem ficar mais tranqüilos, o alvo dessa crônica prefere um diploma de jornalista, seja isso útil ou não.

Portanto, eu chutaria que passa seu pouco tempo livre de universitário lendo colunistas de jornal, formadores de opinião ou opinantes formados. O que mais cedo ou mais tarde todos os cronistas acabam se tornando. Alguns cedo, alguns tarde. Mas como essa informação não ajuda em nada para adivinhar de quem falo, vou partir para informações mais diretas e físicas, já que não me cabe aqui descrições de qualquer outra subjetividade. Já que ELA me mataria se lhe faltasse o respeito. Sim, ELA mesma, eu falo de uma guria, ou esperavam alguma outra coisa? Uma guria de cabelos longos e olhos chamativos, que só podem ter sido presente da mãe, pois pai nenhum teria olhos assim para passar a filha. Com eles, ela consegue se destacar na multidão mesmo com seus comuns um metro e sessenta de altura. Não é da cor de pecado, mas tem cara de quem conhece o pecado de cor... E salteado.

Tem bom gosto para roupas, acessórios e todo o resto. Sua classe com certeza não a permite à deselegância de torcer pelo Fluminense. Tornando mais claro que nunca que o Calil caiu, se não antes, agora já sabem que não falo dele. Ela tem voz charmosa, como de madame da alta sociedade, daquelas que não bate palmas no final do espetáculo, chacoalha suas jóias. Sei que pode parecer um elogio meio deturpado, mas me diz um garotão de vinte e poucos anos que não fica na mão de uma mulher culta que tem imponência na voz e na atitude. Que diga Jesus Luz...

E se quem está lendo essa crônica em pé diante de todos na sala de aula for uma mulher, aposto que ela vai dar um sorriso disfarçado. Pois eu bem sei que ela se achou dona de tais elogios. Assim como as que estão sentadas, se forçou a se encaixar em tal discrição, por mais que tenha uma voz nada grave. “Já até me falaram que canto igual a Madona” ela pensou sozinha.
Mas a verdade é que os elogios sempre são pra sua melhor amiga.


Jefferson Rocha

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A minha vizinha

Dos meus trezentos “amigos” do Orkut, dos meus oitenta “seguidores” no Twitter e das trinta “pessoas” que realmente convívio, a pessoa que mais ocupa meu tempo e minha atenção é com certeza a minha vizinha. Até porque, não há como fugir de alguém que vive tão perto assim. Pois, até quando tento ficar sozinho dentro do meu quarto, a ouso dando seus passos de dança no apartamento de cima. Perco horas tentando adivinhar o que diabos ela está dançando. Pelos passos, acho que ela deve estar treinando para suas aulas de balé ou de dança de salão, não da para saber ao certo. Já que ela coloca seus fones de ouvido e acha que isso basta para tornar seu treino totalmente silencioso.

Descobri só alguns dias atrás que seu nome é de fato Jéssica Machado Campos. Graças a uma chamada de atenção que recebeu da mãe por causa da rotineira disputa pelo banheiro que tem com a irmã mais nova, religiosamente todo dia ás sete horas da noite. Antes disso eu só ouvia “Kinha” prá cá, ‘Kinha” pra lá e mais nada, o que me deixava numa grande dúvida. Afinal, que nome teria a garota que me distrai todos os dias com sua rotina? Kinha poderia tanto ser o diminutivo de Jéssica como Erika ou Mônica...

Porém continuo sem saber o que dança, que faculdade faz ou com quem tanto fala no telefone. Mas sei que escova os dentes quatro vezes por dia, seus banhos duram vinte cinto minutos e que sempre que chega em casa no final do dia a primeira coisa que faz é se jogar na cama e ficar ali por dez minutos até se desligar do mundo lá fora... Alguns dias eu a acompanho nesse ritual e deitado fico só imaginando como esse teto realmente deve ser muito fino.

“Kinha” acorda sempre as sete, enquanto eu já estou no banho. Ela não parece tomar um café-da-manhã completo. Normalmente escuto só o microondas esquentando alguma coisa e minutos depois ela já está escovando os dentes pela primeira vez no dia. As portas dos armários batem e ela só então ela entra no banho, quando já é minha hora de sair. Mais pela noite, após se jogar na cama, jantar, treinar os passos de dança e se mover de um lado pro outro do quarto, ela tem o habito não muito saudável de fumar cigarro na janela. O cheiro forte de canela normalmente chega até o meu quarto. É uma pena que ela não tenha um habito mais benéfico para ambos como tomar sol na piscina do condomínio, me faria muito bem aos olhos e a ela ao pulmão. Mas de qualquer maneira, logo depois do cigarro, ela toma mais um banho cronometrado, escova os dentes pela última vez e dorme. Sem me dar boa noite.

Esse é o ponto em que as cidades chegaram. As pessoas se espremem em espaços cada vez menores e se empilham umas sobre as outras. Como num formigueiro. É de impressionar quantas pessoas moram nesse prédio e quantos rostos novos eu vejo todos os dias. A intimidade dos moradores invade meu apartamento e entra na minha vida pelos vãos das portas. Nem em minha própria casa consigo viver longe da sociedade. E por isso que, como em todo formigueiro há uma rainha ou alguém que mande (para usar um termo com menos gliter), tornando até sua casa um lugar hostil e cheio de regras. Pois, se na faculdade é preciso aguentar professor e no estágio seu chefe, em casa é preciso agüentar o síndico, que até poderia ser o Tim Maia de tão gordo e ranzinza que é.

A intimidade é tanta que fico a pensar se Jéssica também me ouve do seu quarto. Quando cantarolo no meu quarto, quando tenho crises de asma ou até quando xingo alto o computador que travou. Será que ela também sabe quem sou eu? Também conhece meus horários, manias e defeitos?

Vira e mexe, quando me atraso para a faculdade, nos esbarramos no elevador. E naquela situação constrangedora me pergunto, será que ela sabe que eu sou eu? Da mesma maneira que eu sei que aquela garota morena, com pequenas sardas no rosto, cabelo sempre preso com rabo de cavalo, calça jeans surrada colada ao corpo, blusas coloridas que normalmente vão até a altura da coxa e sempre com um all star bege, que um dia já fora branco (essa garota) é a mesma que dança com os fones de ouvido, fuma um cigarro antes de dormir, não come no café-da-manhã, toma banho de vinte e cinco minutos e estuda psicologia (um dia desses consegui ler o titulo dos livros que tanto carrega no elevador).

Ou será que eu que ando tão atento a tudo que ela faz?


Jefferson Rocha