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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Gente boa

Homem tem que ser bonito ou gente boa? O questionamento filosófico de evidente profundidade não poderia ter saído de outro lugar senão do site da revista Capricho, o Alcorão do mundo teen. Melhor do que a pergunta capaz de mudar o rumo da humanidade e definir, por exemplo, o futuro de Manuel Zelaya em Honduras, são as respostas das gurus-semideusas identificadas por “Meninas da República Capricho”.

Apesar da clara irrelevância do tema, aposto que estão ansiosos para ver o que pensam as Meninas da República Capricho, inquestionáveis doutoras no assunto! Vamos lá!

Mary Anjos é ambiciosa: “Os dois!”, responde baseada na teoria do Tudo é Possível. E complementa com a vertente do Valor dos Valores. “Mas o caracter(sic) importa bem mais que a beleza”. Confesso que não entendi a presença do “c” antes do t. Deve ser alguma variação linguística ou algum código que minha idade avançada não me permite compreender.

Vamos à próxima acadêmica. Isadutra é a principal estudiosa da Convergência de Qualidades. Em sua tese de mestrado na Universidade Federal Fluminense, ela concluiu que beleza e “caracter” podem habitar o mesmo ser. Além disso, rapazes que não unem as duas virtudes em um só corpo estão fadados ao insucesso com o público feminino! Com singular brilhantismo, ela justifica que uma coisa perde o valor sem a outra:

“Os dois, né? Não adianta ter um rostinho bonitinho e num ter um papo legal, né? E pow, aquele carinha que é super gente boa, mas é feio também não dá pra levar, né!”

Já Caamila (com dois “as” mesmo), baseia-se no estilo Parnasiano. Em sua tese de pós-doutorado, ela prova que o culto à forma em detrimento ao conteúdo também se aplica ao universo masculino. A membro do Conselho Capricho testemunha que a conjuntura mundial a fez mudar de atitude quanto à escolha do homem:

“Antigamente eu escolhia a pessoa por ser gente boa, mas infelizmente aparência conta muito hoje em dia, né. Desencanei então. Agora, é só pegar um bonitinho e aí está tudo certo!”

Vitizanotto e Stéfanie trabalham juntas na linha da Relatividade. Após cinco anos em Sorbonne, na França, elas concluíram que a decisão entre "bonito e gente boa" é definida a partir das intenções (más ou não) da mulher. Resumindo a tese de 300 páginas: se for para ficar apenas uma noite, é obrigatório que o cara seja bonito, mas se há pretensões de um relacionamento duradouro e sólido, ele tem que ter conteúdo e, principalmente, ser gente boa.

“À primeira vista, claro que tem que ser bonito. Mas pra ter algo mais sério com o cara, beleza não é o ponto mais importante. O menino tem que ser gente boa. Nem precisa ser bonito!”, lembra Vitizanotto.

A única da república a defender pensamento diferente foi AnneLayse. Ela estpa no terceiro ano do curso técnico de “Como fazer a sociedade aceitar um namorado feio”. Fontes revelam que ela é conhecida como a hipócrita da academia.

“Gente Boaa sempreeee. Não me importo com beleza exterior”

A análise mais coerente, ao meu ver, vem da Pritt. Ela demonstrou mais habilidade do que as companheiras e foi a única capaz de resolver a problemática. A principal linha da moça de apenas 16 anos é o estudo do francês Antoine Lavoisier, que, na Lei da Conservação das Massas, mostra que “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

“Não dá pra ter os dois? Cara, prefiro bonito então! Aí eu deixo ele legal. Porque pegar feio é triste demais, hein?

Depois dessa resposta aposto que a próxima enquete da revista Capricho vai ser “Como deixar aquele homem feio legal?” Meninas, comecem a estudar e preparem suas colocações. A bibliografia completa está em www.capricho.abril.com.br.
Teo Versiani

sábado, 12 de setembro de 2009

O senhor CR

Mister “CR”. Assim ele é conhecido pelos aspirantes a jornalista da Universidade Federal Fluminense. Se o CR que dá forma ao apelido corresponder a Coeficiente de Rendimento, sem necessidade de ver seu boletim, concluo que o jovem é o melhor aluno do sexto período (a menos que “CR” tenha mudado para “Cabeça Raspada”, “Cara Rigoroso” ou “Corno Rico”). Mr CR é digno do nome. É inteligente, amante da boa leitura, escreve razoavelmente bem. No currículo, uma monitoria, alguns trabalhinhos e o ofício de morar sem os pais. Não abre mão concluir a faculdade, cursada com maestria, ao lado dos amigos, que lhe consagraram como Mr CR. É educado. Fala pouco. Para muitos já nasceu pronto. Porém, um sorriso discreto revela o aparelho ortodôntico: nem tudo está formado na vida desse ainda jovem senhor.


Teo Versiani

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Norminha manicure

Sou homem. Um macho bem resolvido, com vinte e sete anos de pura masculinidade. A redundância faz-se necessária pelo seguinte segredo: faço as unhas toda semana. E o pior: tenho uma manicure para chamar de minha, há três anos e quatro meses. Entretanto, não é uma pessoa qualquer. Norma Lopes da Silva, 34 anos, é um ser portador do dom da palavra e do esmalte também. Norminha – só para os clientes fiéis – é moça simples, com pouco estudo, dois filhos e três maridos (como ela mesma assume, mas só para os clientes fieis). Bate seu ponto toda segunda-feira em minha residência. Sempre peço para esconder alicate, esmalte, acetona, etc, antes de chegar ao meu prédio, mas ela não se conforma:

- O senhor tem vergonha do meu ofício? Saiba que não sou estudada, mas meu trabalho é digno também!

Tento explicar, sempre em vão, que porteiro e moradores podem não entender meu hábito e acabar com a minha reputação com interpretações preconceituosas.

O que mais gosto em Norminha não é a forma caprichosa como ela tira minha cutícula – e é só a cutícula e não pedaços de dedo – mas sim sua vocação à psicologia. Enquanto ela trata os cinco dedos da mão direita, partilho meus problemas.

- Norminha, o clima lá no trabalho está difícil. Tá todo mundo querendo comer o meu fígado. Não me conformo com meu salário e com meu cargo, mas não adianta falar com o doutor Moraes, aquele de quem te falei semana passada. Ele não me dá uma promoção. Só levo esporro. Tenho que ser promovido ainda esse ano. A prestação do carro ainda não acabou. O pior é que não estou conseguindo produzir mais…

Antes que eu terminasse de chorar minhas pitangas, ela interfere:

- Calma, Teo. Você só tem 27 anos. Acabou de se formar e já trabalha em uma empresa de bacana. Te vejo como andorinha querendo voar como gavião. Freud dizia que todos nós temos que aprender a viver com regras e com nossos limites. A falta é algo natural do ser humano.

Outra característica de Norminha é ser grande leitora dos livros freudianos. Por isso, sinto-me mais confiante em ouvir seus ensinamentos.

- Tudo bem, Norminha. Não concordo muito com a parte da andorinha e do gavião, mas tudo bem. Mas não é só isso. Lembra do Rui? Aquele cara que era meu amigo? Era, Norminha! Era! O safado arrumou a maior confusão comigo. Ficou aos berros no meio da empresa por uma coisa super boba. O problema é que estou sem dormir, me sentindo super culpado.

- Ah, Teo! Já falamos sobre isso, né? Você e essa sua mania de se culpar por tudo. Larga esse chicote, cara. Você sabe que nunca gostei do Rui. Segundo Freud, isso se chama Superego. Já te disse que a autoacusação não serve de nada.

Começo a ficar aflito, porque Norminha foi mais rápida do que o comum. Antes que eu começasse a falar da minha vida afetiva, da Flávia, ela já havia terminado as duas mãos. Não posso deixar esse assunto para semana que vem. Vai ser tarde demais. Preciso do parecer de Norminha. Não tardo em pedir:

- Norminha, hoje vou fazer o pé também. Pode caprichar, porque ele está bem cascudo!

- Vai fazer o pé? – surpreende-se ela – Nunca fez o pé na vida!

- É, mas hoje quero fazer o pé! Por quê? O que Freud diz sobre homens que fazem o pé? Pode deixar que vou pagar!

Em silêncio, ela aceita a proposta. Coloca meus pés na água e prepara a lixa.

- Aviso logo. Suas unhas estão encravadas!

Feliz, sem me preocupar com o que ela vai fazer com meus dedos, disparo:

- Norminha, a Flávia me ligou e pediu para voltar. Fiquei balançado. Queria te ligar, mas não tive coragem. Eu sei que ela pisou na bola comigo, mas pareceu arrependida. Vamos almoçar amanhã. Não sei o que faço. Tenho medo de me frustrar de novo, mas ela é a mulher da minha vida. O que faço?

- Dessa vez não vou usar a teoria das pulsões de Freud. Vou usar a teoria do homem babaca da Norminha! Se toca né, Teo. Essa mulher acabou com você. Te traiu com seu irmão, roubou seu dinheiro e você ainda pensa em voltar. Sinto em dizer que esse desejo você vai ter que controlar para se dar um pouquinho de valor. Você me irrita com essas coisas.

Prefiro não ouvir a “teoria do homem babaca da Norminha” e antes que ela terminasse os dois pés, desabafei tudo o que ficou entalado ao longo da semana. Falei sobre a carência da minha mãe, a morte do meu pai, meu sobrinhos, o pré-sal, a demissão do Renato Gaúcho e a atual situação do Fluminense, sobre a atriz pornô que está com uma doença misteriosa. No fim, estava leve, tranqüilo e com as unhas maravilhosas.

Já de Norminha, não se diz o mesmo. Cansada – mais pelos conselhos do que pela unha – a manicure / terapeuta freudiana se despede com a frase mais sábia que poderia sair-lhe da boca:

- Semana que vem, você é quem vai fazer minha unha, ok? Pé e mão!


Téo Versiani