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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Já virou rotina

Primeiro eu pensei que era uma rotina apenas do Rio de Janeiro, mas depois, lendo o jornal de hoje, percebi que não se restringia a minha cidade. Já virou rotina no Brasil e no mundo. Eu prefiro falar de música, cinema, cultura... Mas do jeito que a coisa anda eu não podia deixar de me manifestar.

A violência no país está atingindo níveis absurdos e as drogas só fazem aumentar esses números. Encontramos cada vez mais drogados nas ruas, na televisão, na internet, nas rádios. Filho mata pai, irmão mata irmã, namorado mata a garota dos sonhos, tráfico invade favela, toneladas de maconha e cocaína são apreendidas... Essas são as notícias que o brasileiro - e outras pessoas ao redor do mundo - encontram todos os dias nos jornais.

Li uma matéria no Globo sobre uma operação da polícia de Curitiba - que para mim, até então, era um lugar tranquilo - onde foram apreendidas toneladas de drogas: maconha, cocaína, crack. Não sei o que sentir numa ocasião dessas: fico feliz porque a polícia brasileira foi eficiente e conseguiu fazer o seu trabalho de repressão ou fico triste porque meu país virou rota do tráfico internacional de drogas? Ainda não sei.

Tem até prefeito de cidade mineira se drogando! O candidato passou por um longo período de campanha, conquistou a confiança dos eleitores, derrotou adversários e, finalmente, conseguiu ser eleito para governar a cidade durante quatro anos porque tinha uma conduta que agradava aos eleitores. De repente, sem completar nem um ano de mandato, descobre-se que ele ia até as favelas locais para comprar drogas (crack especificamente). Ai você para e pensa: nenhum político presta. E lembra de todos os casos de José Sarney, Roberto Jefferson, Álvaro Lins... É, já virou rotina, a política brasileira também nos envergonha. E nós, eleitores, ainda somos obrigados a votar!

Mônica Sampaio

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Gente boa

“Fulano é bacaninha! Muito gente boa! Muito legal!” Essa é a frase que ela diz sempre que me apresenta alguém que eu não conheço. Ela também é muito gente boa, gente fina. Sempre sorrindo e cantarolando. Sempre conversando e brincando porque “a vida é muito dura e a gente tem que rir e brincar pra aliviar o estresse e esquecer os problemas”.

Como mora longe do trabalho, acorda cedo para chegar cedo, arrumar as coisas e deixar tudo em ordem. “Eu odeio bagunça! Vai que alguém importante chega aqui!? Vai pensar o quê!? Que eu sou uma porca.” E, mesmo sendo uma das primeiras a chegar, sempre sai tarde para não pode deixar de atender ninguém.

O pessoal de lá “se amarra” nela. Não só pelo trabalho que ela faz lá, mas também por sua sinceridade, por seu jeito carinhoso e sua atenção. Conhece todos pelo nome (até os novatos) e sabe o que cada um gosta ou desgosta. Chega silenciosa e discreta. Muitas vezes só percebemos sua passagem quando vemos o pedido em cima da mesa. Às vezes chegamos e o pedido costumeiro já está lá, esperando pela nossa chegada.

“Tá muito difícil conseguir emprego hoje e eu que não vou dar mole”. Por isso, enquanto trabalha ela se mantém séria. Mas lá na salinha onde fica ela pode relaxar: brinca com um, conversa com outra, marca uma saída com a terceira. É lá que ela recebe os colegas para bater um papo, conversar. Lá ela se sente à vontade para falar o que quiser (“mas nunca da vida dos outros”) e para vender Avon, Natura, Hermes, DeMillus... (“pra ter um dinheirinho por fora”)

É daquelas pessoas que saem falando e quando você percebe já sabe tudo sobre a vida dela. Em um mês trabalhando lá, descobri que ela teve um filho quando tinha 19 anos, depois disso casou de novo e teve mais um casal de filhos; já foi traída pelo marido atual, mas continua com ele afinal “ele é pai dos meus filhos”; já teve um amante... e gosta da sogra mais do que do marido. Adora um pagodinho, mas não bebe porque, pelos cálculos dela “com o dinheiro que ia gastar comprando cerveja, eu pago a prestação de alguma coisa pros meus filhos”.

Mas afinal de contas quem é ela? A copeira do meu trabalho, verdadeira “gente boa”.
Mônica Sampaio

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Alguns segredos femininos

Por onde eu ando vejo uma bolsa maravilhosa e caréssima, um sapato perfeito que custa meu salário inteiro, um vestido deslumbrante que causaria inveja até na minha melhor amiga... E isso me deixa desesperada, ainda mais quando eu não tenho dinheiro pra comprar – o que acontece com mais frequência do que eu gostaria porque meu salário nunca dura o mês inteiro. Ai que raiva que isso me dá!

Eu faço sempre o mesmo caminho então passo sempre pelas mesmas lojas. Em uma loja de acessórios tem sempre várias coisas que chamam a minha atenção. Essa semana foi uma bolsa preta grande e linda. Ela fica lá na vitrine se exibindo e me chamando. Eu sempre paro na loja para dar uma paquerada nela, pra ela se sentir mais amada e prometo a ela, todos os dias, no horário de visita, que ela terá um lar quentinho e aconchegante. Às vezes eu me perco olhando a vitrine, mergulhada na minha imaginação, pensando em como ficaria linda e deslumbrante com ela.

Nessa de ficar olhando todas as vitrines de todos os lugares eu me apaixonei por um vestido lindo, mas ele estava total e completamente fora das minhas condições financeiras. Eu sempre passava na loja para olhar pra ele, ver como ele estava, se estava recebendo o devido destaque... Fiquei até amiga da vendedora! Minha obsessão era tanta que uma noite eu sonhei com ele. Sonhei que estava usando o vestido em uma festa, deixando todas as mulheres com invejinha, quando de repente apareceu uma menina com um vestido igual ao meu, até na cor! Isso, numa situação normal, seria o fim da festa. Mas não pra mim, não no meu sonho. Eu pulei em cima da garota, que nem naqueles filmes onde o Presidente dos EUA precisa ser protegido do terrorista, e comecei a brigar com ela. Bati e apanhei, mas pelo menos o meu cabelo e meu vestido continuaram intactos. No final eu venci a briga – afinal era o MEU sonho – e consegui expulsar a garota da festa.

Quando paro para pensar nas minhas “descobertas maravilhosas” eu sempre me pergunto por que as coisas que eu gosto tem que ser tão caras?! Será o dono da loja não tem pena de mim?! Será que ele não pensa que apesar de não ter dinheiro eu também quero andar elegantérrima e de preferência com meu nome bem longe do SPC!? Será que ele não consegue ver que estou ficando profundamente deprimida porque não consigo comprar nessa loja?! Eu estou a um passo de começar a tomar remédio de tarja preta e o dono da loja nem liga pra mim. INSENSSÍVEL!

A essa altura os homens devem estar se perguntando: “Mas as lojas sempre fazem liquidação para acabar com os estoques. Porque ela não espera até lá!?” Por uma simples razão e óbvia meus caros: ninguém vai sentir invejinha da roupa da estação passada.


Mônica Sampaio

sábado, 12 de setembro de 2009

O futebolístico

Dizem pelo Iacs que ele é uma enciclopédia do futebol. Eu não acho. Acho que ele é, na verdade, um tarado. O cara sabe tudo de futebol, lembra até de coisas que aconteceram antes de ele sonhar em nascer. Não é preciso muito esforço para perceber essa tendência porque ele tem sempre alguma coisa que lembre a paixão nacional. Uma camisa, uma conversa, um palpite, um post, uma pauta, uma twittada... Aliás, esse amor foi um dos motivos que fez com que ele escolhesse cursar a faculdade de Jornalismo e nos desse a honra de sua presença nesta sala.

Matar aula pra assistir futebol é normal, até eu já fiz isso. Mas ele assiste ao jogo entre o Íbis e o Tabajara com a mesma emoção de um Brasil e Argentina – clássico dos clássicos. Ele é uma das poucas pessoas que compra revista de futebol e sabe a escalação de times que ninguém conhece. Ele conhece times da Rússia, Angola, Samoa, Arábia, Camboja, até da Papua Nova-Guiné! Uma verdadeira enciclopédia.

O que eu acho mais engraçado nos fanáticos por futebol como o meu amigo, é que eles assistem à mesma partida várias vezes e continuam comentando como se fosse a primeira. Assistem ao jogo ao vivo, depois tem que ouvir os comentaristas de futebol, o jogo na integra de novo (porque tem canal na TV que passa a reprise do jogo), depois ainda tem que ver o compacto. Afinal de contas jogo é jogo e eles têm que comentar a partida com os amigos. E o cara segue rigorosamente esse ritual.

Mas, como nem tudo é perfeito e ninguém manda no coração, o meu amigo não soube escolher muito bem o próprio time. Acredite você que o time dele já foi rebaixado e nem assim o meu amigo desistiu. Ele continuou indo aos jogos para tentar incentivar o time, afinal os jogadores podem ser comprados ou vendidos, ir embora e não ligar mais para o time, para a equipe. Mas torcedor não, torcedor de verdade tem que apoiar o time em todos os momentos “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença até que a morte os separe”. No top da tabela ou no rebaixamento o torcedor vai ao estádio torcer, gritar, incentivar, se esgoelar, chorar...

Mas não fique achando que esse é o único assunto do cara, que ele é um chato, que não sabe falar de outras coisas porque isso não é verdade. Ele sabe sim, mas não acha tão interessante quanto uma boa (ou não tão boa) partida de futebol. E isso é que o torna mais interessante.


Mônica Sampaio

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O ciclo

Segunda-feira. Ela acorda cedo para trabalhar. Trabalha longe, não quer pegar o trânsito caótico do Rio de Janeiro. Levanta, toma banho, toma café, segue a rotina. OPA! Tem que lavar a roupa da semana. Mas como, se ela vai ficar o dia inteiro na rua? Não, ela não vai passear – quem dera – mas trabalhar para sustentar a casa. Coloca a roupa na máquina de lavar e sai correndo, antes que comece aquele engarrafamento sem fim. Passa o dia trabalhando. Quando chega em casa é só deixar a máquina fazer o seu trabalho enquanto ela faz a comida e tenta – mas não consegue – relaxar. A máquina terminou. Hora de estender a roupa no varal. O jantar é o momento para conversar com a família ou com quem estiver em casa nessa hora. Deita no sofá para esperar os filhos chegarem, mas não agüenta e acaba cochilando. O cansaço não permite que ela faça muita coisa depois que eles chegam: ela só consegue tomar banho e desmaiar na cama. É melhor dormir porque amanhã é…

Terça-feira. Mais um dia de trabalho. Mais um dia para acordar cedo. Mais um dia para lavar roupa. Mais um dia de rotina. A terça passa igualzinha a segunda-feira.

Quarta-feira. Último dia de trabalho. Ela trabalha três dias na semana, mas o ritmo de um hospital é diferente. O paciente não tem hora para passar mal. E se ele resolve ter um ataque na hora da saída, ela tem que voltar, atender e esperar até que ele se recupere. Não tem hora para sair. Só para chegar. Para a sorte dela o marido resolveu chegar mais cedo em casa – ocasião rara – e preparar o jantar da família. Não é nada muito elaborado, mas aquela comidinha de sempre, sem inventar muito, afinal preparar o jantar é obrigação da mulher. Ele só fez isso porque ficou com pena dela, por ter trabalhado o dia todo. Ela aproveita esse tempo “livre” para assistir televisão.Mas que novela é essa mesmo? Faz tanto tempo que ela não vê que nem sabe mais sobre a história de amor e as tramas da novela. Ela constata que o dia foi longo e cansativo. Finalmente é hora de dormir.

Quinta-feira. Hoje ela pode acordar mais tarde. Mas não pode dormir mais que a cama. A roupa tem que ser passada. A roupa da semana inteira. E lá se foi o dia. Ela queria estudar ainda hoje, mas não dá tempo porque tem que preparar o jantar. Depois do jantar ela consegue relaxar. Os filhos ainda não chegaram e ela vai esperar por eles. Enquanto isso deita no sofá e acaba cochilando. Ela está tão cansada. Mais cansada do que nos dias que vai trabalhar no hospital. Ser dona de casa cansa mais que trabalhar fora!

Sexta-feira. Hoje é o dia de não ter trabalho. Ela tenta estudar um pouco, mas tem sempre alguma coisa para fazer. Além disso, o telefone não para de tocar e ela não consegue se concentrar. Ainda tem a diarista que vai limpar a casa – esse é um dos poucos luxos permitidos, alguém para limpar sua casa. Ela tem que dar instruções e ver se o serviço está sendo bem feito. Afinal de que adianta contratar alguém para fazer um serviço que não vai agradá-la? Hora de ir para o salão fazer as unhas, afinal de contas amanhã é…

Sábado. Dia de sair com a família (ou, pelo menos com o marido) para relaxar, espairecer, ver gente nova, conhecer um restaurante novo, tomar um chope no restaurante do bairro… Qualquer coisa, contanto que ela consiga sair de casa para se divertir. Mas os filhos não estão em casa – “Jovens nunca param em casa”. O marido não quer sair – “Pra quê? Fica em casa mesmo que é mais barato.” Não tem jeito. Apesar de contrariada, eles acabam ficando em casa.

Domingo. Último dia do fim de semana. Dia de almoço em família. Mas para ela não dá. Ela tentou estudar a semana inteira – sem sucesso algum – porque no domingo (justamente no domingo!) ela faz curso. O curso é longe de casa (porque é mais barato) e ela tem que acordar cedo. Fica o dia todo estudando. Quando chega em casa está exausta. Só tem forças para comer alguma coisa rápida e leve e tomar banho. Dorme cedo, afinal amanhã é…

Segunda-feira. Ela acorda cedo para trabalhar.

E começar tudo de novo.


Mônica Sampaio