Mostrando postagens com marcador Wilma Dantec. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Wilma Dantec. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Do avesso

Acordei essa manhã e fui direto para o trabalho. Não tive tempo nem para tomar meu café da manhã porque já estava atrasado. Cheguei lá e fiquei imerso nos problemas da empresa até a hora do almoço. Quando fui até a pequena cozinha do escritório para esquentar meu almoço, entreouvi meus colegas conversando sobre mais uma tragédia que passava no noticiário.

- Caramba, atiraram nele. Parece que ele estava caminhando na rua.

Mais uma dona de casa saiu às ruas e matou uma pessoa, um traficante da favela na qual ela morava. Ela atirou contra as costas do rapaz e o tiro lhe atravessou o peito. Tentaram socorrê-lo, mas ele já estava morto quando chegou ao hospital. Foi como na semana passada, quando uma senhora esfaqueou um PM dentro de um bar. Normal isso acontecer hoje em dia. Os traficantes e policiais estão com medo. O governo não sabe o que dizer para acalmar essas pessoas. Estão oferecendo aumentos e folgas.

As novelas só tratam disso. Os jornais, então, nem se fala. É um sensacionalismo atrás do outro. Vários repórteres seguem pela rua procurando e tentando identificar o perfil desses assassinos inescrupulosos.

- Trabalhador, normalmente com família, grande parte de baixa renda, mas existem as exceções da classe média... – ouvi o repórter do telejornal descrever.

Todos na empresa eram potencialmente perigosos. Por isso todo mundo dava sempre um jeito de mostrar como mesquinhos somos, como errada cada parte da nossa vida era. Bárbara, do setor de finanças, ontem mesmo, gritou no meio do salão que anda roubando a empresa, sobretaxando preços como o do café e da copiadora e pegando a diferença para ela. Depois, eu ouvi outras funcionárias invejosas reclamando o quão pretensiosa Bárbara era.

Deve ter algo absurdamente de errado comigo. Eu penso que essa sociedade só pode estar realmente doente. Ninguém mais preza valores como o da família. Só defendem os interesses pelo dinheiro, pelo poder; ninguém mais é honesto, ninguém mais tem caráter. Em que momento a sociedade enlouqueceu? Quando foi exatamente que perdemos a esperança de viver segundo os princípios do respeito e da cidadania?

Nos meus quarenta anos de vida, nunca vi nada mudar. Me pergunto: será que poderei criar meu filho numa época como essa? E meus netos? Estamos no ano de 2109, meu Deus! Será que em algum século alguma coisa poderá mudar?

Ana Cristina, a dona de casa revoltada, foi presa em flagrante. Logo em seguida, foi solta, por falta de provas. Os traficantes da região choram a perda do amigo, e esta tarde realizam uma passeata contra a violência.

Wilma Dantec

domingo, 27 de setembro de 2009

Gente boa

Gente Boa era um jabuti muito legal. Foi adotado pela família quando o menor dos filhos ainda tinha três anos. No início, todos prestavam muita atenção a ele, no seu rebolado lento e sincronizado até as alfaces e aipos que lhe eram oferecidas. Era um jabuti muito calmo e tranquilo na sua juventude.

Assim batizado quando colocou sua patinha minúscula e enrugada na casa dos Pereiras, o gracioso jabutizinho era todo amores com a família, amigos e, principalmente, com as crianças. Todos diziam: “Cuidado para não deixá-lo muito perto do Dudu! Ele pode querer por suas mãozinhas nele e ele lhe arranca um dedo. Os jabutis gostam de morder.” Mas não foi assim. Tão logo ficou provado, empiricamente, que o animal não mordia de jeito nenhum, quem quer que fosse, apelidaram o réptil de Gente Boa por sua ótima conduta que transcendia sua essência biológica.

Mas Gente Boa mudou. Ele cresceu e virou um jabuti robusto adulto e começou a destruir toda sua boa reputação. Não se sabe bem ao certo quando ele se rebelou, mas deve ter sido a partir do momento em que Dudu não se chamava mais Dudu, e sim Eduardo. A família crescia e a tartaruga ia sendo esquecida. Já não recebia mais hortaliças e cafunés no pescoço pelancudo. Sua caixinha, que era sua casa, não era mais regularmente limpa e isso devia incomodá-lo profundamente. Por causa dos maus tratos, a falta de amor e compreensão da família, Gente Boa resolveu chamar atenção em um último ato esperançoso e desesperado.

Botou-se a correr desatadamente pela casa, correr no sentido de andar obstinadamente em passos de tartaruga, derrubando e roendo o que passava por perto. Eram mesinhas de centro e suas cristaleiras ornamentais, pastas e mochilas que eram largadas no chão, livros, revistas, pés de cadeiras e poltronas. Em menos de uma semana, o animal já recebia alguma atenção pelos seus atos delinquentes.

Imagino que Gente Boa estivesse satisfeito com o estrago e a atenção, porque voltou a se comportar. O engraçado é que atenção não voltou a diminuir e, ao contrário do que muitos possam pensar, o jabuti começou a ficar preocupado. Mais e mais vezes, escutava seu nome entre conversas da família e olharem deprimidos e melancólicos em sua direção. Os Pereiras estavam tomando uma decisão, provavelmente terrível...

Gente Boa ficava ainda mais preocupado a cada dia que passava e até parou de comer as recentes guloseimas que eram postas na sua casinha. Eles estavam querendo subordiná-lo com aquilo e ele não iria ceder! Além disso, a preocupação era tanta que ele tinha mesmo perdido o apetite.

Foi, então, que chegou o dia fatídico para o jabuti domesticado. Uma caixa relativamente grande, com alguns furinhos no topo e nas laterais, estava posta no centro da sala. Em cima, vinha escrito: MUDANÇA. Gente Boa não sabia ler, mas sabia o que era uma caixa com furos. Tratou logo de se acalmar e pensar no que iria fazer para fugir e não ser devolvido à loja de animais. Tentou pular da janela, sair pela porta dos fundos, mas sempre era recuperado a alguns passos do destino final.

Tentou fazer greve de fome e morder mais coisas. Inutilmente.

Nostalgicamente, Gente Boa começou a recordar do dia em que chegou e os olhinhos brilhantes de Dudu. Hoje, Eduardo tinha 25 anos e seus olhos não brilhavam tanto quanto antigamente. Ainda assim, volta e meia ele passava pela casa do jabuti pra lhe fazer um agrado, que foram reduzindo à medida que ele crescia. Gente Boa começou a se sentir deprimido. Afinal, estava conformado com seu destino cruel de abandono pela sua querida família. Só sentiu mesmo aquela pontadinha no seu coração de réptil por causa do descaso de Dudu.

No dia da mudança, Gente Boa foi resignadamente posto dentro da caixa. Com seu recipiente de água e comida, foi transportado com cuidado. Chegou a seu destino, preparado pra reencontrar alguns dos seus velhos amigos e outros animais mais novos. Mas não, não foi com a loja que ele se deparou. Foi com uma casa, recém pintada, com poucos móveis. Lá estava Eduardo e uma mulher, bem barriguda. Gente Boa não entendeu de primeira o que havia acontecido, mas tão logo nasceu Dedé tudo voltou a melhorar na vida de Gente Boa.


Wilma Dantec

domingo, 20 de setembro de 2009

Valeu, piloto!

Numa manhã, como outra qualquer, peguei minha pasta que guardava meu estojo e um velho caderno de capa dura, meus óculos de sol, um guarda-chuva dobrável e minha carteira. Marchei em direção ao ponto de ônibus. Não era o mais próximo da minha casa, mas lá passavam os ônibus principais. Hoje teria que ir ao centro, levar e pegar uns documentos. Coisa chata, sabe?

Cheguei à parada do ônibus e como sempre ela estava bem cheia. Pessoas de todas as idades, com os mais diferentes tipos de roupas. Alguns nitidamente iriam trabalhar, outros iam para a escola e os outros poderiam estar somente indo passear. Mas quem passearia às sete horas da manhã de segunda-feira?

Minha atenção foi fisgada por duas colegiais que vestiam saias minúsculas e meias até o joelho. Quem será que foi o depravado que desenhou esse uniformes para alguns dos colégios públicos do Rio de Janeiro? Dava para perceber que as jovens haviam, ainda por cima, dobrado a cintura da saia uma ou duas vezes para que ela ficasse ainda mais curta. Acho engraçado como elas gostam dos olhares dos homens e velhos babões para suas pernas.

O ônibus chegou e eu fui o primeiro a entrar. Como sempre. Todos estavam muito educados essa manhã, eu reparei. Cederam a passagem e não foi difícil encontrar um lugar vago a minha espera. Me sentei ao lado de uma moça muito bonita e bem arrumada. Seu perfume era forte. Ela carregava uma bolsa muito grande e um rádio na mão.

Prum...

- Oi querida.

- Fala gatíssima!

Prum...

- Só pra avisar que estou atrasadíssima hoje. Queria chegar no escritório mais cedo, mas é que ontem o Roberto me levou para jantar num restaurante ma-ra-vi-lhoso em Ipanema e chegamos muito tarde na minha casa.

- Você já levou ele pra sua casa na primeira noite?!

Prum...

- Eu sei... Eu sei... Mas ele não dormiu lá não... Menina, depois eu te conto. Avisa pro Eduardo que eu vou chegar atrasada, dá uma desculpa qualquer?

- Claro amiga!

Prum...

- Ah, obrigada Célia! Um beijão!

- Beijos! Até daqui a pouco!

Acho engraçado como as pessoas não têm mais vergonha de expor em público suas vidas pessoais. Agora todo mundo no ônibus sabia que, possivelmente, a mulher excessivamente perfumada ao meu lado, levava os homens que saía pela primeira vez para a casa. As mais variadas conclusões poderiam ser tiradas disso. Mas isso não era da minha conta. Peguei meu caderno e comecei a fazer minha primeira anotação.

Meu hobby era escrever sobre situações bizarras do cotidiano. Não só bizarras, mas que a meu ver passavam despercebidas na pressa do dia. Por exemplo, as meninas de mini-saias e a Chanel nº5.

Outra situação que me chamou atenção e mereceu destaque em meu caderninho foi a de uma jovem de mais ou menos 25 anos. Ela estava à minha direita, sentada ao lado de uma janela. Ela tinha os cabelos longos e cheios e um problema. A janela mais próxima dela estava escancarada e seus cabelos se desgrenhavam a medida que lufadas de vento entravam. O ônibus desgovernado imprimia tal velocidade que o vento era insuportavelmente forte. Ela tentava fechar a janela e não conseguia. O veículo era velho e suas janelas enferrujadas. Ela não conseguia. Me levantei para tentar ajudá-la e ela ficou muito constrangida.

- Por favor, senhor. Não precisa se incomodar. A janela está emperrada, acho que o jeito é mudar de lugar.

- Mas o ônibus está cheio, senhorita. Fique com meu lugar e eu fico com o seu. Já não tenho mais cabelos para atrapalhar.

- Não, de forma alguma, senhor. Este vento está muito forte.

Um rapaz forte chegou e pronto. Com dois dedos, fechou a janela e colocou um fim ao diálogo.

- Obrigada. Aos dois.

E ela voltou para seu lugar. Para seu aparelho de música. Como se eu nem estivesse lá.

Sentei-me e escrevi. Em determinado momento, me senti envergonhado por não ter conseguido ajudar a moça e me senti um inútil. Fiz sinal para o motorista e fui andando calmamente até o fim do ônibus, me segurando bem nas barras para não cair em uma dessas freadas bruscas. O mesmo jovem forte que ajudou a moça dos cabelos cheios, correu e me ultrapassou. Parou nas escadas, bem próximo a porta de saída e deu um assobio tão alto que meu aparelho auditivo ressonou.

- Campeão! Deixa eu descer aí!

A porta se abriu, no primeiro sinal vermelho em que o ônibus parou.

- Valeu, piloto! Vai com Deus!

Refleti por um segundo. Por que era tão comum as pessoas chamarem um motorista de ônibus de piloto? Como eles chegaram a essa associação? Será por que o ônibus ia tão rápido e tão desembestado que parecia voar?

- Vai descer aí também senhor? – Gritou o cobrador do ônibus, me fazendo retornar ao mundo real.

- Prefiro no ponto, se não se importar.

Desci do ônibus ainda constrangido. Reparei que a jovem me olhava da janela aberta. Ela acenou. Coisa rara. Na maioria das vezes as pessoas somente ignoram a presença dos outros. Engraçado era que seus olhos não pareciam olhar diretamente para mim. Olhei para trás e vi outra menina, igualmente vestida como a jovem do ônibus de roupas caras, e entendi. Não era para mim aquele aceno.

Não ia deixar isto me deprimir. Estava quase no centro e desisti de manter a farsa dos documentos. Iria para outro lugar agora. Iria para a praia do Leblon. Fiz sinal para o 172, já do outro lado da rua. Eu entrei, saquei minha carteira e meu Rio Card Sênior e fui rumo a mais um passeio.

- Valeu, piloto.


Wilma Dantec

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Melhores amigos

Meu melhor amigo se chama Tadeu. Desde pequeno, quando meus pais brigavam muito e eu fugia de casa, era ele quem me ajudava a passar as horas. Eu não gostava realmente dele, e tenho quase certeza de que ele também não gostava muito da minha companhia. Ele é daquele tipo que conquista todos a sua volta, possui carisma e luz própria. Eu nunca fui assim. Talvez fosse por isso que não o considerasse realmente meu amigo.

Não importa. Isso foi quando éramos crianças. Eu cresci. Mesmo depois, quando meus pais se separaram e eu desenvolvi um medo terrível de ser esquecido, por ambos, eu me tornei um jovem saudável. Posso até dizer que foi a partir desse momento que comecei a verdadeiramente a ser amigo de Tadeu.

Nós frequentávamos a mesma creche, a mesma escola, o mesmo colégio e até fomos para a mesma universidade. Mas ao contrário de Tadeu, que até seus 15 anos, era melhor que eu em tudo, eu conseguia namorar com todas as meninas com quem eu quisesse. Minha frustração era não poder ficar com as que o Tadeu escolhia, porque, apesar de eu gostar delas, eu sabia que magoaria meu amigo.

Quem detestava Tadeu era minha mãe. Todo dia ela vinha reclamar que eu passava tempo demais com ele, na casa dele, e que não tinha tempo para a família. Que meus primos e primas queriam ‘interagir’ comigo e eu não ligava. E ela sabe que grande parte dessa alienação era culpa dela, porque eu morava com ela desde pequeno e ela precisava trabalhar e me deixava sempre em casa pensando na vida. Tudo complicou ainda mais quando ela me deu um videogame novo, desses importados, e eu e Tadeu ficamos inseparáveis. Tenho boas lembranças das tardes intermináveis de frente para a televisão, quase cegos por termos virado a noite jogando, quando zeramos o Combate Sangrento II.

É... minha mãe não gostava de Tadeu. Até que meu pai não falava muito nele. Quando eu ia visitá-lo, sempre pedia para levar meu amigo junto e ele permitia, sem problemas. Era mais uma visita de rotina do que outra coisa. Almoçávamos juntos, ele me contava como andava a sua vida, dizia que me amava e me levava de volta para mamãe. Mas tudo bem, Tadeu ia comigo e a gente se divertia pra caramba andando de bicicleta no play.

Mas isso realmente não importa, porque eu cresci. Cresci e virei uma pessoa da qual não posso me orgulhar. Virei um ser invejoso e solitário, mas isso não foi culpa dos meus pais, foi culpa do Tadeu. Mesmo depois da universidade, ele seguiu meus passos na mesma empresa em que eu trabalhava. E daí, eu percebi. Ele era uma daquelas pessoas que fingem ser carismáticos e cheios de luz, mas que precisam de um otário para fazer parecer que eles brilham. Quando eu percebi isso, já era tarde demais para consertar a minha vida. Já tinha perdido as esperanças de me livrar desse amigo falso e sanguessuga que me perseguia.

Quase sem esperanças, numa noite dessas pensei em uma solução um pouco macabra. Pensei: “Poderia matar Tadeu, ninguém sentiria a falta dele”. Comecei a ver que realmente ninguém sentiria a falta dele porque o cretino não tinha família. Ele era órfão desde que eu o conheci.

Quanto mais eu refletia sobre esse plano maléfico, mas eu pensava que era a coisa certa a fazer. Afinal, quem precisava de um amigo que vivia a margem das suas realizações, família e amigos? Senti-me em um filme de terror. E se Tadeu tivesse traumatizado no passado ao ver-me chorando por meus pais quando ele nem ao menos tinha pais? E se ele planejou arruinar minha vida desde então?

Deixei de lado um pouco essa idéia que me consumia, por uma semana ou duas. Foi quando estávamos, eu e Maria, na serra aproveitando nosso aniversário de dois anos de namoro, que o desgraçado apareceu. Estava tudo muito bem e ele conseguiu estragar. Inventou uma desculpa esfarrapada para estar no mesmo local que a gente e se unir a nós. Foi a gota d’água.

Planejei tudo, em minúcias. Iria brigar com ele no meu apartamento, dando motivos para ele sacar a arma que estava na minha escrivaninha da sala. Ele sabia muito bem onde eu a guardava e quando eu a adquirira. Só não sabia o porquê que eu a comprara. Ele pensara que era para a proteção, contra algum dos meus medos, mas não, eu planejara acabar com a vida de alguém que na época não era ele. Mas agora tudo estava claro. Meu subconsciente me falava desde meus 25 anos que era para isso que essa arma serviria, para matar Tadeu. Minha vida só era do jeito que fora por causa deste safado.

Ocorreu tudo como o planejado e ele tentou, de fato, atirar em mim. Mas as balas eram falsas e em seguida, eu o matei com uma arma recém adquirida com balas verdadeiras. Eu o matei. Como legítima defesa, é claro. Mas para a minha maior surpresa, não houve julgamento e nem perícia. Não houve choradeira, nem enterro. Meu pseudo-melhor amigo se foi, sem deixar vestígios... Só um rastro de destruição na minha pseudo-vida.

Hoje, tudo vai bem. Melhor. Tenho o emprego dos meus sonhos, me casei com Maria e minha família consegue até co-habitar na mesma reunião. Ao longe, vejo meu primeiro filho engatinhando... e, mesmo cercado de tanta gente que eu amo, continuo me sentindo vazio. A culpa me acompanha e eu jamais esqueço que eu matei quem eu mais amei, meu amigo imaginário.