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terça-feira, 6 de outubro de 2009

Casa

Não sou do tempo em que se nascia em casa, tempo de parteira e tempo de espera. Já nasci nos 80, época mais recente, em que as mães saíam de casa rumo ao hospital para voltar com mais um integrante da família. O dia marcado para o nascimento, aliás, é um daqueles momentos inesquecíveis, que marcam a vida da gente. Bolsas de roupa, fraldas, mãe, pai, apreensão. Momento final: o bebê. Ou momento primeiro, olhando com os olhos de quem vê ali uma vida nova, ponto de partida.

Mas não é sobre bebês ou tampouco parteiras que vou falar no texto que segue. Queira o leitor compreender que, estando fora de casa, bate agora uma falta daquela coisa boa do lar. Quarto, sala, cozinha. A casa da gente guarda uma vida própria. Cheiro de casa, gosto de casa. Eu sinto que, dentro dos limites impostos pelas paredes desse lugar único e particular, eu sou eu, você é você e ela pode até ser ele, se assim quiser. Dentro de casa todo mundo é invisível – para o mundo – e transparente para si próprio.

O dia de trabalho acaba, fecho a porta. Quero deixar pra fora o espanto da liberdade, o cansaço das coisas vividas. Acontece que – fato imutável – tudo isso tem vida própria e, pelo buraco da fechadura ou na sola do sapato, tudo entra comigo. Inevitável. Eles entram em fila. As conversas pendentes, textos pra ler, a bronca do chefe, o salto do sapato novo quebrado... Tudo se mistura e, no final do dia, vai pra casa comigo.

O que foi bom, o que formou no rosto um sorriso grande naquele dia, eu guardo na caixa de madeira do lado da cama. Do lado da cama. Deve estar perto para que eu possa sempre lançar mão quando o mais difícil na noite é ter bons sonhos. Abro a caixa, escolho um. O telefonema da amiga da escola, o olhar querendo dizer muito, a sobremesa tão esperada durante toda a semana... Não, não! Hoje vou escolher o oi da saída do elevador. Coloco debaixo do travesseiro e durmo melhor. Para quem pensava que passava invisível aos olhos dele, ganhar um oi despretensioso teria mesmo que valer um sonho.

Um sonho ou até dois, um conjunto deles. Durante toda aquela semana não precisei da caixa de madeira. Ela só se enchia cada vez mais das coisas boas.

Essa é a magia da casa, pra mim. Saber que precisando ou não do afago certo que ela dá, ela vai estar ali. Imóvel, literalmente. É como a minha caixa que, como um consolo, eu vejo todo dia e sei que se os fantasmas chegarem – esses que se escondem debaixo da cama, na porta do armário e na sombra da parede – ela vai estar ali, e meu medo vai passar. Ela cala, ela fala. A casa.

domingo, 27 de setembro de 2009

Gente boa

E ela saía andando arrastando as sandálias. Sempre na mesma direção. Sempre depois de me dizer tudo aquilo que eu já sabia que ia ouvir. A mão no queixo, mãos na nuca, o monólogo fluía. Mãos diretas, me apontava os defeitos. Surpresa minha seria se não fosse assim.

Boa gente mesmo ela dizia que eu só encontraria se não quisesse, despretensioso. Gente boa era mais fácil e mais comum. Contava um, dois, três, oito. Parava sempre antes do dez, não gostava de números redondos.

Certas pra mim eram as tardes em que o sol batia de lado no telhado e eu sabia que poderia me perder. Fechava os olhos, comemorava sozinho e em silêncio. Festa demais poderia ser sonho, tristeza demais poderia ser treva.

A gente é bom mesmo enquanto presta, isso eu aprendi. Enquanto dá almoço na hora, traz café pela tarde e dorme cedo, com a lua. Se muda, se vira episódio de série americana, sai do auge do querer, tira o clima da emoção. Clara sempre me dizia que era assim que me queria – e que nenhum cabelo penteado pro lado errado e roupa rasgada iriam mudar isso. Repetia sempre o discurso da cadeira, dos passos e do perfume antigo. Todos de cór.

E eu que era esperto, rapaz bonito de jaqueta de couro, não pensava em cair nas falas de moça sincera. Ela me leva discreta pelo desvio dos olhos e me fazia feito boneco na mão de criança. Criança malvada, às vezes. Boneco feliz, sempre.

Era eu – e todos me confirmam – era eu que deixava que ela me moldasse. Era fácil ser alguém nas mãos de quem sabe o que quer que o outro seja. Não recordo momento algum de medo, ausência ou desilusão. Qualquer espaço vazio em mim se completava com a palavra da boca de Clara. Palavra de quem sabe dizer.

A boa gente por aí até hoje diz que uma morte estúpida e violenta não era digna de alguém que usava tão bem o tempo que a vida lhe dava. Sofrimento e dor não combinavam com alguém que passara a vida toda a andar sobre sorrisos.

Eu – eu mesmo - já não sei o que digo, mas não acredito em motivos concretos. Quem sabe esteja morto o ideal de boa gente de Clara, inatingível, utópico. Não sei, mas sei que eu não consegui alcançá-lo. Não devo ser “tão gente boa assim”. Desisti das tardes ouvindo e das noites pensando. Quero que Clara me leia e me entenda, é a alternativa que agora me resta. Já não vivo – não mesmo - e digam à Clara que morri.


Maria Sofia

domingo, 20 de setembro de 2009

Dor de amor

Eu gosto de causos. Conto causos à noite, assim, perto da fogueira, ou de manhã, quando acordo, com o cacarejo singelo da minha esposa. É, da minha esposa. A gente até cria umas galinhas aqui em casa - Marcelina, Eva e Gigi - mas o cacarejo que me acorda, pontualmente, todo dia, às cinco e meia, é o da minha esposa.

Maria Angélica sempre foi doce assim. A gente se conheceu num baile da venda do seu Martins faz uns trinta e dois anos, e desde aquela época o seu jeito meigo, doce e singelo me agradava. Muito singelo. Não gosto muito de contar essa história porque tem gente que até acha que é causo meu, história inventada dessas que eu conto. Mas não é não.

Tinha o baile da fazenda do seu Martins, festa boa que todo ano ele fazia pros cantos de São João da Brasa, perto de Reis do Sul. Era coisa de matar um boi por pessoa, pra sair todo mundo satisfeito. A família toda da Maria Angélica foi pro baile esse dia. Eu fui também, com Rita de Cássia, minha irmã.

Cheguei lá e de longe já bati o olho na Maria Angélica. A saia rodada bonita, cinto, bolsa, colar, pulseira, boné, cachecol, outro cinto, casaco e meia eram a combinação perfeita pra minha madame de filme de bacana. Até hoje, Rita de Cássia me fala que eu não tinha nada que ter ido tirar a Maria Angélica lá de cima do telhado do curral, não tinha mesmo, de forma nenhuma. Mas como eu ia saber se essa não seria a prova de amor que ela precisava pra se apaixonar por mim? Fui e tirei.

A nossa história de amor é bonita assim mesmo, e começou nesse dia com meu olho roxo, carinho da mão leve de Gegé. Ou Gélinha, minha anja do céu. Chamo minha flor de nome carinhoso, sou homem carinhoso. Mas sou homem. De verdade. Ainda tem cabra por aí que acha que homem que é homem tem que ser ruim, bater em mulher e gritar. Sou homem e sou bom, não grito, e às vezes até apanho. Prova da minha macheza, da minha bondade. Prefiro apanhar, ah prefiro! Não tenho coragem - e meu São Joaquim é prova - de que eu nunca bati, nem com uma flor que fosse, na minha Angélica. E é sorte dela eu ser bom assim, porque a minha força é forte, das mais fortes, e ai de quem sente o peso do meu braço.

Gélinha nunca há de sentir, nunca! Porque nosso amor é de verdade. Coisa bonita é ver a gente acordar, como eu falava pro leitor no começo dessa história. É coisa de emoção. Eu sinto até um negócio no peito assim, forte, uma pontada. Comentei outro dia com Dr. Teles e ele me passou um chá calmativo pra eu tomar. Falou que é coisa de gente que emociona, é mal de coração mole. Tomo o chá quando me lembro, mas quando esqueço ainda sinto aquela dor.

As galinhas ficam com ciúme aqui em casa. As três. Já falei com elas que não dá. Gélinha canta porque gosta, e o que eu posso fazer se ela cacareja mais bonito que as três galinhas juntas? Falei com a Marcelina, com Eva e com Gigi que o ovo delas pelo menos é bom - cheio de sustância - e compensa o canto, que é bem mais fraco que o de Maria Angélica. Incomparativo, já falei. O troféu do ano passado eu dei pra Gigi, de compensação, só pra ela não sentir mal e não querer mais colocar ovo. Mas segredei pra Gégé que era ela que cantava melhor, que aquilo era tudo encenação. Precisava deixar as coisas claras.

Mas o nosso acordar é bonito e é romântico. Quem é que não vai gostar de acordar todo dia com a voz da mulher amada? Me sinto muito bem de ter dor de cabeça e de ouvido o dia inteiro, sinto que nem dói, é dor de amor.


Maria Sofia

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Das flores do jardim, a que ficava isolada no canto era a que ele mais gostava. Talvez porque tivesse a cor da tarde quente ou talvez porque lembrasse a cor dos dias calmos em que passara na América. Cor de sol, dia de chuva. O jardim, nesse dia, estava molhado. A neblina cobria as folhas e tocava de leve a grama verde que se estendia pelo chão.

Arnaldo vivera toda a vida ali, e já não sabia o que lhe faltava toda vez em que sentia aquele aperto no coração. Corria, então, para o jardim. Era ali que as memórias surgiam, saídas de um lugar qualquer; era ali que ele podia pensar.

Pensar nem sempre figurava como algo positivo na vida de Arnaldo. Era sempre a sua primeira opção, mas nunca a melhor. Ele já havia passado por maus momentos, porque sempre privava a si próprio das aventuras, das tentativas. Tudo para ele precisava ser pensado, repensado, muito bem pensado. Arnaldo não cogitava viver sem planejar suas ações, por mais simples que elas fossem.

No caso de Amélia já havia sido assim. Do mesmo jeito. “Desiste desse emprego e volta comigo?” Arnaldo pediu alguns dias. “Preciso pensar um pouco, Amélia.” A expressão de decepção dela só não foi pior do que o desfecho da história. Bem ali do lado, na lanchonete da esquina, Amélia iria encontrar alguém e desistiria subitamente de esperar pela resposta de Arnaldo: voltaria para casa com família formada – marido, cachorro e coragem.

Agora, mais uma vez no jardim, algo abria a janela das lembranças de Arnaldo. E ele podia rever tudo – da mesma forma. Ele escrevia. Por alguns momentos chegava a adormecer. E quando as lágrimas molhavam o papel, ele se deixava levar pela música triste de mais um pensamento. Tango, bolero, mambo – o ritmo era sempre marcado. E as influências latinas ainda figuravam em sua memória.

A América foi de fato marcante para a vida de Arnaldo. Boina na cabeça e camisa listrada, ele podia exercitar a lembrança e a imaginação. Por vezes, chegava a duvidar se realmente havia conhecido Gabriel, o companheiro de revoluções que ele acompanhou até o dia da partida. Não havia sido muito tempo de convivência: 17 dias, uma tarde e uma prisão. Mas o que ele sentia pelo amigo não havia mudado. Desde a captura de Gabriel pelos rebeldes, Arnaldo guardava um sentimento que era um misto de culpa e de tristeza. Também havia saudade, mas em todos os seus pensamentos, Arnaldo não conseguia descobrir qual dos três era superior. Quem olha de fora, diria que é a culpa, influenciado pelo olhar frio e distante de Arnaldo. Ele, se soubesse dizer, afirmaria que é a saudade.

Saudade Arnaldo tem de muita coisa. Do que já viveu e também do que gostaria de ter vivido. Os velhos sonhos de pilotar um avião e casar com Amélia, ter três meninas e colher uma flor azul já haviam sido deixados para trás há muito tempo. Mas isso era algo que Arnaldo gostava sempre de lembrar. Ele se sentia bem assim, imaginando o que poderia ter sido, e não foi.

Ele pensava agora que vivia sem sonhos. Envolvido na rotina de visitar o jardim todos os dias, julgava não ter mais vontade de viver nada além daquilo. Nada além do sol até às três da tarde e chá às sete para dormir. Nos seus pensamentos infinitos, chorava toda vez por ter esquecido tão rápido o poema que escrevera para Amélia. Das perguntas infinitas, ficavam sempre a angústia e o aperto no coração. Da vontade de viver, ele já não se lembrava, nem do sorriso que lhe caía tão bem com a roupa clara.

Há quem diga que Arnaldo agora vive esperando. Não se sabe o quê. Mas a luz daquele olhar triste deve ter de fato algo a dizer, além de pensamentos, cores e lembranças.


Maria Sofia