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terça-feira, 6 de outubro de 2009

A.R. - 15

14 de maio de 1991: Maria Silva vem do Nordeste para tentar a vida no Rio de Janeiro.

Até aqui, nenhuma novidade. Maria é apenas mais uma mulher que veio para a grande cidade em busca de ilusão. Sem nenhum estudo, planejamento, dinheiro e expectativa acabou por morar em uma espécie de cortiço no alto da favela da Rocinha.

Humilde mulher, com apenas 19 anos começou a trabalhar em uma linda mansão em São Conrado em troca de um pouco de dinheiro e um pouco de estudo.

Casou-se com Anderson Ribeiro,um rapaz igualmente jovem da própria comunidade, e passou-se a chamar Maria Silva Ribeiro. Juntos construíram um pequeno lar com apenas um quarto e uma cozinha/banheiro.

Engravidou 5 vezes, mas apenas o último filho vingou. (os dois primeiros morreram na gestação e os outros 2 não passaram dos 4 meses de vida).

Porém, quando seu quinto e único filho passou do primeiro ano, quem morreu foi seu marido. Causa da morte: bala perdida.

A mulher de nome santo estava sendo apunhalada pelo fantasma da morte mais uma vez.

Ela já havia passado pela dor da fome, a dor de não ter um lar, a dor da decepção de ter abandonado a sua terra natal em busca de uma ilusão. Ela sentia saudades das suas irmãs, sentia saudades de seus pais, já tinha sido espancada sem motivo, mas ela tinha certeza que nada se comparava a dor de perder alguém que se ama. (e pela quinta vez ela sentia essa dor).

Por mais que ainda tivesse um filho, Maria sentia-se sozinha, Maria não queria mais viver... De luto, toda favela se apagou e chorou com Maria...

Rio de Janeiro, ano de 2009. A Rocinha cresceu, ganhou uma nova dinâmica e muitas novas “marias” que vieram tentar a sorte no Rio de Janeiro.

O tráfico de drogas cresceu assim como o número de tiroteios, o preconceito e medo dos moradores da Zona Sul e Oeste em relação à Rocinha. Mais do que nunca morador de favela virou sinônimo de bandido. (grande tolice da humanidade...).

Realmente não é nada fácil você ser o elo fraco da desigualdade social, não ter o que comer e o que vestir no frio e ainda conseguir dizer NÃO para as ofertas ilícitas, porém fáceis de conseguir dinheiro. Mas felizmente existem pessoas que conseguem dizer “não”.

Na própria Rocinha, das muitas “marias”, um jovem se destacava por essa força de vontade.

Era alto, moreno escuro de cabelos lisos e negros. Seu corpo raquítico suportava uma vontade de crescer na vida sem igual.

Vendia doces em sinais de trânsito e cerveja nos finais de semana de sol nas praias da Zona Sul. Com o dinheiro que arrecadava ajuda sua mãe, comprava cadernos, livros e juntava o pouquinho que sobrava para um dia comprar tênis especiais para prática de corridas. Era um dos poucos jovens de sua região que lia com perfeição e que era ótimo em matemática.

Por sinal,seu talento em matemática chamava a atenção dos chefões do tráfico que insistiam em chamá-lo para trabalhar junto com eles como uma espécie de tesoureiro. Mas ele de forma inacreditável negava o convite sem despertar a ira deles.

Ele sempre falava que queria ser exceção. Se no morro todo mundo era bandido, ele não ia ser. Se todo mundo não sabia ler, ele ia saber com excelência. Se todos usassem drogas ele seguir a vida em pró da saúde e do esporte.E seguindo esta lógica ele superava-se a cada dia o que só alimentava o seu sonho de ser médico e/ou maratonista.

No dia 2 de outubro, seu lado atleta falou mais alto que seu lado médico e ele não trabalhou, não estudou. Tirou o dia para ficar concentrado na praia de Copacabana aguardando a escolha da cidade sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Sonhava com a escolha do Rio, pois acreditava que poderia ter a chance de competir na Cidade Maravilhosa.

Acho que nenhum dia foi tão longo para ele quanto o 2 de outubro de 2009. E quanto mais próximo ficava da anunciação, mais ele sofria.

Eis que na TV, um gringo de cabelos brancos deu a esperava notícia: O Rio iria sediar as Olimpíadas de 2016.

Neste momento seu lado maratonista praticamente anulou seu lado médico. Ele gritava,chorava e sambava ao som da bateria do Salgueiro. Teve vontade de ir correndo de Copacabana até a Rocinha para já ir treinando, no entanto, chegando no Leblon seus pés descalços não aguentaram e ele pegou um ônibus.

Ao chegar à favela, iluminou o morro com seu sorriso. Sua mãe tinha medo dele se iludir, afinal sabia que dificilmente seu filho ia ter a oportunidade de ser descoberto pelo esporte, mas naquele dia, ela não falou nada e deixou seu menino sorrir.

Uma semana depois, uma operação policial a fim de começar a eliminar a criminalidade na cidade eleita como sede das Olimpíadas de 2016, invadiu a Rocinha de madrugada. O morro que estava até com uma atmosfera melhor, uma vez que fora convencido por um menino raquítico que aquele lugar ia melhorar por causa das Olimpíadas, voltava a viver o terror da realidade.

A noite escura foi iluminada não mais por um sorriso, mas por tiros de fuzis.

Na manhã seguinte, os moradores viram pela janela o resultado na noite de terror. Inúmeros corpos estavam espalhados pelos corredores estreitos da favela. A fúnebre cena e o medo de ainda não ter acabado impedia que muitos saíssem de seus barracos.

O único som que abalava o silêncio daquele lugar era o choro de uma mulher, um choro que a Rocinha não escutava há 14 anos. Era o choro de Maria Ribeiro que em total desalento abraçava o corpo de um rapaz alto, raquítico, de pele morena escura e cabelos lisos e negros. O rapaz atirado no chão era André Ribeiro – 15 anos. O quinto, único e último filho de Maria Ribeiro – 27 anos que perdeu a sua vida por conseqüência das primeiras medidas para melhorar o Rio de Janeiro – a sede dos Jogos Olímpicos que André tanto sonhava em participar.


Vento

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Gente boa

É interessante ver o como virou “modinha” as pessoas escreverem e demonstrarem sua indignação sobre a era de banalização do amor que estamos vivendo.

Quase sempre recebo um e-mail sobre o assunto, escuto conversas nas ruas sem contar dos inúmeros convites que recebo para participar de comunidades do Orkut com o título “Eu te amo não é bom dia”, que por sinal é a frase favorita dos mais engajados na luta contra essa banalização.

Inicialmente, gostaria de lembrar que é óbvio que “eu te amo” não é “bom dia”. Caso contrário, só amaríamos as pessoas pela manhã, quando na verdade sabemos que ainda costuma-se amar mais a noite.

Calma gente, eu sei que no comentário acima eu levei a frase muito ao pé da letra. Sei muito bem que ela é uma metáfora sobre fato de ultimamente as pessoas falarem que amam qualquer um, “quase” da mesma forma que, dão “bom dia” para inúmeras pessoas desconhecidas.

Gostaria de ressaltar que é “quase da mesma forma” uma vez que nunca vi nenhuma pessoa sã sair dizendo “eu te amo” para o padeiro, o leiteiro, o porteiro e o balconista da farmácia da mesma forma que educadamente dizem “bom dia” para essas figuras do cotidiano. Ou seja, acredito que você pode até duvidar se o que a pessoa sente é amor ou não, mas pode ter certeza que existe um mínimo de admiração, da arte da pessoa que sente pele pessoa merecedora de tamanho afeto.

Um exemplo disso é amor que fãs sentem por seus ídolos. Muitas vezes as fãs nunca viram seu ídolo pessoalmente, nunca conversaram, mas conhecem sua história de vida, admiram sua personalidade e por isso gritam sem nenhum pudor seu sentimento de amor para todo mundo.

Não sou defensora de nenhum movimento ao estilo “vamos amar desconhecidos”; simplesmente eu prefiro não julgar se as pessoas realmente amam ou estão falando por falar. Acho muito complicado medir a intensidade do sentimento alheio e por isso, prefiro não condenar ninguém.

Além disso, não vejo tanto problema ao ver palavras de amor sendo ditas ao léu. Levando em consideração o raciocínio do jogo do contente, antes palavras de amor do que palavras de ódio.O que importa é ver ela sendo dita em um bom sentido, para pessoas que de alguma forma merecem.

Porém, existem outras expressões de carinho, palavras que deveriam ser utilizadas apenas para pessoas que gostamos (independente da intensidade) sendo usadas como eufemismos e/ou desculpas, e isso muito me preocupa.

Um grande exemplo disso é um dos diálogos mais utilizado nas boates:


Cena 1 : Homem acha mulher bonita e tenta lhe dar um beijo.

Cena 2: Mulher foge do beijo.

(Homem) - Você não achou me achou bonito?

(Mulher) - Ah.. você é gente boa mas....



Na situação acima, a mulher nunca viu o cara e as únicas palavras que escutou dele foram “Você não achou me achou bonito?”. Sendo assim, eu me pergunto sobre quais argumentos ela pode afirmar que ele é gente boa?

É nítido que ela só falou isso, pois não teve a coragem de dizer que ele é feio ou então porque precisava de uma desculpa para não beijá-lo. Ou seja, ou utilizou como um pretexto ou como um eufemismo.

Antigamente, “gente boa” poderia ser tanto aquela pessoa que você conhece há anos, quanto aquela que você conhece há um dia, mas que tem um papo bom, bom humor e que te cativou.Dava orgulho ser tachada como “gente boa”.

Já, hoje em dia, quando me chamam de gente boa já suspeito que ou estão me chamando de feia, ou então estão fazendo um comentário do tipo: “até que ela é gente boa...”.Deu para perceber que essa mudança se sentido faz a gente começar a duvidar dos melhores dos elogios ?

Longe de mim, querer fazer um manifesto sobre a banalização do “gente boa”,até porquê em momento algum acho que o problema que ocorre com ele seja esse.

Ele de fato esta sendo utilizado de forma trivial, mas como falei acima não vejo problema nenhum nisso. É uma qualidade boa sendo disseminada. Quem dera todas as pessoas do mundo fossem “gente boa”.

O grade problema, na minha opinião, é ver uma característica tão bonita sendo utilizada de forma tão negativa.
Vento

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Resquícios de uma criança curiosa

Iniciando a série “Memórias da aurora da minha vida” vou dividir com vocês um dos mistérios que me atormenta há aproximadamente 15 anos.

Cresci em Niterói, gozei a minha infância nos anos 90 e me recordo que um dos diálogos mais ditos pelas crianças do meu prédio é este que segue abaixo:

“- Foda-se.

-Corroda-se.

-Senta no meu pau e se acomoda-se.”

Particularmente, eu não era muita adepta destas falas. Primeiramente porque sempre fui uma lady (leia-se criança chata e fresca) e não costumava utilizar de palavras de tão pouco nível no meu vocabulário.

O fato acima justifica o porquê eu dificilmente falava um “Foda-se” e consequentemente um “Senta no meu pau e se acomoda-se” uma vez que, pela lógica da brincadeira aquele quem começa dando fora e quem termina o diálogo.

Além disso, o trecho “e se acomoda-se” doía aos meus ouvidos e eu me recusava a repetir algo assim.

E por fim, eu não falava essas frases pelo simples motivo de que eu não tinha (e continuo sem ter) um pau o que impossibilitava que eu convidasse os meus amiguinhos a sentarem em cima dele.

Ok, tudo bem, este meu último argumento não é muito válido. Se eu realmente quisesse levar esta frase no sentido literal eu poderia utilizar o Denis – o vibrador de estimação de mamãe.

Mas enfim, o meu objetivo não é contar pra vocês todos os palavrões que aprendi a falar enquanto criança e muito menos contar as aventuras sexuais da senhora minha mãe com o Denis (o melhor padastro do mundo se é que vocês me entendem.)

O foco deste desabafo é compartilhar a maior curiosidade que tenho. Trata-se de uma dúvida totalmente sem fundamento, super banal, mas que nem o Google soube me responder.

Acreditem, eu já pesquisei várias vezes no Google, inclusive antes de começar a escrever este texto e nenhuma resposta foi encontrada.

Então meu caro amigo, caso você saiba que maldição significa “Corroda-se”, por favor, manifeste-se e deixe-me apreciar a sua sabedoria.

Por muito tempo tive vergonha de ter esta dúvida. Na minha infância eu jamais perguntaria o significado desta palavra, pois eu sabia que todos iriam rir de mim e da minha inocência. (Da mesma forma que riram, a não muito tempo, quando eu contei que achava que 4 por 4 da música do Mr. Catra era um carro com tração nas quatro rodas).

Mas um dia, resolvi me libertar desta vergonha e perguntei pra minha irmã mais velha que confessou que também não sabia. Fiquei pasma!

Esse dia foi o marco para minha libertação, pois foi quando eu percebi que eu não era a única que não sabia o que era “Corroda-se” e me senti na obrigação de pesquisar e divulgar a resposta tão logo eu a descobrisse.

Porém, como já dito acima, pesquisei... pesquisei...e de nada adiantou. Falhei nesta tarefa e recorro à ajuda de vocês universitários (ou não) para dar um fim a esta dúvida.

Tá, tudo bem, neste momento você deve estar com vontade de falar um “foda-se” pra minha dúvida. No entanto, te aconselho e não fazer isto, pois é essa palavrinha mágica que você pensou em dizer que desperta toda a curiosidade do meu ser.

Como já dito anteriormente, tenho total noção de que essa dúvida não propósito e do quão idiota posso parecer procurando significado para algo tão inútil. Mas nada posso fazer já que ainda há resquícios de uma criança curiosa dentro de mim e é minha obrigação saciar a dúvida que ainda não a deixa em paz.


Vento

sábado, 12 de setembro de 2009

Desigualdade capilar

Sei muito bem todos os problemas que o mundo possui: fome, violência,desigualdade...E juro para você que tenho muita força de vontade para tentar melhorá-lo.

Mas a realidade é que eu sozinha não vou conseguir. Se eu não consigo resolver um problema de menor impacto no mundo como o meu cabelo, por exemplo, como vou resolver a exclusão social?

Então já que os problemas do mundo são muito complexos vou falar do meu cabelo ( não que ele não seja complexo, mas como falei acima o impacto na população mundial não é tãoooo grande assim.)

Minha guerra com ele começou em 1998 quando eu tinha apenas 10 anos (antes disso ele era lindo). Nesse ano os malditos hormônios começaram a agir sobre mim e meus cabelos que eram lindos, lisos e sem volumes resolveram adotar um Medusa way of life.

Desde aquele ano eu nunca mais consegui dominá-lo novamente.Eu brigava com ele e ele vinha me dizer que na base no grito eu não ia conseguir nada, que ele agia assim porque eu o tratava mal e etc... Enfim, veio com todo aquele papinho de mulher carente. O que meu cabelo se esquece e que eu sou uma mulher carente e ensinei todo esse papinho pra ele..Até parece que eu ia amolecer com isso...

Porém, tudo piorou quando entrei na universidade e conheci uma menina com o cabelo mais lindo do mundo. De verdade, o cabelo dela é tão perfeito, tão perfeito que provavelmente até Iracema – a musa capilar da literatura brasileira – morreria de inveja.

Sempre que a vejo, meu cabelo se esconde, faz um coque e só falta muda de cor – de castanhos para vermelho tom de raiva.

Vocês nem imaginam o como é difícil conviver com aqueles cabelos.. Discussões quase diárias, afinal minha pequena Medusa quer saber o porquê daquela menina morena conseguir cuidar tão bem seus longos fios castanhos e eu deixá-los do jeito que se apresentam.

De início eu tentei convencer meu cabelo de que aquilo era peruca, aplique, ou qualquer outra coisa. Mas após seis meses de faculdade não consegui sustentar a desculpa.

Mas aquela menina também, nem para me ajudar. Tenho certeza que ela sabe os problemas que ela causa em minha vida. Se finge de simpática mas só vem falar comigo para esfregar as madeixas pelo ar que me rodeia e me deixar na vontade de ter cabelos bem cuidados. Sacanagem.

Como uma pessoa de aparência tão bonita pode ser tão cruel e ninguém perceber ?
Mas é assim que os problemas mundiais começam, se ninguém detê-la enquanto ela pratica esta desigualdade capilar na faculdade imagina o que ela não será capaz de fazer quando se formar?


Vento