domingo, 20 de setembro de 2009

Dor de amor

Eu gosto de causos. Conto causos à noite, assim, perto da fogueira, ou de manhã, quando acordo, com o cacarejo singelo da minha esposa. É, da minha esposa. A gente até cria umas galinhas aqui em casa - Marcelina, Eva e Gigi - mas o cacarejo que me acorda, pontualmente, todo dia, às cinco e meia, é o da minha esposa.

Maria Angélica sempre foi doce assim. A gente se conheceu num baile da venda do seu Martins faz uns trinta e dois anos, e desde aquela época o seu jeito meigo, doce e singelo me agradava. Muito singelo. Não gosto muito de contar essa história porque tem gente que até acha que é causo meu, história inventada dessas que eu conto. Mas não é não.

Tinha o baile da fazenda do seu Martins, festa boa que todo ano ele fazia pros cantos de São João da Brasa, perto de Reis do Sul. Era coisa de matar um boi por pessoa, pra sair todo mundo satisfeito. A família toda da Maria Angélica foi pro baile esse dia. Eu fui também, com Rita de Cássia, minha irmã.

Cheguei lá e de longe já bati o olho na Maria Angélica. A saia rodada bonita, cinto, bolsa, colar, pulseira, boné, cachecol, outro cinto, casaco e meia eram a combinação perfeita pra minha madame de filme de bacana. Até hoje, Rita de Cássia me fala que eu não tinha nada que ter ido tirar a Maria Angélica lá de cima do telhado do curral, não tinha mesmo, de forma nenhuma. Mas como eu ia saber se essa não seria a prova de amor que ela precisava pra se apaixonar por mim? Fui e tirei.

A nossa história de amor é bonita assim mesmo, e começou nesse dia com meu olho roxo, carinho da mão leve de Gegé. Ou Gélinha, minha anja do céu. Chamo minha flor de nome carinhoso, sou homem carinhoso. Mas sou homem. De verdade. Ainda tem cabra por aí que acha que homem que é homem tem que ser ruim, bater em mulher e gritar. Sou homem e sou bom, não grito, e às vezes até apanho. Prova da minha macheza, da minha bondade. Prefiro apanhar, ah prefiro! Não tenho coragem - e meu São Joaquim é prova - de que eu nunca bati, nem com uma flor que fosse, na minha Angélica. E é sorte dela eu ser bom assim, porque a minha força é forte, das mais fortes, e ai de quem sente o peso do meu braço.

Gélinha nunca há de sentir, nunca! Porque nosso amor é de verdade. Coisa bonita é ver a gente acordar, como eu falava pro leitor no começo dessa história. É coisa de emoção. Eu sinto até um negócio no peito assim, forte, uma pontada. Comentei outro dia com Dr. Teles e ele me passou um chá calmativo pra eu tomar. Falou que é coisa de gente que emociona, é mal de coração mole. Tomo o chá quando me lembro, mas quando esqueço ainda sinto aquela dor.

As galinhas ficam com ciúme aqui em casa. As três. Já falei com elas que não dá. Gélinha canta porque gosta, e o que eu posso fazer se ela cacareja mais bonito que as três galinhas juntas? Falei com a Marcelina, com Eva e com Gigi que o ovo delas pelo menos é bom - cheio de sustância - e compensa o canto, que é bem mais fraco que o de Maria Angélica. Incomparativo, já falei. O troféu do ano passado eu dei pra Gigi, de compensação, só pra ela não sentir mal e não querer mais colocar ovo. Mas segredei pra Gégé que era ela que cantava melhor, que aquilo era tudo encenação. Precisava deixar as coisas claras.

Mas o nosso acordar é bonito e é romântico. Quem é que não vai gostar de acordar todo dia com a voz da mulher amada? Me sinto muito bem de ter dor de cabeça e de ouvido o dia inteiro, sinto que nem dói, é dor de amor.


Maria Sofia

Banheiro feminino

Todo homem já se perguntou pelo menos uma vez na vida: por que as mulheres sempre vão ao banheiro acompanhadas? Sempre no mínimo em dupla. Todo representante do sexo masculino mesmo depois de anos e anos de evolução, se intriga em ver duas, três ou muitas irem ao toalete - como preferimos chamar - juntas, como um time de futebol entrando de mãos dadas no gramado do Maracanã. Tentarei em algumas linhas explicar para você, caro leitor, um fenômeno cada vez mais comum na vida da mulher moderna.

Se a pessoa que chamamos é nossa amiga, com certeza vamos ao banheiro para falar de vocês homens. Primeiro falamos mal, procuramos algum defeito. Depois podemos até falar bem, mas sem elogiar muito. Talvez você venha a saber mais tarde o que fofocamos, pois cada dia que passa estamos mais diretas. Mas sempre cabe deixar o sexo oposto curioso. E não venha dizer que curiosidade é coisa de mulher, porque está mais que provado que homens são sim curiosos.

Agora, se não conhecemos a nossa companheira de banheiro, de duas uma. Ou queremos conhecê-la melhor ou ela representa algum perigo para nós. Seria loucura deixá-la sozinha conversando com vários homens, principalmente se ela for o que vocês costumam chamar de “gostosa”. Para nós não passa de um corpo que é resultado de horas de malhação. Na verdade, na maioria das vezes a achamos “normalzinha”, mas sabemos reconhecer um exemplar que é considerado pelos homens uma “gostosa”. Farejamos o perigo de longe, é uma espécie de instinto de sobrevivência. Ah, vale lembrar que se a mocreia for ainda boa de papo, a situação se agrava muito.

No caso de irmos ao banheiro em grupos, nosso objetivo geralmente vai além de falar de homens ou se livrar do perigo. Estamos bolando uma estratégia de como agiremos depois de sair de lá. Quem vai conversar com quem ou até como fugir daquele garoto chato. Depois de cerca de dez minutos - é claro que não levamos esse tempo todo fazendo xixi - saímos de lá lindas e cheirosas prontas para darmos prosseguimento ao nosso plano. Um grupo de mulheres quando sai do banheiro pode ser facilmente confundido a um batalhão pronto para a guerra. E você, representante do sexo oposto, se sentirá como um adversário que não tem a menor ideia da estratégia de seu oponente. Mas não fique preocupado, é isso mesmo que queremos.

Sim, falamos algumas coisas que os homens não podem ouvir. Mas por que mesmo quando estamos em uma mesa só de mulheres não vamos sozinhas? Essa pergunta é ainda mais fácil de responder, porque vamos falar mal umas das outras. Dizer que não foi com a cara da fulana ou que a roupa da cicrana é horrorosa! Acredito que esta parte da questão até - eu digo até - os homens já sabiam.

Não, não temos medo de ir ao lavatório - já usei banheiro e toalete muitas vezes e estava ficando chato - sozinhas. Até porque, banheiro feminino tem sempre uma fila imensa, então, o medo da solidão não é o problema. E por que se formam as filas? Porque são diversas duplas, trios, quartetos, enfim, grupos de mulheres para fazer ao mesmo tempo tudo isso que eu já expliquei.

Não, também não vamos pedir o batom emprestado da amiga. Competitivas como somos, seria inadmissível voltarmos a mesa usando o mesmo batom da nossa companheira. Pode ser que os homens não reparem, como de fato não reparam, mas com toda certeza alguma mulher vai notar e na próxima jornada ao banheiro com a amiga, fofocar com ela. Nos vestimos para as outras mulheres, afinal, pros homens qualquer coisa serve. Temos mais medo dos comentários femininos a nosso respeito do que dos masculinos, isso é um fato.

É claro que também atendemos as nossas necessidades fisiológicas, mas isso é apenas um detalhe da ida ao toalete. Uma grande contribuição para o mundo feminino seria a invenção de cabines no mínimo duplas. Não perderíamos tempo e a conversa poderia começar ali mesmo. Mas, por outro lado, isso poderia nos causar um grande transtorno. E se alguma menina do grupo adversário estivesse retocando a maquiagem e ouvindo nossa conversa sem que a gente pudesse ver? Nossos planos iriam por água a baixo e acabaríamos perdendo a guerra.

Algumas perguntas não podem ser respondidas. E com isso tudo que eu disse, outras poderiam ser formuladas. Mas não adianta, quando falamos de mulher os homens ficarão sempre sem entender. Ah, e tem outro detalhe. Eu não disse nem de longe o que se passa no banheiro feminino e vocês nunca saberão. Simplesmente porque os homens não podem entrar!


Mel

Valeu, piloto!

Numa manhã, como outra qualquer, peguei minha pasta que guardava meu estojo e um velho caderno de capa dura, meus óculos de sol, um guarda-chuva dobrável e minha carteira. Marchei em direção ao ponto de ônibus. Não era o mais próximo da minha casa, mas lá passavam os ônibus principais. Hoje teria que ir ao centro, levar e pegar uns documentos. Coisa chata, sabe?

Cheguei à parada do ônibus e como sempre ela estava bem cheia. Pessoas de todas as idades, com os mais diferentes tipos de roupas. Alguns nitidamente iriam trabalhar, outros iam para a escola e os outros poderiam estar somente indo passear. Mas quem passearia às sete horas da manhã de segunda-feira?

Minha atenção foi fisgada por duas colegiais que vestiam saias minúsculas e meias até o joelho. Quem será que foi o depravado que desenhou esse uniformes para alguns dos colégios públicos do Rio de Janeiro? Dava para perceber que as jovens haviam, ainda por cima, dobrado a cintura da saia uma ou duas vezes para que ela ficasse ainda mais curta. Acho engraçado como elas gostam dos olhares dos homens e velhos babões para suas pernas.

O ônibus chegou e eu fui o primeiro a entrar. Como sempre. Todos estavam muito educados essa manhã, eu reparei. Cederam a passagem e não foi difícil encontrar um lugar vago a minha espera. Me sentei ao lado de uma moça muito bonita e bem arrumada. Seu perfume era forte. Ela carregava uma bolsa muito grande e um rádio na mão.

Prum...

- Oi querida.

- Fala gatíssima!

Prum...

- Só pra avisar que estou atrasadíssima hoje. Queria chegar no escritório mais cedo, mas é que ontem o Roberto me levou para jantar num restaurante ma-ra-vi-lhoso em Ipanema e chegamos muito tarde na minha casa.

- Você já levou ele pra sua casa na primeira noite?!

Prum...

- Eu sei... Eu sei... Mas ele não dormiu lá não... Menina, depois eu te conto. Avisa pro Eduardo que eu vou chegar atrasada, dá uma desculpa qualquer?

- Claro amiga!

Prum...

- Ah, obrigada Célia! Um beijão!

- Beijos! Até daqui a pouco!

Acho engraçado como as pessoas não têm mais vergonha de expor em público suas vidas pessoais. Agora todo mundo no ônibus sabia que, possivelmente, a mulher excessivamente perfumada ao meu lado, levava os homens que saía pela primeira vez para a casa. As mais variadas conclusões poderiam ser tiradas disso. Mas isso não era da minha conta. Peguei meu caderno e comecei a fazer minha primeira anotação.

Meu hobby era escrever sobre situações bizarras do cotidiano. Não só bizarras, mas que a meu ver passavam despercebidas na pressa do dia. Por exemplo, as meninas de mini-saias e a Chanel nº5.

Outra situação que me chamou atenção e mereceu destaque em meu caderninho foi a de uma jovem de mais ou menos 25 anos. Ela estava à minha direita, sentada ao lado de uma janela. Ela tinha os cabelos longos e cheios e um problema. A janela mais próxima dela estava escancarada e seus cabelos se desgrenhavam a medida que lufadas de vento entravam. O ônibus desgovernado imprimia tal velocidade que o vento era insuportavelmente forte. Ela tentava fechar a janela e não conseguia. O veículo era velho e suas janelas enferrujadas. Ela não conseguia. Me levantei para tentar ajudá-la e ela ficou muito constrangida.

- Por favor, senhor. Não precisa se incomodar. A janela está emperrada, acho que o jeito é mudar de lugar.

- Mas o ônibus está cheio, senhorita. Fique com meu lugar e eu fico com o seu. Já não tenho mais cabelos para atrapalhar.

- Não, de forma alguma, senhor. Este vento está muito forte.

Um rapaz forte chegou e pronto. Com dois dedos, fechou a janela e colocou um fim ao diálogo.

- Obrigada. Aos dois.

E ela voltou para seu lugar. Para seu aparelho de música. Como se eu nem estivesse lá.

Sentei-me e escrevi. Em determinado momento, me senti envergonhado por não ter conseguido ajudar a moça e me senti um inútil. Fiz sinal para o motorista e fui andando calmamente até o fim do ônibus, me segurando bem nas barras para não cair em uma dessas freadas bruscas. O mesmo jovem forte que ajudou a moça dos cabelos cheios, correu e me ultrapassou. Parou nas escadas, bem próximo a porta de saída e deu um assobio tão alto que meu aparelho auditivo ressonou.

- Campeão! Deixa eu descer aí!

A porta se abriu, no primeiro sinal vermelho em que o ônibus parou.

- Valeu, piloto! Vai com Deus!

Refleti por um segundo. Por que era tão comum as pessoas chamarem um motorista de ônibus de piloto? Como eles chegaram a essa associação? Será por que o ônibus ia tão rápido e tão desembestado que parecia voar?

- Vai descer aí também senhor? – Gritou o cobrador do ônibus, me fazendo retornar ao mundo real.

- Prefiro no ponto, se não se importar.

Desci do ônibus ainda constrangido. Reparei que a jovem me olhava da janela aberta. Ela acenou. Coisa rara. Na maioria das vezes as pessoas somente ignoram a presença dos outros. Engraçado era que seus olhos não pareciam olhar diretamente para mim. Olhei para trás e vi outra menina, igualmente vestida como a jovem do ônibus de roupas caras, e entendi. Não era para mim aquele aceno.

Não ia deixar isto me deprimir. Estava quase no centro e desisti de manter a farsa dos documentos. Iria para outro lugar agora. Iria para a praia do Leblon. Fiz sinal para o 172, já do outro lado da rua. Eu entrei, saquei minha carteira e meu Rio Card Sênior e fui rumo a mais um passeio.

- Valeu, piloto.


Wilma Dantec

Circunferência Abdominal

Não. Eu não vou ao médico. Podem falar o que quiserem. Eu não vou.

Só por causa de uns poucos centímetros a mais no que chamam por aí de circunferência abdominal, eu não vou não. Estou pouco ligando para essa merda. Médico é coisa de otário. Você paga a consulta, paga os remédios e ainda passa por boiolinha. Eu sou homem e não sou frouxo. Não vou ficar me preocupando com esse negócio aí. Como é mesmo o nome? É...Estética, né? Essa tal estética de mulherzinha! Tomar no cu com essa palhaçada. Eu sei me cuidar. Não preciso de um babaca metido a estudado para me dizer o que fazer. Vou tomar um suco. É. Um suquinho natural agora vai fazer bem para o meu corpo. Preciso absorver esses amídios, perídios, essa porra toda que tem nesses iorgutes infantis aí. Isso deve ser bom. Eu só não gosto muito de ir na lanchonete do Pereira. Aquele panaca. Dizem por aí que a birosca dele devia se chamar “mosca feliz”.Panaca e sujismundo. O problema é que essa merda de botequim é a única aqui por perto. Puta que pariu. Aturar esse panaca me chamando de Jojô sem pinto de novo. Só porque eu tirei o pinto da minha mãe! É, a safada traiu meu pai e homem nenhum é corno na minha família! Aí não teve jeito. Fui no cartório e tirei o sobrenome dela do meu nome. Pinto. Que nome de merda! O problema agora é aturar esse imbecil me chamando de Jojô sem pinto. Um dia ainda quebro a cara dele! Mas não vai ter jeito! Vou ter que ir neste muquifo mesmo ou essa porra de circunferência abdominal não vai parar de me infernizar.

-E aí, Pereira? Que suco você tem aí?

-Fala, Jojô! Só no suquinho hoje, é? Eu indicaria um suquinho de açaí, que é bem estimulante. Mas como você é o nosso querido Jojô sem pinto, acho que para você não tem efeito!-E soltou uma gargalhada. Panaca. Filho da mãe. Eu não deveria ter vindo nessa merda. Esse gordo asqueroso com peitinho de mulher! Quem ele acha que é para tirar sarro com minha cara? Vou pular o balcão e sentar a mão nele!

-Não gosto de açaí,não, Pereira. Não tem outro?

-Tem tangerina,abacaxi,mamão e siriquela.

Siriquela?!?! O que será isso? Será que essa baleia está me zoando de novo? Não,não,deve ser. Duas vezes é sacanagem. Porque se ele estiver de novo fazendo piadinha com a minha cara, vai sentir a dor que o Babel sentiu (quando seu irmão o matou ). Eu sou igual ao Caim: Pavio curto. Mas não deve ser isso não. Siriquela... Deve ser algum suco de frutos do mar, né? Essas porras com siri,sei lá. Hoje em dia tem suco de tudo! De laranja com beterraba,couve com limão,clorofila...Eu sinceramente acho que esse suco de clorofila é feito com água da piscina,por isso não bebo essa merda. Mas siriquela? Isso eu nunca ouvi não. Esses boiolas não tem mais o que fazer e ficam inventando esses sucos de porcarias. Daqui a pouco vai ter até de morango com repolho!Que viadagem! Não vou tomar esse troço não. Nem vou perguntar o que é,se não vou parecer muito interessado no assunto. Eu sou esperto. Finjo que sei o que é e peço logo um de mamão. É até bom para ajudar a soltar a batata-doce que eu comi ontem de noite. Problema de intestino é foda.

-Dá um de mamão aí!

Caralho! Ainda tenho que passa na casa da Dorinha!Não vai dar tempo!Tenho que tomar esse negócio logo! E isso que dá querer mudar a alimentação para essa palhaçada natureba. Bem , pelo menos está gelado. Mas tenho que ir rápido. E é até bom eu ir logo que assim não dou oportunidade para o Pereira soltar mais uma piadinha infame. Esse babaca! Um abraço na família!

Amanhã eu paro com essa babaquice. Suquinho! Isso ainda vai acabar com a minha reputação. Tomara que esse idiota não espalhe por aí que eu ando tomando essas coisas. Eu queria mesmo é ter comido um misto com bastante presunto. Presunto,não mortadela! Esses palhaços colocam mortadela no lugar do presunto e acham que a gente não vai notar.É um bando de filhas da puta!Mas amanhã não tem jeito. Vou comer um misto e vou exigir que o peitudo do Pereira coloque presunto. E vou conferir!Se tiver mortadela,quebro a cara dele. Puta que pariu. Que dor de barriga é essa? Não devia ter bebido essa merda! Eu devia mesmo é ter comido o misto. Presunto não me dá dor de barriga. Cara! Não to aquentando! E o pior é que a Dorinha ainda vai me encher o saco se eu cagar na casa dela. Vai dizer que o cheiro é desagradável porque eu não cuido da minha alimentação. Babaquice. Quem é que já viu merda cheirosa? Frescura de mulherzinha! Minha nossa! Ta na porta! Vai ter que ser lá mesmo. Não queria aturar de novo ela me torrando a paciência com o seu discurso saúde, mas não vai ter jeito ... Eu devia é ter tomado o suco de siriquela,isso sim!Mas quer saber de uma coisa? Até que foi bom. Pelo menos assim finalmente vou conseguir diminuir a minha circunferência abdominal.


Semíramis

Hora do rush

Notei hoje minha condição lamentável e sem volta em que me encontro. Entristecido, constatei que de fato havia acontecido comigo algo que tentava adiar dês de que entrei na faculdade, algo que abalava minha liberdade e sepultava minha vida social. Havia me tornado um engravatado. O terror de todas as crianças, o pavor de todos os jovens desleixados já não tão mais crianças assim e o demônio dos fantasiosos socialistas bem marmanjos e barbudos.

E de um dia para o outro, conseguir economizar cinco reais na compra de um anti-séptico bocal e descobri que vai poder acordar mais tarde no dia seguinte, são as únicas coisas que consegue te pegar de surpresa e fazer o seu dia. Assim, corre para comprar uma agenda, almoça correndo, perde aula para resolver pepino e agüenta a hora do rush.

Ah! A hora do rush! Quando o transito anda a dez por hora os nervos ficam a mil. Por mais que isso seja comum, uma hora cansa. E imagine minha tristeza quando me dei conta que enfrentar uma viagem de ônibus em pé e espremido fazia agora parte da minha vida. Não mais era mais um simples universitário .

Pois bem, a hora do rush pode ser traduzida literalmente como uma hora de grande movimento, de pressa, de afobação. Talvez por isso quem deixe pra ir pra casa mais tarde vive um happy hour. A minha hora do rush favorita sem dúvida é a volta para casa. Pois de manha muitas vezes as pessoas ainda nem acordaram direito, ficam até simpáticas de tanto sono. De noite não. A noite é um caos, um espetáculo! Aquele momento mágico em que as ruas se iluminam de luzes vermelhas (as do freio), de gritaria, de movimentação (ou a falta dele). Quando chove então tudo se compara ao penteado que sua tia usava nos anos 80, engraçado de tão triste.

E o olho de furacão de tudo isso é com certeza um ônibus parado no meio da ponte Rio-Niterói. Lotado de pessoas, malas e crianças chorando. Não há muita opção. É encarar isso ou a as barcas e seus passageiros andando a passos mais curtos que o próprio pé e de cabeças baixas para entrar na embarcação. É a marcha dos condenados. Só falta as roupas listradas e as bolas de metal presas aos tornozelos.

De qualquer forma, o ônibus é o lugar dos insatisfeitos. Quem está de pé quer sentar, quem está sentado quer outro lugar melhor. São horas da sua vida desperdiçadas por mais que você tente torná-las aproveitáveis. Tem os que lêem (sortudos sentados), os que ouvem música (trilha sonora de um filme em que nada acontece) e os que dormem (os mais talentosos conseguem fazer isso até de pé). Mas com certeza a atividade favorita para passar o tempo é fazer amizades novas. Afinal, todos ali têm algo em comum. A melancolia. Quando menos se espera um estranho vira pra você, bufa e reclama de alguma coisa. E é sua obrigação como trabalhador devolver uma reclamação ainda mais indignada, caso contrario você não merece estar ali. É um estranho no ninho. O alvo mais comum das reclamações é o motorista e sua lerdeza, mas por fim a culpa mor vai para a viação, aqueles “cheios da grana que não pensam no trabalhador” e não dão um jeito de melhorar o transporte público.

Assim, por mais de uma hora três ou mais pessoas revoltadas trocam injurias. No final se despedem sorrindo. “Foi um prazer te conhecer” e vão pra casa dormir cedo.

Quando se tira férias disso tudo todos querem ir a um lugar totalmente diferente do seu dia-a-dia e cometem a burrada de ir para o meio do mato e fingir que está gostando de todas picadas de mosquitos, noites mal dormidas e do calor. Levam a câmera digital, que conseguiram comprar economizando seis meses, ou seja, passando aperto por seis meses. E logo vão botar seu investimento pra funcionar. Mas como se tira foto no meio do mato? “Ah, sei lá! Fingi que tá contemplado a natureza!” Então o urbaninho vira de costas e abre os braços para a mãe natureza, mas mesmo tendo contas para pagar, datas para lembrar, matérias para decorar, tarefas a zelar, uma alergia para tratar, um namoro para administrar, sonhos para apagar, a natureza te grita de volta “Perca peso”.

E quando você está preste a largar tudo para ir morar no Sana, lhe falta aquele motivo para pirar. Domingo chega para aliviar e segunda para recomeçar.


Jefferson Rocha

Pelo pêlo e a mulher de verdade

"Pêlos são apêndices filiformes de origem dérmica e formados por queratina, que revestem a pele dos mamíferos, fornecendo-lhes proteção contra as diferenças de temperatura. Ou, tão-só, são hastes queratinizadas formadas pelo folículo piloso, lubrificadas por uma substância chamada sebo, produzidas pelas glândulas sebáceas. Sua espessura é a mais variada possível: varia de alguns centésimos de milímetros até 0,03 mm (nas barbas e sobrancelhas)."

Faz um tempo já que chegou, às terras brasileiras, uma modinha que tem afetado desde mocinhas até mesmo as exuberantes afilhadas de Balzac. Não imagino ao certo por que motivo ou influência, de uns tempos pra cá, entre tantas outras bobagens estéticas, as meninas começaram uma luta ferrenha contra seus pobres e adoráveis cachos púbicos. Para felicidade geral da nação de esteticistas e depiladoras, os tão sonhados e admirados ninhos vêm sendo devastados com o avanço da cultura estética imperialista no meio (literalmente) de nossas meninas. Já ouvi falar que esse tipo de “corte” é muito comum na parte norte do nosso continente americano, por exemplo. Mesmo assim, me sinto na obrigação de iniciar aqui uma campanha pela beleza de nossa gente e tradição. Não suporto a idéia de que, daqui a alguns anos, esteja deitado numa cama ao lado de meu companheiro nicotinoso recordando de saudosas sensações que podem não mais existir, como as provocadas por Sônia Braga encarnada na melhor lascívia inocente de Gabriela e pelo banho de piscina, “em pêlo”, de Claudia Raia no horário nobre em Deus nos Acuda. Sem contar os inesquecíveis ensaios de Cláudia Ohana e Vera Fischer para a Playboy.

"É mais uma desgraça da modernidade!”, compartilhou meu guru amoroso e barbeiro, Joca, no alto dos seus 68 anos de vivência e maturidade. Não satisfeito, com a delicadeza que lhe é usual, o sábio senhor prosseguiu: “Porra! Como se não bastasse essas viadagens de homem que raspa o peito e faz a sobrancelha, agora mulher não gosta mais de pêlo. Daqui a pouco, você vai pra cama com a mulher e vai parecer que ta trepando com um desses manequins de loja”.

Como não poderia deixar de ser, meu parceiro de sueca está certo mais uma vez. O que seremos de nós, pobres adoradores da graça feminina se não tivermos mais nossa almofadinha macia pra recostar a cabeça depois de um dia difícil? Onde recordaremos perfume de nossas noites homéricas? Qual será a graça dos novos mancebos no esperado momento em que suas mãos, ainda trêmulas, conseguirem alcançar o interior das calças e saias femininas? O que será do prazer de sentir os dedos perdidos no emaranhado de cachos? E as brincadeiras? Os bigodinhos de Hitler, os corações, as fechaduras e toda a diversão proporcionada pela surpresa de arrancar a calcinha com os dentes?

Algumas dessas gazelas-pós-modernas-super-antenadas ainda nos querem convencer de que é mais higiênico. Não entendem elas que não falamos de um processo cirúrgico. Falamos do gosto, do cheiro, do suor, do orgânico, do tesão, de vida! Não se trata de unhas ou sobrancelhas. O bom sujeito pode até se sentir constrangido ao se deparar, no meio de seu ímpeto libidinoso e carnal, com aquela criatura (porque algumas parecem ter vida própria, independente da dona) desprotegida, à mercê dos perigos da vida, pronta pra pegar uma gripe com a primeira brisa da madrugada. Nem mesmo as gloriosas “série rosa” deveriam ousar um visual tão radical.

Gozozos de todo mundo, uni-vos! Pelo fim de uma vida sem pêlos, asseada, fria e sem tesão! Pela volta dos cabelos embolados, pela volta do pentelhinho da parceira misturado nos nossos, pela volta do cheiro de foda! Pela volta da mulher de verdade, da carne, e pelo fim dos manequins de shopping!


Zé Caruso

sábado, 12 de setembro de 2009

Alunos da disciplina - Twitter e Facebook

Felipe Pena - Twitter: @felipepena
Thainá Braga
- e-mail: nannybs@hotmail.com/ Twitter e Facebook: Thainá Braga
Vinícius Lisbôa - Twitter: @viniciusclisboa
Gabriela Murno - e-mail: maria.gabriela@yahoo.com.br
Laura Marques - e-mail: laurapmarques@hotmail.com / Twitter: @lauramarq
Luka Melero - Twitter: @teouff
Rachel Abrahão - e-mail: rachelabrahaoribeiro@hotmail.com / Twitter: @rachelabrahao
Nathalia Vianna - e-mail: nathaliaalmeidavianna@gmail.com / Twitter: @natvianna
Gisele Gomes - Twitter: @gisele_gomes
Thaise - e-mail: thaisect@gmail.com / Twitter: @thaisect
Juliana Sozzi - e-mail: ju-sozzi@hotmail.com / Twitter: @jusozzi
Bia - e-mail: biaaparecida123@yahoo.com.br / Twitter: @biacidoca
Letícia Alassë - e-mail: leticiaalasse@yahoo.com.br / Twitter e Facebook: @leticiaalasse
Paula Ceccon - e-mail: ceccon.paula@gmail.com / Twitter: @paulaceccon
Carolina Andrade - e-mail: carolinaandrade.uff@gmail.com
Camila Wendt - e-mail: welfouslita@hotmail.com / Twitter: @camilawendt
Samanta Soares - e-mail: samanta.maia@yahoo.com.br / Twitter e Facebook: @samantamssoares
Luiz Fernandes - e-mail: luizgdfernandes@gmail.com
Lucas Calil - e-mail: calil.lucas@gmail.com / Twitter: @lucas_calil
Camila Tonin - Twitter: @catonin

Charada

Quem será? Quem será? O alvo dessa crônica. Se alguém acertar ganha uma bala Juquinha ou uma estrela dourada do professor Felipe “peso” Pena para colar na testa. De qualquer forma, a resposta dessa charada é (como todos sabem) um de vocês que lêem ou ouvem essa crônica, cheios de expectativas e nervosismos enrustidos. Com uma curiosidade de uma criança que espera o presente do papai Noel chegar. Será que alguém escreveu sobre mim? Quem escreveu sobre mim? O que escreveu sobre mim? E se ela for lida em voz alta para todos, será que isso é bom ou ruim?... Bem, talvez eu possa matar a sua curiosidade.

Da mesma forma que naquela famosa brincadeira de fim de ano, onde amigos de faculdade, de trabalho ou familiares trocam presente, eu digo: O meu amigo secreto é... Daqueles que lêem muito ou que consegue disfarçar muito bem. Não é por menos que cursa esta matéria. Porém, não tem cara nenhuma de quem já leu algum livro do Wood Allen ou um estudo da fotossíntese feita por plantas subaquáticas, a última vez que abriu um livro de biologia provavelmente foi no vestibular. Por isso, os aspirantes a cineasta e biólogo da turma podem ficar mais tranqüilos, o alvo dessa crônica prefere um diploma de jornalista, seja isso útil ou não.

Portanto, eu chutaria que passa seu pouco tempo livre de universitário lendo colunistas de jornal, formadores de opinião ou opinantes formados. O que mais cedo ou mais tarde todos os cronistas acabam se tornando. Alguns cedo, alguns tarde. Mas como essa informação não ajuda em nada para adivinhar de quem falo, vou partir para informações mais diretas e físicas, já que não me cabe aqui descrições de qualquer outra subjetividade. Já que ELA me mataria se lhe faltasse o respeito. Sim, ELA mesma, eu falo de uma guria, ou esperavam alguma outra coisa? Uma guria de cabelos longos e olhos chamativos, que só podem ter sido presente da mãe, pois pai nenhum teria olhos assim para passar a filha. Com eles, ela consegue se destacar na multidão mesmo com seus comuns um metro e sessenta de altura. Não é da cor de pecado, mas tem cara de quem conhece o pecado de cor... E salteado.

Tem bom gosto para roupas, acessórios e todo o resto. Sua classe com certeza não a permite à deselegância de torcer pelo Fluminense. Tornando mais claro que nunca que o Calil caiu, se não antes, agora já sabem que não falo dele. Ela tem voz charmosa, como de madame da alta sociedade, daquelas que não bate palmas no final do espetáculo, chacoalha suas jóias. Sei que pode parecer um elogio meio deturpado, mas me diz um garotão de vinte e poucos anos que não fica na mão de uma mulher culta que tem imponência na voz e na atitude. Que diga Jesus Luz...

E se quem está lendo essa crônica em pé diante de todos na sala de aula for uma mulher, aposto que ela vai dar um sorriso disfarçado. Pois eu bem sei que ela se achou dona de tais elogios. Assim como as que estão sentadas, se forçou a se encaixar em tal discrição, por mais que tenha uma voz nada grave. “Já até me falaram que canto igual a Madona” ela pensou sozinha.
Mas a verdade é que os elogios sempre são pra sua melhor amiga.


Jefferson Rocha

Desigualdade capilar

Sei muito bem todos os problemas que o mundo possui: fome, violência,desigualdade...E juro para você que tenho muita força de vontade para tentar melhorá-lo.

Mas a realidade é que eu sozinha não vou conseguir. Se eu não consigo resolver um problema de menor impacto no mundo como o meu cabelo, por exemplo, como vou resolver a exclusão social?

Então já que os problemas do mundo são muito complexos vou falar do meu cabelo ( não que ele não seja complexo, mas como falei acima o impacto na população mundial não é tãoooo grande assim.)

Minha guerra com ele começou em 1998 quando eu tinha apenas 10 anos (antes disso ele era lindo). Nesse ano os malditos hormônios começaram a agir sobre mim e meus cabelos que eram lindos, lisos e sem volumes resolveram adotar um Medusa way of life.

Desde aquele ano eu nunca mais consegui dominá-lo novamente.Eu brigava com ele e ele vinha me dizer que na base no grito eu não ia conseguir nada, que ele agia assim porque eu o tratava mal e etc... Enfim, veio com todo aquele papinho de mulher carente. O que meu cabelo se esquece e que eu sou uma mulher carente e ensinei todo esse papinho pra ele..Até parece que eu ia amolecer com isso...

Porém, tudo piorou quando entrei na universidade e conheci uma menina com o cabelo mais lindo do mundo. De verdade, o cabelo dela é tão perfeito, tão perfeito que provavelmente até Iracema – a musa capilar da literatura brasileira – morreria de inveja.

Sempre que a vejo, meu cabelo se esconde, faz um coque e só falta muda de cor – de castanhos para vermelho tom de raiva.

Vocês nem imaginam o como é difícil conviver com aqueles cabelos.. Discussões quase diárias, afinal minha pequena Medusa quer saber o porquê daquela menina morena conseguir cuidar tão bem seus longos fios castanhos e eu deixá-los do jeito que se apresentam.

De início eu tentei convencer meu cabelo de que aquilo era peruca, aplique, ou qualquer outra coisa. Mas após seis meses de faculdade não consegui sustentar a desculpa.

Mas aquela menina também, nem para me ajudar. Tenho certeza que ela sabe os problemas que ela causa em minha vida. Se finge de simpática mas só vem falar comigo para esfregar as madeixas pelo ar que me rodeia e me deixar na vontade de ter cabelos bem cuidados. Sacanagem.

Como uma pessoa de aparência tão bonita pode ser tão cruel e ninguém perceber ?
Mas é assim que os problemas mundiais começam, se ninguém detê-la enquanto ela pratica esta desigualdade capilar na faculdade imagina o que ela não será capaz de fazer quando se formar?


Vento

Fone de ouvido

Lá vai ele outra vez de calça marroquina e com fones no ouvido, dando trilha ao mundo que não tem música. Escutando quem sabe, com grandes esperanças, quando sino da divisão começou a soar. Mas mudo é o que ele não é. Com respeito ele tira o fone a cada vez que fala com alguém.

Não é vanguarda de nada e tem asco de quem se auto-proclama como uma. Ele me diz que aqueles porcos (ou seriam homens? Não sei dizer atrás do vidro embaçado) um dia sairão daquela casa confortável e voltarão a ser apenas porcos no chiqueiro.

Lá vai ele outra vez de calça marroquina e com fones no ouvido, dando trilha ao mundo que não tem música. No centro do mundo vendo a história rolar, vendo “o cara” construir uma nova religião. Foram duas semanas que ele aparecia estático, de camisa roxa do Enecom, num blog do globo online.

E vem brincando com os fones de ouvido, as calças largas voando, dizendo “pára de chorar” para quem reclama demais da vida. Veja bem, ele não é a Pollyana, mas parece que está sempre fazendo o jogo do contente, porque sempre vê o lado bom das coisas.

Às vezes eu me pergunto quando fiquei tão próximo assim para me ver quase sempre ao seu lado. Acho que a resposta deve estar no lado escuro da lua, num lugar onde só consigo chegar voando ou imaginando.

Talvez esteja também escutando os clássicos que a mãe dele tocava nas aulas de piano. O adágio em sol menor não soa muito mais bonito quando escutado de olhos fechados, na ponte Rio-Niterói, dentro do 100?

Ele me diz que dinheiro é um crime. Sempre que tem mais liberdade com dinheiro, precisa-se de mais dinheiro para conseguir liberdade. Diz também que é difícil dividir o pedaço de torta quando uma torta apenas não é suficiente.

E ele sabe que fica mais difícil, mais difícil e cada vez mais difícil quando envelhece. Por que simplesmente não podemos soprar os anos para longe? Eu digo que somos apenas mais um tijolo no muro e trabalhamos para o controle de pensamento. E dessa vez ele me responde como um irmão mais velho: - Ei você! Não me diga que não há esperanças. Juntos nós resistimos, separados nos caímos.
Lá vai ele outra vez de calça marroquina e com fones no ouvido, dando trilha ao mundo que não tem música.


Afta Bucal

De fora pra dentro

É como se conhece as pessoas. De fora pra dentro. Assim é mais fácil descrever, principalmente quando ainda se está adentrando numa alma, porque num corpo posso adentrar rapidamente, nos primeiros momentos de minha primeira impressão, que é profunda. É só acompanhar a memória de como se desbravou quem antes te era estranho, mesmo que te pareça sempre estranho. Quando se lembra do início, é certo: você conhece mais, por mais que a vontade de conhecer não deixe enxergar assim. Entre eu e ela não é diferente. Sinto conhecer menos, por mais que saiba que conheço mais, por querer conhecer ainda mais. Mas comecemos do início...

Pois bem, de fora pra dentro. Dos fios de cabelo às pontas dos dentes brancos e dedos de cores mutáveis em unhas: absolutamente brasileira. Ouça a história da família dela e você vai saber, tenho certeza: absolutamente brasileira. Ali tem miscigenação, se tem. Tem gente da terra, gente imigrada do mar. Ah, tem. De vários mares provavelmente. Daí uma beleza que pode ser difícil de entender, mas que se entende sem perceber, naturalmente, como ela parece ser. Com sorriso espontâneo ilustrou revistas de marias e joãos quando esse mundo ainda era novidade simples, quando ainda estávamos bem de fora. Dali começava um caminho pra dentro sem que nem percebêssemos, e de lá se deu um mergulho lento que até hoje ainda faz conhecer, vai sempre fazer. Chegamos à sua marca maior: ela está ali pras coisas práticas da vida, para colaborar em tudo aquilo que é seu e é concreto. Talvez por isso seja menina tão capaz de concretizar o que parece ser um caminho de desejos simples e grandes que traçou há muito tempo e está percorrendo sem dificuldades. As coisas do mundo simplesmente parecem acontecer para ela, talvez por se parecer tão disposta a ajudar a fazer com que as coisas dos outros aconteçam. Mesmo que com movimentos minúsculos, ela está ali para isso. Tanto que quando não está tanto, acho que está e sem querer peço que esteja. É como quando peço-lhe um favor sem querer, achando que ela estava quase que me pedindo para que eu o pedisse. Ou quando preciso de um... Um pote de geléia! Qualquer coisa que ela diga me faz achar que a qualquer momento pode tirar um pote de geléia da bolsa, que por acaso estava ali e agora serve pra me ajudar! Por mais surpreendente, parece natural que aquele pote esteja ali, porque a bolsa é dela. É de fora, de dentro dela.


Joaquim Lima

My way

O fim deveria ser mais ou menos como o término de um grande espetáculo teatral. Caem as cortinas, os atores recolhem-se às suas coxias, agradecimentos, aplausos. Não era que o seu estivesse próximo, muito pelo contrário. Mas ele era uma daquelas pessoas que gostavam de se recolher ao setor empoeirado da mente humana, habitado por personagens há muito não vistos e cenários há muito não freqüentados. Relembrava pelo bem da nostalgia e do metodismo – lhe agradava a idéia de fazer um balanço de sua vida até o momento. Mas, não, o fim não estava próximo.

Sentou-se a beirada do sofá e contemplou a sala sobriamente decorada. Os móveis e aparatos eram de uma elegância convidativa, confortável. Na parede imediatamente oposta, um Sinatra jovem o encarava. Ele respondeu com o esboço de um sorriso e um gesto embaraçado. O pôster francês - que havia sido lembrança de um amigo - sempre provocava aquela reação, mesmo após anos. Esticou o braço esquerdo e tateou os botões de seu “stereo”. Sim, ele era o tipo de pessoa que ainda conservava um “stereo” e se divertia com as reações que o objeto provocava. Uma amiga lhe disse certa vez que seu estilo retrô era muito cool, mas ele se considerava um simples conservador irrecuperável. Quando estava em casa, gostava que suas músicas permeassem o ambiente e não atravessassem somente o curto caminho entre os fones e o ouvido.

No rádio, a voz madura de Sinatra saudava a jovem fotografia e cantava os primeiros acordes de “My Way”. Sua favorita. A coincidência havia sido proposital, apesar de não diminuir o encanto da melodia suave e incisiva. Recostou-se no assento acolchoado e deixou que os sustenidos e bemóis o levassem para períodos remotos e queridos. O pai e seus pés na mesinha de centro, o sorriso juvenil da irmã, aninhada no colo da mãe que lhe acariciava os longos cabelos loiros. O que mais valorizava. O que mais almejava. Não desejava a casa branca, a cerca amarela e os sorrisos artificiais de propagandas de margarinas. Queria o apoio, o companheirismo e as ligações eternas.

Viu o colégio e os companheiros de Ensino Médio, com quem aprendeu a sorrir do que não era virtude. As piadas internas, os risos altos, as exclamações, as partidas de War. Os protestos, a insatisfação, a sordidez bem-humorada.

Sinatra cantava seus poucos arrependimentos, seus planos bem calculados, seus passos cautelosos. E ele voltou aos anos de faculdade. Os amigos tão superficialmente idênticos e tão completamente distintos. As discussões intelectuais à luz amarela do restaurante australiano, que logo eram substituídas por divertidas histórias. Lembrou dos ideais, dos sonhos e dos rodízios de pizza. Lembrou da República e de suas reclamações rabugentas sobre os companheiros. Seus comentários sarcásticos reforçavam a idéia de um mau-humor latente. Mas sua rigidez desmoronava durante as conversas animadas sobre o nada.

Ali estava. Percorrendo mentalmente sua estrada de tijolos amarelos. O caminho que o conduziu até ali se bifurcava em distintas trilhas; ainda havia muito a percorrer. Amou, sorriu, chorou, perdeu e ganhou. Disse o que pensou, fez o que sentiu. Preservou sua independência e sua personalidade, sem deixar de ceder aos impulsos e sugestões da vida. E independentemente das ruas que escolheu seguir, fez tudo à sua maneira.

Exatamente à sua maneira.


Lúcia

The best I can give you...

...is a fake smile and dead eyes. Pensei por dois segundos sobre esta frase. Já vi muitas coisas nos famosos “Quem sou eu” do Orkut. Às vezes encontro descrições detalhadas, outras vezes uma trilha sonora, uma declaração de um amigo ou até mesmo um espaço vazio que significa um bem-humorado “Tire suas próprias conclusões!”. Acredito que a sua primeira reação no meu lugar fosse achar que o dono desse perfil é mais um integrante do moderno e peculiar grupo que se auto-intitula “emos”. Também poderia pensar que se trata de alguém meio deprimido, triste com a vida, desiludido com o mundo – o que, cá entre nós, seria um derivado da primeira suposição. Ou talvez eu esteja completamente errada e você simplesmente dissesse: É só mais uma frase de efeito típica de Orkut.

Bem, com certeza não era nada disso. Olhei para o lado e estudei calmamente suas feições. Ela sorriu, inclinou a cabeça levemente de lado e deu uma piscadinha mais demorada. Sempre que nos surpreendemos as duas observando o nada, ela repete este mesmo ritual. Uma, duas, três vezes no mesmo dia. Voltei olhar para a tela do computador, os olhos ainda percorrendo as mesmas duas linhas. A princípio pensei que fosse um trecho de alguma das músicas que estão escritas nas páginas de seu caderno. Não foram raras as aulas em que a flagrei com a expressão pensativa enquanto as escrevia. As sobrancelhas franzidas, o olhar distante, o cabelo liso e cor de mel, sempre religiosamente dividido ao meio, cobrindo-lhe quase todo o rosto. A pele, branquíssima, deixando mais evidentes as rugas de quem se esforça pra lembrar-se de alguma coisa. Provavelmente seria uma canção de alguma das bandas que admira, boa parte delas lembrada nos inúmeros bottons ela que carrega na mochila preta, sua companheira fiel deste o início da vida universitária. Coldplay, Snow Patrol, Beatles, Keane. Caramba! Mas como é difícil descobrir coisas de alguém cujo gosto musical passa tão longe dos funks e pagodes de hoje em dia! Aposto que se fosse a letra de um “Sorriso Maroto” da vida, todo mundo ia saber. Escrevi convicta a frase no “Vagalume”, mas nenhum dos resultados me indicou que pudesse ser de fato uma música.

Ah, deixe-me explicar uma coisa antes que você tenha a impressão errada. Escrever músicas no caderno não impede que ela preste atenção em cada palavra dita pelo professor. Diferente do que possa parecer, ela é daquelas pessoas que são responsáveis até nos momentos mais irresponsáveis de ser. Vez ou outra levanta o rosto, faz um comentário e sempre, sempre mesmo, balança a cabeça pra cima e para baixo, um sinal discreto de concordância. Não conheço muitos estudantes que não se assustem ao ter que apresentar um trabalho, um seminário, uma monografia. Meu conselho para todos: olhe para ela. Se você não tiver certeza do que está falando, olhe fixamente para ela. Por experiência própria posso dizer que nada é mais estimulante do que um rosto tranquilo que, silenciosamente, lhe diz para seguir em frente.

Bem, mas não vamos fugir do assunto. Continuei fazendo minhas pesquisas para saber do que se tratava a bendita frase. Enquanto procurava, reparei em um anúncio no cantinho da página anunciando o início de uma nova série de TV. É... por que não? Se não se tratava de uma música, podia ser algo relacionado com algum dos muitos seriados que ela acompanha. Ah, mas se fosse isso, eu ia demorar. Já a ouvi comentar sobre pelo menos uns vinte programas. É fã número 1 do House, não perde um episódio de Prison Break, é uma das que tenta desvendar os mistérios de Lost¸ e ainda guarda tempo para mergulhar nos casos assombrosos de Supernatural. Gastei alguns minutos nessa linha de pensamento, mas por fim desisti. Se com as músicas era complicado, eu não queria nem imaginar como seria com os seriados.

Comecei a me sentir meio idiota. Não eram as músicas, não eram as séries. O que sobrava? Futebol? Ela torce pelo Fluminense, o que não era uma grande informação. Sabe coisas sobre jogadores de times europeus que eu nem conheço, o que tão pouco me ajudava. Fiquei inconformada. Recusei-me a acreditar que se tratava de uma frase apenas. Apelei para minha última saída, talvez a mais óbvia de todas. Joguei a frase solta no Google e esperei para ver o que aparecia. Cheguei a um site. A página que abriu me deu a esperança de que estivesse no caminho certo. Confesso que não entendi muito bem do que se tratava. Rolando a tela para baixo e para cima, cheguei a uma conclusão simples: era algo relacionado aos seriados.
Fiquei feliz pela descoberta. Continuei navegando pela Internet, fuçando novos perfis, lendo notícias, conversando no MSN. Voltei a olhar em volta e, novamente, encontrei seu olhar. Como era de costume ela sorriu, inclinou a cabeça e piscou os olhos. Pensei na frase mais uma vez. O melhor que eu posso lhe dar é um sorriso falso e olhos mortos. Abaixei a cabeça e segurei o riso. No final das contas, era realmente uma frase solta...


Selene

Com "I" e com "L"

Espere, já vou achar. Tinha certeza de que estava aqui, mas no meio de todos esses papéis não garanto encontrar mais nada. É um envelope não muito grande, de papel pardo e com o conteúdo não muito rechonchudo. Aqui está. Perdoe a demora, é que são muitos. Desde que o Galvão chegou aqui com essas modas de informática, não tivemos mais paz. O chefe gostou da idéia de modernizar e agora estamos passando todas as fichas para o computador. Um martírio – que me desculpem os mártires, mas é.

Já adianto que cumpri tudo o que estava programado e, por isso, posso me dar ao luxo de perder tempo em prosa. Bom, estava eu lendo despretensiosamente os papéis, quando me deparei com esse. Tive que separar para comentar. Li mais de 1 milhão de fichas nos últimos dias e, com certeza, essa é uma das melhores. Assustou-se com o número? Deixe eu explicar então. O chefe teve a esperta idéia de organizarmos as cidades que apadrinhamos. Bom para ele, que se chama Pedro e teve que arrumar uma aldeia com pouco mais de 75 mil fichas. Já eu, que me chamo Gonçalo... Poderia ser pior. Pobre Sebastião...

Tudo começa numa família simples. Geralmente, as melhores começam assim. Pais dedicados criam filhos bons, na maioria das vezes, inclusive nesta. Não li a ficha deles, mas posso dizer que se empenharam verdadeiramente. Que primor de menina! Respeita os mais velhos, se esforça na escola, ops, na faculdade e ainda trabalha. É caseira, não tem vícios, nem faz mal a ninguém. Pode parecer careta, mas isso conta muito. Ainda mais para um santo como eu.

Possui uma sensibilidade rara, por mais que seja distraída, na maioria das vezes. É honesta ao extremo, e isso posso garantir. Sonha como apenas os pequenos podem sonhar, pois são capazes de ver mais de perto o chão sujo e duro. Tem muitos amigos. Muitos. Não há quem diga algo de ruim sobre ela. É unanime. Gosta de sorrir como poucas pessoas, por mais que, por vezes, deixe a rotina lhe cansar. É humana. Tem defeitos, é claro, mas não fica bem para mim sair falando assim deles. Não posso me entregar a malidissências.

O que mais gosto nela é a luta. No Brasil, pessoas simples que chegam à faculdade tem que ser admiradas. Ela, além de entrar, se destacou pela eficiência e inteligência. Chamou a atenção de todos por seu modo de trabalhar duro e de liderar com leveza. Sabe brigar por seu espaço sem fazer inimigos, o que é raro, e, principalmente, sabe cedê-lo quando é preciso. Quando todos são levianos, endurece e os acorda, e quando estão todos endurecidos, descontrai e pondera.

Posso dizer que é madura sem perder a jovialidade, que é leve, mas tem fibra, e que tem força, mas delicadeza. Que ama a música, os doces, os desenhos e Johnny Depp, mas tem namorado. Que é genial, sem ser pedante, engraçada, sem ser inconveniente, e pequena, sendo gigante. Bom, dizem que os homens são insetos. Se são, sem dúvida a Jane é uma joaninha.


Mudo

O futebolístico

Dizem pelo Iacs que ele é uma enciclopédia do futebol. Eu não acho. Acho que ele é, na verdade, um tarado. O cara sabe tudo de futebol, lembra até de coisas que aconteceram antes de ele sonhar em nascer. Não é preciso muito esforço para perceber essa tendência porque ele tem sempre alguma coisa que lembre a paixão nacional. Uma camisa, uma conversa, um palpite, um post, uma pauta, uma twittada... Aliás, esse amor foi um dos motivos que fez com que ele escolhesse cursar a faculdade de Jornalismo e nos desse a honra de sua presença nesta sala.

Matar aula pra assistir futebol é normal, até eu já fiz isso. Mas ele assiste ao jogo entre o Íbis e o Tabajara com a mesma emoção de um Brasil e Argentina – clássico dos clássicos. Ele é uma das poucas pessoas que compra revista de futebol e sabe a escalação de times que ninguém conhece. Ele conhece times da Rússia, Angola, Samoa, Arábia, Camboja, até da Papua Nova-Guiné! Uma verdadeira enciclopédia.

O que eu acho mais engraçado nos fanáticos por futebol como o meu amigo, é que eles assistem à mesma partida várias vezes e continuam comentando como se fosse a primeira. Assistem ao jogo ao vivo, depois tem que ouvir os comentaristas de futebol, o jogo na integra de novo (porque tem canal na TV que passa a reprise do jogo), depois ainda tem que ver o compacto. Afinal de contas jogo é jogo e eles têm que comentar a partida com os amigos. E o cara segue rigorosamente esse ritual.

Mas, como nem tudo é perfeito e ninguém manda no coração, o meu amigo não soube escolher muito bem o próprio time. Acredite você que o time dele já foi rebaixado e nem assim o meu amigo desistiu. Ele continuou indo aos jogos para tentar incentivar o time, afinal os jogadores podem ser comprados ou vendidos, ir embora e não ligar mais para o time, para a equipe. Mas torcedor não, torcedor de verdade tem que apoiar o time em todos os momentos “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença até que a morte os separe”. No top da tabela ou no rebaixamento o torcedor vai ao estádio torcer, gritar, incentivar, se esgoelar, chorar...

Mas não fique achando que esse é o único assunto do cara, que ele é um chato, que não sabe falar de outras coisas porque isso não é verdade. Ele sabe sim, mas não acha tão interessante quanto uma boa (ou não tão boa) partida de futebol. E isso é que o torna mais interessante.


Mônica Sampaio

O senhor CR

Mister “CR”. Assim ele é conhecido pelos aspirantes a jornalista da Universidade Federal Fluminense. Se o CR que dá forma ao apelido corresponder a Coeficiente de Rendimento, sem necessidade de ver seu boletim, concluo que o jovem é o melhor aluno do sexto período (a menos que “CR” tenha mudado para “Cabeça Raspada”, “Cara Rigoroso” ou “Corno Rico”). Mr CR é digno do nome. É inteligente, amante da boa leitura, escreve razoavelmente bem. No currículo, uma monitoria, alguns trabalhinhos e o ofício de morar sem os pais. Não abre mão concluir a faculdade, cursada com maestria, ao lado dos amigos, que lhe consagraram como Mr CR. É educado. Fala pouco. Para muitos já nasceu pronto. Porém, um sorriso discreto revela o aparelho ortodôntico: nem tudo está formado na vida desse ainda jovem senhor.


Teo Versiani

Sempre uma surpresa

No caminho da minha casa para o IACS, fui pensando em como seriam as pessoas que eu estava prestes a conhecer. Já havia falado com alguns pela internet, outros não. A curiosidade, confesso, era enorme. A semana de trote, apesar de muitos serem contra, é sim uma forma de integração.

Dentre muitas outras pessoas, uma menina logo chamou minha atenção. Tinha a pele cor de bombom, cabelo bagunçado e um sorriso muito expressivo. Já estava pintada com guache quando cheguei e, pelo entusiasmo, louca para fazer novos amigos. Em alguns momentos, ela me parecia chata como aquelas animadoras de festa infantil, que eu não sei o porquê, acham que as crianças são surdas e retardadas, então, berram feito loucas.

Eu com a minha timidez que me é peculiar, não me permitia falar muito com as pessoas. Precisava de tempo. Mas meus olhos continuavam a seguir aquela garota. Sempre de bem com a vida, sorridente e com sua combinação de calça jeans com Havaiana. Ir para a faculdade a deixava mais feliz, do que ganhar um prêmio de um milhão da Mega Sena.

Começaram as aulas, uma coisa havia mudado da semana do trote até aquele dia. Seus cabelos, embora ainda desarrumados, estavam mais curtos. Enrolados, eram cachinhos feitos um a um. Apesar de toda sua descontração aparente, ela era uma aluna dedicada e pontual, tá, isso só até a segunda semana de aula.

Descrevê-la me parece uma coisa complicada, é como aquelas surpresas de Kinder ovo, sabemos as possibilidades, mas nunca temos certeza do que vamos tirar. Uma música, talvez “Livin’ la vida loca”, um filme... aí é mais difícil, talvez “Curtindo a vida adoidado”. Uma personagem, eu diria uma mistura de “Luluzinha” com “Bobby”, pois acha o mundo fantástico e o aproveita da melhor maneira possível. Se fosse um doce seria uma torta de Floresta Negra, agora se fosse salgado, com certeza, arroz com feijão.

Maluca. Só existe uma palavra para quem faz duas faculdades. Quem mais seria capaz de acordar às sete da manhã para ir estagiar, fazer uma matéria em outra universidade e depois correr para a UFF. Ninguém em sã consciência faria isso, mas ela faz.

Sempre com uma opinião na ponta da língua, pode ser convidada para um baile funk ou uma ida aos museus do centro do Rio. É capaz de ir do céu ao inferno em apenas trinta segundos, sempre com um sorriso no rosto e tentando levantar o astral de quem quer que esteja a sua volta.

Apesar de todas as características já ditas, deixei a que considero mais importante para o final. Ela é aquela pessoa que você passa horas conversando, seja de seus problemas, seja dos dela, ou até não falando de nada importante, mas você nunca se cansa.


Mel

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Café com leite

Entrei numa daquelas lanchonetes de esquina nos arredores do Largo da Carioca e pedi um café. Quando me abaixei para pegar uma moeda de um real que caiu da minha recheada carteira, olhei para a calçada e a vi. Ela tinha a pele negra e brilhante. Mas não era um negro escuro, preto, quase azulado, como a pele de um autêntico africano. O tom era marrom, misturado, deixando evidente um longo período de miscigenação. Imaginei que se juntasse algumas gotas de leite ao meu café, talvez reproduzisse sua cor. Logo desisti da idéia. Joguei um punhado de açúcar no copo e dei o primeiro gole. Seus cabelos, curtos e desgrenhados, se misturavam à sujeira e à tonalidade do papelão, que lhe servia de travesseiro. Vestia apenas uma camiseta branca. O pano sobrava para todos os lados. É provável que coubessem ao menos três dela dentro da mesma roupa. Era magra, esquálida. E chegava a causar repúdio só de olhar. Respirei fundo e tomei o segundo gole do café. A magreza apenas autenticava a fragilidade, da qual já se podia desconfiar apenas pelo seu tamanho. Ela era um pouco maior do que um caixote de feira, daqueles nos quais se carregam as bananas e as goiabas. Bananas e goiabas que ela certamente não comia havia dias. Resolvi pedir um biscoito amanteigado, do tipo que também se vende na feira. Engoli o biscoito junto ao terceiro gole do café. Não pude ver a cor de seus olhos, pois eles estavam fechados. Devia estar com sono, já que fazia mais um dia de calor insuportável no Rio de Janeiro. É comum sentir preguiça e o corpo mole quando a temperatura é muito alta. Por isso eu precisava da cafeína: para espantar o meu sono de depois do almoço naquele dia quente. Então tomei o quarto e último gole do café. Larguei o copo no balcão e agradeci ao funcionário. Olhei mais uma vez para aquela menina, para ter certeza se dormia ou não. Ela continuava inerte. Devia estar dormindo, sim. Dei-me conta de que era bobagem a idéia repentina de verificar se respirava ou não. Olhei para a rua e notei que nas outras calçadas mais pessoas dormiam. Assim como outras trabalhavam vendendo parafernálias no sinal e nos camelôs e assim como outras apenas vagavam sem rumo. Quase todos tinham a mesma pele da menina adormecida. É, convenci-me de que ela apenas dormia. Talvez também precisasse de um gole de café.


Bertholdo

Sotaque Irrônico

Meu sofrrimento é eterrno. Jurro que sou totalmente inocente e, inclusive, desde que nasci, nada pude fazerr para merrecer tamanha pena. Cerrtas vezes, me perrgunto se não serria um castigo a meus antepassados, já que estes, parra aumentarr meu desprazerr, não tive ao menos a chance de conhecerr. Na verrdade, nem sei de onde vim. Pelo sotaque, devo ser da Frrança, mas, como dizem que também puxam os “erres” no Quebec, não tenho certeza.

Não me aguento mais de pé e não suporrto mais estas roupas que esquentam demais no calorr, pesam demais na chuva e não prrotegem do frio. Meus brraços doem de cansaço e meu pescoço está tão durro que prrocurro nem lembrrar que o tenho. De cerrto, deve estarr pensando que é frrescurra minha. Pois experrimente carregar peso porr tanto tempo. Ou melhorr, veja o quanto consegue manterr a mão apontada para o céu com o cotovelo completamente esticado. Duvido que conseguirria mais tempo do que eu. Dessa dorr eu já me resignei, pois o que me irrita mais são os joelhos. Se soubessem o quanto eu odeio ficarr de pé… Prrefirro nem olharr parra minhas perrnas, que já devem estarr de desenhadas de varrizes horrendas.

Outrra coisa que me enfurrece (não pense que sou tão ranzinza, só estou aproveitando a rarra oporrtunidade de me lamentarr) é verr como as pessoas se alegrram com a minha torrturra. Apontam sorrindo, jogam coisas em mim, olham até de lunetas (sim, não pensem que não vejo os que trripudiam de longe, sou boa de fisionomia) e fotogrrafam para não se esquecerr. Serr humilhada diarriamente porr serres tão pequenos me deixa verrde de ódio. Sinto tanta raiva que enlouqueço e acho que estão andando na minha cabeça.

Ainda falando sobrre o que me irrita (não desista, acho que agorra é a melhor parrte), penso como os homens são injustos. Outrro dia, descobrri o porrquê do meu sofrrimento (sim, já sabia, mas não disse antes só de raiva). Sou um tipo de marrco parra eles. Soube que até gostam de mim, o que não muda o meu rancorr, que fique bem clarro. Não pude me moverr nos últimos 123 anos de dias interrmináveis e noites frrias ao relento parra que nunca se esqueçam do quanto é imporrtante ser livrre. Irrônico, não? Não me consola nem um pouco saberr que não fiz nada de errado e que o que faço é por sacrrifício, pelo contrrárrio. Felizmente, isso não tem adiantado e vejo o quanto esses homens que parrecem andarr para onde querrem são tão ou mais presos do que eu, pois nunca andam parra onde devem e terrminam porr gastarr sua liberdade em círrculos infinitos, o que é muito mais cansativo. É isso, querro mesmo é que não sejam livrres, prronto falei. É que me revolta muito. Sabe o que é o fim da picada? É terr descoberrto que me chamam de Estátua da Liberrdade. Aí já é demais.


Mudo

Norminha manicure

Sou homem. Um macho bem resolvido, com vinte e sete anos de pura masculinidade. A redundância faz-se necessária pelo seguinte segredo: faço as unhas toda semana. E o pior: tenho uma manicure para chamar de minha, há três anos e quatro meses. Entretanto, não é uma pessoa qualquer. Norma Lopes da Silva, 34 anos, é um ser portador do dom da palavra e do esmalte também. Norminha – só para os clientes fiéis – é moça simples, com pouco estudo, dois filhos e três maridos (como ela mesma assume, mas só para os clientes fieis). Bate seu ponto toda segunda-feira em minha residência. Sempre peço para esconder alicate, esmalte, acetona, etc, antes de chegar ao meu prédio, mas ela não se conforma:

- O senhor tem vergonha do meu ofício? Saiba que não sou estudada, mas meu trabalho é digno também!

Tento explicar, sempre em vão, que porteiro e moradores podem não entender meu hábito e acabar com a minha reputação com interpretações preconceituosas.

O que mais gosto em Norminha não é a forma caprichosa como ela tira minha cutícula – e é só a cutícula e não pedaços de dedo – mas sim sua vocação à psicologia. Enquanto ela trata os cinco dedos da mão direita, partilho meus problemas.

- Norminha, o clima lá no trabalho está difícil. Tá todo mundo querendo comer o meu fígado. Não me conformo com meu salário e com meu cargo, mas não adianta falar com o doutor Moraes, aquele de quem te falei semana passada. Ele não me dá uma promoção. Só levo esporro. Tenho que ser promovido ainda esse ano. A prestação do carro ainda não acabou. O pior é que não estou conseguindo produzir mais…

Antes que eu terminasse de chorar minhas pitangas, ela interfere:

- Calma, Teo. Você só tem 27 anos. Acabou de se formar e já trabalha em uma empresa de bacana. Te vejo como andorinha querendo voar como gavião. Freud dizia que todos nós temos que aprender a viver com regras e com nossos limites. A falta é algo natural do ser humano.

Outra característica de Norminha é ser grande leitora dos livros freudianos. Por isso, sinto-me mais confiante em ouvir seus ensinamentos.

- Tudo bem, Norminha. Não concordo muito com a parte da andorinha e do gavião, mas tudo bem. Mas não é só isso. Lembra do Rui? Aquele cara que era meu amigo? Era, Norminha! Era! O safado arrumou a maior confusão comigo. Ficou aos berros no meio da empresa por uma coisa super boba. O problema é que estou sem dormir, me sentindo super culpado.

- Ah, Teo! Já falamos sobre isso, né? Você e essa sua mania de se culpar por tudo. Larga esse chicote, cara. Você sabe que nunca gostei do Rui. Segundo Freud, isso se chama Superego. Já te disse que a autoacusação não serve de nada.

Começo a ficar aflito, porque Norminha foi mais rápida do que o comum. Antes que eu começasse a falar da minha vida afetiva, da Flávia, ela já havia terminado as duas mãos. Não posso deixar esse assunto para semana que vem. Vai ser tarde demais. Preciso do parecer de Norminha. Não tardo em pedir:

- Norminha, hoje vou fazer o pé também. Pode caprichar, porque ele está bem cascudo!

- Vai fazer o pé? – surpreende-se ela – Nunca fez o pé na vida!

- É, mas hoje quero fazer o pé! Por quê? O que Freud diz sobre homens que fazem o pé? Pode deixar que vou pagar!

Em silêncio, ela aceita a proposta. Coloca meus pés na água e prepara a lixa.

- Aviso logo. Suas unhas estão encravadas!

Feliz, sem me preocupar com o que ela vai fazer com meus dedos, disparo:

- Norminha, a Flávia me ligou e pediu para voltar. Fiquei balançado. Queria te ligar, mas não tive coragem. Eu sei que ela pisou na bola comigo, mas pareceu arrependida. Vamos almoçar amanhã. Não sei o que faço. Tenho medo de me frustrar de novo, mas ela é a mulher da minha vida. O que faço?

- Dessa vez não vou usar a teoria das pulsões de Freud. Vou usar a teoria do homem babaca da Norminha! Se toca né, Teo. Essa mulher acabou com você. Te traiu com seu irmão, roubou seu dinheiro e você ainda pensa em voltar. Sinto em dizer que esse desejo você vai ter que controlar para se dar um pouquinho de valor. Você me irrita com essas coisas.

Prefiro não ouvir a “teoria do homem babaca da Norminha” e antes que ela terminasse os dois pés, desabafei tudo o que ficou entalado ao longo da semana. Falei sobre a carência da minha mãe, a morte do meu pai, meu sobrinhos, o pré-sal, a demissão do Renato Gaúcho e a atual situação do Fluminense, sobre a atriz pornô que está com uma doença misteriosa. No fim, estava leve, tranqüilo e com as unhas maravilhosas.

Já de Norminha, não se diz o mesmo. Cansada – mais pelos conselhos do que pela unha – a manicure / terapeuta freudiana se despede com a frase mais sábia que poderia sair-lhe da boca:

- Semana que vem, você é quem vai fazer minha unha, ok? Pé e mão!


Téo Versiani