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domingo, 27 de setembro de 2009

Gente boa

Mário se mudou há 10 anos. Chegou vestido de maneira simples; jeans surrado e camiseta herdada da campanha política de 1997. Seus cadarços estavam desamarrados e seus pés eram arrastados em um compasso ritmado e monótono. Deixava tudo para trás e iniciava vida nova; seu tudo era pouco, mas ainda assim o desapego provocava estranheza. Não mais do que os olhares da vizinhança: intimidantes, desconfiados e apreensivos com a chegada do forasteiro. Mário escondeu o rosto e abaixou a aba do boné.

As paredes de concreto áspero da construção escondiam um microcosmo cujas engrenagens operavam de maneira curiosa. As janelas dos quartos emolduravam o pátio de grama maltratada, alguns bancos e uma única trave de futebol. Havia um certo equilíbrio harmônico, interrompido por freqüentes discussões entre desafetos. Durante os confrontos de seus vizinhos de porta, Mário preferia manter-se imparcial. Apoiava-se no peitoril da janela, dava três voltas no quarto e cantarolava um samba antigo para abafar os insultos e ameaças vazias. Sua resolução máxima era ser invisível.

Levava uma vida regrada, sem excessos de álcool, drogas, alegria e demais entorpecentes. Era fiel aos seus horários. Levantava, impreterivelmente, às 7h, vestia as roupas limpas recém-chegadas da lavanderia e ia trabalhar. Mário vivia de pequenos serviços de carpintaria. A remuneração era ridícula e insultuosa para a maioria dos servidores, mas ele gostava de ter uma razão para se levantar e vestir suas calças.

Logo após se mudar, conheceu Jorge e Pedro, com quem partilhava o interesse por baralho e cigarros. Passavam tempo sentados nos bancos, assistindo partidas de futebol de uma só trave. Jorge era um sujeito alto, de cabelos crespos. Havia uma seriedade solene em seus olhos pretos vazios. Carregava a foto de uma mocinha pálida no bolso da camisa; Mário a havia batizado secretamente de “Branca”. Em suas reuniões diárias, Jorge nunca mencionava Branca e Mário também nunca perguntava. Mesmo em 10 anos de convivência, não tinha intimidade para tal. Seus assuntos se resumiam a histórias despretensiosas do passado, esportes, fumo e mulheres. Mas não aquelas cujas fotos são carregadas nas carteiras; só as que exibiam seus dotes em capas de revistas. Já Pedro, negro de sorriso amarelo, gostava de vangloriar-se por seus trambiques e falcatruas. Era o mais velho dos três e morava lá há Deus-sabe-quanto-tempo.

Almoçavam juntos a comida de Dona Glória e Dona Lígia. As senhoras e seus ajudantes cozinhavam para uma boa quantidade de pessoas e não tinham muito tempo para preocupar-se com qualidade e variedade. A comida quase sempre era uma mistura irreconhecível de arroz, feijão e uma carne qualquer, batizada carinhosamente de “grude”. Mário devorava com gosto. Jorge mexia o garfo relutante. Pedro lambia o prato. Os três despediam-se com um aceno cúmplice e voltavam para seus quartos.

À noite, Mário jantava as sobras do almoço na mesma mesa. Fez isso durante 10 anos e, aquele dia, não era diferente. Um sinal tocou. Todos os homens ficaram de pé em um impulso coletivo. Mário olhou em volta, suspirou e balançou a cabeça pesadamente ao notar os homens vestidos de azul que orquestravam o grupo. Empurrou seu prato e lamentou o arroz intocado: gostaria de ter mais tempo. Sentiu uma pesada mão nas costas e levantou-se também. Cabeça baixa, semblante resignado. Foi escoltado até sua cela pelo guarda que lhe disse “boa noite” e fechou as grades.


Lúcia

sábado, 12 de setembro de 2009

My way

O fim deveria ser mais ou menos como o término de um grande espetáculo teatral. Caem as cortinas, os atores recolhem-se às suas coxias, agradecimentos, aplausos. Não era que o seu estivesse próximo, muito pelo contrário. Mas ele era uma daquelas pessoas que gostavam de se recolher ao setor empoeirado da mente humana, habitado por personagens há muito não vistos e cenários há muito não freqüentados. Relembrava pelo bem da nostalgia e do metodismo – lhe agradava a idéia de fazer um balanço de sua vida até o momento. Mas, não, o fim não estava próximo.

Sentou-se a beirada do sofá e contemplou a sala sobriamente decorada. Os móveis e aparatos eram de uma elegância convidativa, confortável. Na parede imediatamente oposta, um Sinatra jovem o encarava. Ele respondeu com o esboço de um sorriso e um gesto embaraçado. O pôster francês - que havia sido lembrança de um amigo - sempre provocava aquela reação, mesmo após anos. Esticou o braço esquerdo e tateou os botões de seu “stereo”. Sim, ele era o tipo de pessoa que ainda conservava um “stereo” e se divertia com as reações que o objeto provocava. Uma amiga lhe disse certa vez que seu estilo retrô era muito cool, mas ele se considerava um simples conservador irrecuperável. Quando estava em casa, gostava que suas músicas permeassem o ambiente e não atravessassem somente o curto caminho entre os fones e o ouvido.

No rádio, a voz madura de Sinatra saudava a jovem fotografia e cantava os primeiros acordes de “My Way”. Sua favorita. A coincidência havia sido proposital, apesar de não diminuir o encanto da melodia suave e incisiva. Recostou-se no assento acolchoado e deixou que os sustenidos e bemóis o levassem para períodos remotos e queridos. O pai e seus pés na mesinha de centro, o sorriso juvenil da irmã, aninhada no colo da mãe que lhe acariciava os longos cabelos loiros. O que mais valorizava. O que mais almejava. Não desejava a casa branca, a cerca amarela e os sorrisos artificiais de propagandas de margarinas. Queria o apoio, o companheirismo e as ligações eternas.

Viu o colégio e os companheiros de Ensino Médio, com quem aprendeu a sorrir do que não era virtude. As piadas internas, os risos altos, as exclamações, as partidas de War. Os protestos, a insatisfação, a sordidez bem-humorada.

Sinatra cantava seus poucos arrependimentos, seus planos bem calculados, seus passos cautelosos. E ele voltou aos anos de faculdade. Os amigos tão superficialmente idênticos e tão completamente distintos. As discussões intelectuais à luz amarela do restaurante australiano, que logo eram substituídas por divertidas histórias. Lembrou dos ideais, dos sonhos e dos rodízios de pizza. Lembrou da República e de suas reclamações rabugentas sobre os companheiros. Seus comentários sarcásticos reforçavam a idéia de um mau-humor latente. Mas sua rigidez desmoronava durante as conversas animadas sobre o nada.

Ali estava. Percorrendo mentalmente sua estrada de tijolos amarelos. O caminho que o conduziu até ali se bifurcava em distintas trilhas; ainda havia muito a percorrer. Amou, sorriu, chorou, perdeu e ganhou. Disse o que pensou, fez o que sentiu. Preservou sua independência e sua personalidade, sem deixar de ceder aos impulsos e sugestões da vida. E independentemente das ruas que escolheu seguir, fez tudo à sua maneira.

Exatamente à sua maneira.


Lúcia

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ulisses

No dia 10 de janeiro de 1989, às 3 horas e 20 minutos, Ulisses foi amaldiçoado. Não foi um caso de feitiçaria antiga, magia negra ou alinhamento de planetas. A responsável foi uma jovem senhora que, após 8 horas de trabalho de parto, respirava ofegante. Sua expressão só poderia ser descrita como um misto de alívio, alegria e resquícios de anestesia. O bebê guinchava, mas eventualmente se acomodou nos seus braços. Havia também um jovem senhor na sala, que trocou um olhar cúmplice com a companheira e balbuciou: “Ulisses”. Manteriam o combinado. A mãe e o pai do bebê-que-viria-a-ser-registrado-como-Ulisses eram grandes fãs da literatura Universal. Em vez de pesquisarem nomes para o rebento em revistas femininas, o casal recorreu aos grandes heróis mitológicos. Pensaram em Aquiles, Perseu, Hércules, mas nenhum era tão grandioso quanto Ulisses. O homem que lutou por 10 anos e sofreu por mais 10 em sua viagem de retorno a Ítaca. Aquele que enfrentou o ciclope Polifemo e o deus Posêidon. O resultado não poderia ser mais desastroso. Para os pais, consequências amenas, como o rótulo de “esnobes” e olhares enviesados das mães de “Joãos” e “Pedros”. Já a criança foi incumbida de um fardo que poucos são capazes ou dignos de carregar.

Aos 5 anos, Ulisses foi apresentado à Ilíada e à Odisséia. Suas histórias antes de dormir tratavam de batalhas, honra, inteligência, astúcia e glória. Ulisses, em idade tão tenra, abraçou o urso de pelúcia e só pôde prever que estaria destinado a grandes feitos.

Ulisses era descrito pelos pais como dono de uma personalidade única e reservada. Um pequeno prodígio introspectivo. Já para as tias velhas da vizinhança, era o anti-social, antipático, alheio as suas doces demonstrações de carinho e apertos na bochecha. As demais crianças de sua idade simplesmente não o notavam, pois se encontravam demasiadamente ocupadas com seus balanços e gangorras e figurinhas e bonecos. Na verdade, Ulisses não era nada disso. Passava horas pensando nas histórias que seus pais contavam. Para ele, só poderia existir um Ulisses. Seu futuro já estava escrito. Os contos eram um presságio, uma descrição acurada do que estaria por vir…e o garoto esperava que chegasse. Não com o vigor e a ânsia de quem almeja algo. Era mais como estar na sala de espera de um dentista e não ter outra escolha, a não ser esperar. Enquanto isso, ocupava-se com revistas velhas.

Ulisses era apático. Não havia descrição melhor. Seu quarto era decorado sem grandes extravagâncias, seu armário, recheado pelas mesmas camisas pólo em diferentes tons pastéis. Dizer que não tinha muitos amigos implicaria em dizer que tinha algum. Ulisses nunca entendeu os interesses infantis e agora, aos 12 anos, pouco achava graça nas conversas que entreouvia dos seus colegas – pretensos adolescentes. Relações pessoais eram supervalorizadas.

Não era que o rapaz fosse um esnobe. Simplesmente nada daquilo o interessava. Tampouco faziam os livros, os filmes, a música, computadores ou pessoas. Ulisses vivia no recanto sombrio, distante do amor e do ódio, conhecido como indiferença. Invejava os que amavam, mas sentia uma vontade imensurável de odiar. Só podia concluir que um sentimento que envolvesse total desprezo por outro ser deveria ser grandioso. Grandioso como Ulisses. Mas o menino não conseguia sentir nada por ninguém. Estavam todos muito ocupados com seus cabelos, suas roupas, seus sorrisos artificiais e suas conversas sobre o tempo. Tudo aquilo era de um tédio mórbido.

Contudo, nada o perturbava mais do que sua figura. Nunca havia encontrado o menor sentido em sua existência. Em nenhum momento de seus 14 longos anos, que mais pareciam 80, teve sequer um lampejo. Deus, como Ulisses desejava ter 80! Seu problema nunca foi ser rejeitado por alguém, uma vítima de crianças cruéis que se divertiriam às custas de seu comportamento estranho. Não. Ulisses se rejeitava. Aquela não era a sua história. Devia tanto a si mesmo, devia tanto a Ulisses. Desejava, por vezes, ser como um daqueles meninos de olhos atormentados que trajavam preto e sentavam no fundo da sala, dedicando-se aos quadrinhos, história curtas e letras de rock melódico. Invejava sua insatisfação, seu tormento, suas almas de artistas inconformados. Antes fosse assim, isso o tornaria especial. E seria um ótimo início para a sua Odisséia. O jovem perseguido que se tornou…grandioso.

Mas Ulisses não tinha talentos. Não era bom em matemática, física, história ou geografia. Muito menos esportes ou artes. Também não era ruim. Só medíocre; não tinha derrotas ou vitórias. Era vazio de paixões, na verdade. Por vezes, tentou a religião e a política: assistia às pregações de senadores e aos discursos de pastores pela madrugada a fora. De nada adiantou. Seus ânimos não poderiam ser exaltados. Ulisses era o Nada. Se chamava Ulisses, mas tinha alma de João. De Ninguém. Impassível, insignificante e indiferente. E se ao menos se importasse o suficiente com isso, poderia encontrar aí seu grande sinal, sua epifania. Mas ele só podia esperar. O vazio existencial acabaria um dia. Só restaria o vazio, então. E Ulisses.

Seu pai trabalhava em um daqueles majestosos prédios no centro, que pareciam conter todo o resto da cidade em suas paredes espelhadas. O escritório ficava no 19º andar. Após a saída da escola, Ulisses e seus 16 anos passavam ali as tardes, andando em círculos e girando na cadeira executiva.

Aos 20 anos, se debatia entre estudos fracassados e empregos em lanchonetes. Em uma atitude nepotista, justificada pela mais genuína angústia, seu pai o levou para a empresa. Ulisses tinha como únicas responsabilidades organizar arquivos e servir cafés.

Em uma determinada tarde, cansou-se de seu cativeiro. Nele não havia Calipso, Cila, desafios ou promessas. Só a mesma inércia de uma vida à deriva. Tocou as janelas com as palmas abertas e jogou o peso do mirrado corpo sobre os dedos. Encostou a face no vidro frio e sorriu. Gostava da sensação. Era como deitar sobre o Nada. Se lembrou que a brisa lá fora estava agradável para um dia de verão e abriu a tranca. A janela se moveu sem ruídos. Na verdade, o vidro era tão translúcido que Ulisses mal notou alguma diferença, a não ser pelo vento delicado que sacudia as persianas. Subiu no parapeito com algum esforço e ficou na ponta de seus tênis sujos. Contemplou os cadarços e o mundo. Brincou de atravessar o vidro imaginário com pernas e mãos. Chutava e socava o Nada delicadamente, como se o desafiasse a acertá-lo de volta. Mas o Nada continuou impassível e Ulisses parou de lutar. Queria algo. Queria o novo. Queria desejar. Encarou novamente os tênis cinza, os telhados cinza, céu cinza e sentiu-se colorido. Ali, do alto do 19º andar, no parapeito de uma janela, Ulisses encontrou o momento mais lírico de sua insignificante existência. Não era bonito, não era feio. Não era triste, não era alegre. Assim como ele. Era Nada. E Ulisses flertou com o Nada. Não era mais impotente, não se sentia dominado. Era parte dele, queria se fundir à imensidão. Havia algo tão atraente e inspirador sobre o fim. Uma inegável poesia. Talvez por isso não encontrasse significado. Talvez não estivesse destinado a ser Grande, mas, sim, a ser Nada. Nosso Ulisses, para o choque e surpresa de Homero, decidiu não voltar para casa ao fim de sua Odisséia de 20 anos. E, então, voou.


Lúcia