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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Caso de polícia

Como se já não bastassem os inúmeros escândalos envolvendo políticos e Suplicy andando de sunga pelo Senado, o prefeito de uma cidadezinha de Minas resolveu aprontar uma daquelas. João Carlos da Aparecida, do PT de Minas, foi pego em uma boca de fumo de sua cidade, Raposos. E não foi a primeira vez.

Nada contra o cara fumar ou cheirar o que ele quiser, mas ir para uma favela consumir drogas com um carro de prefeitura é petulância demais. Para piorar, depois de chegar à Delegacia e sequer conseguir prestar depoimento, o cidadão teve a coragem de dizer à imprensa que não falaria, usando a desculpa à la Vanusa de que estaria sob efeito de um medicamento muito forte. Crack agora é medicamento? Gostaria de saber que novo tipo de tratamento é esse.

João Carlos pediu licença da prefeitura para tratamento médico. Há quem diga que fez isso pensando em sua recuperação. Mas há cerca de 90% de chances da decisão ter sido tomada para que algo muito pior não ocorresse: seu impeachment. Afinal já foi formada uma comissão para levar adiante o processo de cassação de seu mandato.

Os usuários de drogas pegos em flagrante por policiais têm alegado: “se o prefeito pode, todos podem”, o que era de se esperar. O político que deveria seguir de exemplo e ajudar no combate ao tráfico de drogas, conseguiu subverter a ordem lógica de uma forma nunca feita anteriormente.

Histórias como essa nada mais são do que o reflexo do caos instalado na política brasileira. Não sabemos mais quem elegemos e estamos na mão de pessoas que não sabem separar sua vida pessoal de sua vida política.

Mel

domingo, 27 de setembro de 2009

Gente boa

Todos os Pedros que eu conheço são inteligentes e educadas. Os Gabriéis costumam ser confiáveis. Já os Rafaéis geralmente são divertidos. Quando me apresentam a uma pessoa pergunto logo o nome para tentar descrever seu perfil. Pode parecer neurose, mas para mim é como se o nome já definisse se eu vou me dar bem com a pessoa ou não. Costumo ter boas relações com Leandros e Caios. Dos Ricardos não gosto nem de chegar perto.

Certa vez conheci um Augusto, e aí está um nome que eu não sabia definir as suas características. Talvez porque esse não seja mais um nome popular, era comum na época da minha mãe.

Augusto: do latim dignidade, majestática, sagrado, sublime. Este foi o significado que eu encontrei na internet, mas na verdade, fiquei ainda mais confusa, afinal como seria uma pessoa sublime? Aquilo me deixava muito intrigada. Era a primeira vez que eu não conseguia traçar o perfil de uma pessoa pelo nome.

O jeito era me aproximar e ver o que acontecia. O Augusto fazia aulas de espanhol comigo e era o único homem, em uma sala com mais dez mulheres. Logo na segunda aula, quando a professora perguntou quem podia distribuir as folhas com um exercício, Augusto levantou os braços, como um fã da Cláudia Leitte durante um show, e gritou que faria aquilo com muito prazer. Prazer? Como alguém pode ter tanto prazer em distribuir um papel?

Os dias passavam e Augusto continuava indecifrável. Ele carregava as pastas de todas as meninas, corria para abrir a porta para a professora, sempre queria ler os textos da aula e até ajuda no dever de casa ele oferecia, mesmo sem conhecer ninguém direito. Quando você pensava: preciso de uma borracha! Lá estava Augusto com uma na mão para te oferecer.

Augusto era a pessoa mais prestativa que eu havia conhecido na vida. E aquilo em alguns momentos era chato. Às vezes você não precisava e não queria absolutamente nada, mas ele te oferecia um chiclete, perguntava o que você tinha comido no almoço.

Depois de um semestre tentando encontrar uma característica para o nome Augusto, cheguei a uma conclusão. Como não havia pensado nisso antes? Augusto era simplesmente “gente boa”. Todo mundo já conheceu pelo menos uma pessoa “gente boa” na vida. Vou explicar a expressão, porque muita gente pode não estar entendendo o que eu quero dizer com ela. “Gente boa” é aquela pessoa que não é sua amiga, às vezes nem sua colega, mas é prestativa, educada e um pouco chata. Augusto era exatamente assim. Ainda não sei se gosto das pessoas com esta característica.


Mel

domingo, 20 de setembro de 2009

Banheiro feminino

Todo homem já se perguntou pelo menos uma vez na vida: por que as mulheres sempre vão ao banheiro acompanhadas? Sempre no mínimo em dupla. Todo representante do sexo masculino mesmo depois de anos e anos de evolução, se intriga em ver duas, três ou muitas irem ao toalete - como preferimos chamar - juntas, como um time de futebol entrando de mãos dadas no gramado do Maracanã. Tentarei em algumas linhas explicar para você, caro leitor, um fenômeno cada vez mais comum na vida da mulher moderna.

Se a pessoa que chamamos é nossa amiga, com certeza vamos ao banheiro para falar de vocês homens. Primeiro falamos mal, procuramos algum defeito. Depois podemos até falar bem, mas sem elogiar muito. Talvez você venha a saber mais tarde o que fofocamos, pois cada dia que passa estamos mais diretas. Mas sempre cabe deixar o sexo oposto curioso. E não venha dizer que curiosidade é coisa de mulher, porque está mais que provado que homens são sim curiosos.

Agora, se não conhecemos a nossa companheira de banheiro, de duas uma. Ou queremos conhecê-la melhor ou ela representa algum perigo para nós. Seria loucura deixá-la sozinha conversando com vários homens, principalmente se ela for o que vocês costumam chamar de “gostosa”. Para nós não passa de um corpo que é resultado de horas de malhação. Na verdade, na maioria das vezes a achamos “normalzinha”, mas sabemos reconhecer um exemplar que é considerado pelos homens uma “gostosa”. Farejamos o perigo de longe, é uma espécie de instinto de sobrevivência. Ah, vale lembrar que se a mocreia for ainda boa de papo, a situação se agrava muito.

No caso de irmos ao banheiro em grupos, nosso objetivo geralmente vai além de falar de homens ou se livrar do perigo. Estamos bolando uma estratégia de como agiremos depois de sair de lá. Quem vai conversar com quem ou até como fugir daquele garoto chato. Depois de cerca de dez minutos - é claro que não levamos esse tempo todo fazendo xixi - saímos de lá lindas e cheirosas prontas para darmos prosseguimento ao nosso plano. Um grupo de mulheres quando sai do banheiro pode ser facilmente confundido a um batalhão pronto para a guerra. E você, representante do sexo oposto, se sentirá como um adversário que não tem a menor ideia da estratégia de seu oponente. Mas não fique preocupado, é isso mesmo que queremos.

Sim, falamos algumas coisas que os homens não podem ouvir. Mas por que mesmo quando estamos em uma mesa só de mulheres não vamos sozinhas? Essa pergunta é ainda mais fácil de responder, porque vamos falar mal umas das outras. Dizer que não foi com a cara da fulana ou que a roupa da cicrana é horrorosa! Acredito que esta parte da questão até - eu digo até - os homens já sabiam.

Não, não temos medo de ir ao lavatório - já usei banheiro e toalete muitas vezes e estava ficando chato - sozinhas. Até porque, banheiro feminino tem sempre uma fila imensa, então, o medo da solidão não é o problema. E por que se formam as filas? Porque são diversas duplas, trios, quartetos, enfim, grupos de mulheres para fazer ao mesmo tempo tudo isso que eu já expliquei.

Não, também não vamos pedir o batom emprestado da amiga. Competitivas como somos, seria inadmissível voltarmos a mesa usando o mesmo batom da nossa companheira. Pode ser que os homens não reparem, como de fato não reparam, mas com toda certeza alguma mulher vai notar e na próxima jornada ao banheiro com a amiga, fofocar com ela. Nos vestimos para as outras mulheres, afinal, pros homens qualquer coisa serve. Temos mais medo dos comentários femininos a nosso respeito do que dos masculinos, isso é um fato.

É claro que também atendemos as nossas necessidades fisiológicas, mas isso é apenas um detalhe da ida ao toalete. Uma grande contribuição para o mundo feminino seria a invenção de cabines no mínimo duplas. Não perderíamos tempo e a conversa poderia começar ali mesmo. Mas, por outro lado, isso poderia nos causar um grande transtorno. E se alguma menina do grupo adversário estivesse retocando a maquiagem e ouvindo nossa conversa sem que a gente pudesse ver? Nossos planos iriam por água a baixo e acabaríamos perdendo a guerra.

Algumas perguntas não podem ser respondidas. E com isso tudo que eu disse, outras poderiam ser formuladas. Mas não adianta, quando falamos de mulher os homens ficarão sempre sem entender. Ah, e tem outro detalhe. Eu não disse nem de longe o que se passa no banheiro feminino e vocês nunca saberão. Simplesmente porque os homens não podem entrar!


Mel

sábado, 12 de setembro de 2009

Sempre uma surpresa

No caminho da minha casa para o IACS, fui pensando em como seriam as pessoas que eu estava prestes a conhecer. Já havia falado com alguns pela internet, outros não. A curiosidade, confesso, era enorme. A semana de trote, apesar de muitos serem contra, é sim uma forma de integração.

Dentre muitas outras pessoas, uma menina logo chamou minha atenção. Tinha a pele cor de bombom, cabelo bagunçado e um sorriso muito expressivo. Já estava pintada com guache quando cheguei e, pelo entusiasmo, louca para fazer novos amigos. Em alguns momentos, ela me parecia chata como aquelas animadoras de festa infantil, que eu não sei o porquê, acham que as crianças são surdas e retardadas, então, berram feito loucas.

Eu com a minha timidez que me é peculiar, não me permitia falar muito com as pessoas. Precisava de tempo. Mas meus olhos continuavam a seguir aquela garota. Sempre de bem com a vida, sorridente e com sua combinação de calça jeans com Havaiana. Ir para a faculdade a deixava mais feliz, do que ganhar um prêmio de um milhão da Mega Sena.

Começaram as aulas, uma coisa havia mudado da semana do trote até aquele dia. Seus cabelos, embora ainda desarrumados, estavam mais curtos. Enrolados, eram cachinhos feitos um a um. Apesar de toda sua descontração aparente, ela era uma aluna dedicada e pontual, tá, isso só até a segunda semana de aula.

Descrevê-la me parece uma coisa complicada, é como aquelas surpresas de Kinder ovo, sabemos as possibilidades, mas nunca temos certeza do que vamos tirar. Uma música, talvez “Livin’ la vida loca”, um filme... aí é mais difícil, talvez “Curtindo a vida adoidado”. Uma personagem, eu diria uma mistura de “Luluzinha” com “Bobby”, pois acha o mundo fantástico e o aproveita da melhor maneira possível. Se fosse um doce seria uma torta de Floresta Negra, agora se fosse salgado, com certeza, arroz com feijão.

Maluca. Só existe uma palavra para quem faz duas faculdades. Quem mais seria capaz de acordar às sete da manhã para ir estagiar, fazer uma matéria em outra universidade e depois correr para a UFF. Ninguém em sã consciência faria isso, mas ela faz.

Sempre com uma opinião na ponta da língua, pode ser convidada para um baile funk ou uma ida aos museus do centro do Rio. É capaz de ir do céu ao inferno em apenas trinta segundos, sempre com um sorriso no rosto e tentando levantar o astral de quem quer que esteja a sua volta.

Apesar de todas as características já ditas, deixei a que considero mais importante para o final. Ela é aquela pessoa que você passa horas conversando, seja de seus problemas, seja dos dela, ou até não falando de nada importante, mas você nunca se cansa.


Mel

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Amizade

Certa vez quando entrei na sala do meu cursinho pré-vestibular me deparei com uma menina sozinha, recolhida em um canto. Mais parecia uma trouxa de roupa jogada em cima de uma cadeira. Era muito magra, usava óculos. Era como se alguém a houvesse esquecido ali, como se ela não pertencesse àquele lugar.

O estranho é que nenhum professor havia comentado de uma aluna nova. Certamente ela frequentava as aulas desde o começo e eu é que nunca havia reparado. Daquele dia em diante, passei a observá-la. Ela quase não falava, mas anotava tudo o que os professores diziam em um caderno com as folhas amareladas.

Depois de uma semana, soube que o nome dela era Julia e que ela era de Florianópolis. A menina passava o intervalo todo sozinha, anotando coisas em seu caderno. Não tinha mochila, nem estojo. Guardava tudo em uma bolsa de pano. Para mim tudo aquilo era muito estranho.

Até que um dia tomei coragem e fui falar com ela. Para minha surpresa aquela garota esquisita parecia muito feliz, apesar de tímida. Ela me contou que morava com a avó, pois o pai e mãe tinham morrido em um acidente de carro. Fiquei impressionada, para não dizer com pena.

A partir daquele dia, começamos a conversar. Em pouco tempo, sabia tudo de sua vida e ela da minha. Menos de um mês depois, ela já me ajudava nos estudos e frequentava a minha casa. Ela já não me parecia mais estranha. Era uma menina como outra qualquer, e o melhor de tudo, tinha se tornado uma grande amiga.

Julia não falava com mais ninguém no curso além de mim. E todos os meus outros amigos me recriminavam por andar com ela. Mas eu não ligava. Eu me sentia bem ao lado dela.

Eu faria vestibular para Jornalismo e ela para Engenharia. Mesmo assim, Julia me ajudava sempre que podia. Acabava estudando mais as minhas matérias do que as dela.

O vestibular passou. Julia foi aprovada em todas as universidades. E contrariando todas as expectativas, minha amiga foi para a UERJ e não para a UFRJ, como todos pensavam. Ela era mesmo uma menina, eu diria agora, diferente.

As aulas começaram, e com o grande número de tarefas que tínhamos que fazer para nossos cursos, fomos nos afastando. Falávamos-nos cada vez menos. Até que uns dois meses depois, podia dizer que não falava mais com a Julia. Eu até tentava, mas nunca conseguia. Ou não atendia ou não estava em casa. O tempo foi passando e eu fui me acostumando com a ideia de não falar mais com ela.

Um ano depois recebi uma ligação. Era a avó de Julia me dizendo que ela tinha cometido suicídio, pois não conseguira fazer amigos na faculdade. Fiquei em estado de choque. Não sabia o que dizer, muito menos o que fazer. Só depois de muito tempo fui entender que ela tinha aparecido em minha vida para me ajudar a conquistar algo que queria muito e que, de alguma forma, eu tinha sido a única amiga que ela teve na vida. Agradeço todos os dias por ter tido coragem de falar com aquela menina “esquisita”.


Mel