domingo, 27 de setembro de 2009

Gente boa

Gente Boa era um jabuti muito legal. Foi adotado pela família quando o menor dos filhos ainda tinha três anos. No início, todos prestavam muita atenção a ele, no seu rebolado lento e sincronizado até as alfaces e aipos que lhe eram oferecidas. Era um jabuti muito calmo e tranquilo na sua juventude.

Assim batizado quando colocou sua patinha minúscula e enrugada na casa dos Pereiras, o gracioso jabutizinho era todo amores com a família, amigos e, principalmente, com as crianças. Todos diziam: “Cuidado para não deixá-lo muito perto do Dudu! Ele pode querer por suas mãozinhas nele e ele lhe arranca um dedo. Os jabutis gostam de morder.” Mas não foi assim. Tão logo ficou provado, empiricamente, que o animal não mordia de jeito nenhum, quem quer que fosse, apelidaram o réptil de Gente Boa por sua ótima conduta que transcendia sua essência biológica.

Mas Gente Boa mudou. Ele cresceu e virou um jabuti robusto adulto e começou a destruir toda sua boa reputação. Não se sabe bem ao certo quando ele se rebelou, mas deve ter sido a partir do momento em que Dudu não se chamava mais Dudu, e sim Eduardo. A família crescia e a tartaruga ia sendo esquecida. Já não recebia mais hortaliças e cafunés no pescoço pelancudo. Sua caixinha, que era sua casa, não era mais regularmente limpa e isso devia incomodá-lo profundamente. Por causa dos maus tratos, a falta de amor e compreensão da família, Gente Boa resolveu chamar atenção em um último ato esperançoso e desesperado.

Botou-se a correr desatadamente pela casa, correr no sentido de andar obstinadamente em passos de tartaruga, derrubando e roendo o que passava por perto. Eram mesinhas de centro e suas cristaleiras ornamentais, pastas e mochilas que eram largadas no chão, livros, revistas, pés de cadeiras e poltronas. Em menos de uma semana, o animal já recebia alguma atenção pelos seus atos delinquentes.

Imagino que Gente Boa estivesse satisfeito com o estrago e a atenção, porque voltou a se comportar. O engraçado é que atenção não voltou a diminuir e, ao contrário do que muitos possam pensar, o jabuti começou a ficar preocupado. Mais e mais vezes, escutava seu nome entre conversas da família e olharem deprimidos e melancólicos em sua direção. Os Pereiras estavam tomando uma decisão, provavelmente terrível...

Gente Boa ficava ainda mais preocupado a cada dia que passava e até parou de comer as recentes guloseimas que eram postas na sua casinha. Eles estavam querendo subordiná-lo com aquilo e ele não iria ceder! Além disso, a preocupação era tanta que ele tinha mesmo perdido o apetite.

Foi, então, que chegou o dia fatídico para o jabuti domesticado. Uma caixa relativamente grande, com alguns furinhos no topo e nas laterais, estava posta no centro da sala. Em cima, vinha escrito: MUDANÇA. Gente Boa não sabia ler, mas sabia o que era uma caixa com furos. Tratou logo de se acalmar e pensar no que iria fazer para fugir e não ser devolvido à loja de animais. Tentou pular da janela, sair pela porta dos fundos, mas sempre era recuperado a alguns passos do destino final.

Tentou fazer greve de fome e morder mais coisas. Inutilmente.

Nostalgicamente, Gente Boa começou a recordar do dia em que chegou e os olhinhos brilhantes de Dudu. Hoje, Eduardo tinha 25 anos e seus olhos não brilhavam tanto quanto antigamente. Ainda assim, volta e meia ele passava pela casa do jabuti pra lhe fazer um agrado, que foram reduzindo à medida que ele crescia. Gente Boa começou a se sentir deprimido. Afinal, estava conformado com seu destino cruel de abandono pela sua querida família. Só sentiu mesmo aquela pontadinha no seu coração de réptil por causa do descaso de Dudu.

No dia da mudança, Gente Boa foi resignadamente posto dentro da caixa. Com seu recipiente de água e comida, foi transportado com cuidado. Chegou a seu destino, preparado pra reencontrar alguns dos seus velhos amigos e outros animais mais novos. Mas não, não foi com a loja que ele se deparou. Foi com uma casa, recém pintada, com poucos móveis. Lá estava Eduardo e uma mulher, bem barriguda. Gente Boa não entendeu de primeira o que havia acontecido, mas tão logo nasceu Dedé tudo voltou a melhorar na vida de Gente Boa.


Wilma Dantec

Gente boa

E ela saía andando arrastando as sandálias. Sempre na mesma direção. Sempre depois de me dizer tudo aquilo que eu já sabia que ia ouvir. A mão no queixo, mãos na nuca, o monólogo fluía. Mãos diretas, me apontava os defeitos. Surpresa minha seria se não fosse assim.

Boa gente mesmo ela dizia que eu só encontraria se não quisesse, despretensioso. Gente boa era mais fácil e mais comum. Contava um, dois, três, oito. Parava sempre antes do dez, não gostava de números redondos.

Certas pra mim eram as tardes em que o sol batia de lado no telhado e eu sabia que poderia me perder. Fechava os olhos, comemorava sozinho e em silêncio. Festa demais poderia ser sonho, tristeza demais poderia ser treva.

A gente é bom mesmo enquanto presta, isso eu aprendi. Enquanto dá almoço na hora, traz café pela tarde e dorme cedo, com a lua. Se muda, se vira episódio de série americana, sai do auge do querer, tira o clima da emoção. Clara sempre me dizia que era assim que me queria – e que nenhum cabelo penteado pro lado errado e roupa rasgada iriam mudar isso. Repetia sempre o discurso da cadeira, dos passos e do perfume antigo. Todos de cór.

E eu que era esperto, rapaz bonito de jaqueta de couro, não pensava em cair nas falas de moça sincera. Ela me leva discreta pelo desvio dos olhos e me fazia feito boneco na mão de criança. Criança malvada, às vezes. Boneco feliz, sempre.

Era eu – e todos me confirmam – era eu que deixava que ela me moldasse. Era fácil ser alguém nas mãos de quem sabe o que quer que o outro seja. Não recordo momento algum de medo, ausência ou desilusão. Qualquer espaço vazio em mim se completava com a palavra da boca de Clara. Palavra de quem sabe dizer.

A boa gente por aí até hoje diz que uma morte estúpida e violenta não era digna de alguém que usava tão bem o tempo que a vida lhe dava. Sofrimento e dor não combinavam com alguém que passara a vida toda a andar sobre sorrisos.

Eu – eu mesmo - já não sei o que digo, mas não acredito em motivos concretos. Quem sabe esteja morto o ideal de boa gente de Clara, inatingível, utópico. Não sei, mas sei que eu não consegui alcançá-lo. Não devo ser “tão gente boa assim”. Desisti das tardes ouvindo e das noites pensando. Quero que Clara me leia e me entenda, é a alternativa que agora me resta. Já não vivo – não mesmo - e digam à Clara que morri.


Maria Sofia

Gente boa

Acho que preciso de umas férias. Algo no meu cabelo desgrenhado, nas minhas olheiras perpétuas e no meu humor intragável me diz isso. Meus olhos de ressaca não enganam nem mais ao velho bento da Capitu, preciso mesmo de um tempo. Umas férias do meu trabalho, da faculdade e até das minhas atividades de lazer. Pois acho que estou ficando louco, mas não posso ter certeza. Melhor mesmo é pedir ajuda.

Afinal, esse mundo lá de fora está cheio de depressivos, doidos varridos e pessoas medicadas com remédio traja preta de nível de terceiro Dan. Portanto, frenquentar um simples psicólogo hoje em dia é coisa de amador. É como ser o mais alto dos sete anões. Não é lá grande coisa. Se é que você me entende. Até porque, todo mundo sabe que esse papo de que tamanho importa é invenção do namorado da Branca-de-neve que adora fazer trocadilhos com seu calçado número quarenta e cinco.

Até aquele seu companheiro de trabalho sempre sorridente, de bem com a vida pode se mostrar um verdadeiro biruta (num estilo Britney Spears misturado com a menina Maísa do SBT), que já passou pelas mãos de todos os psicólogos e psiquiatras da região.

Foi o que aconteceu comigo numa quarta-feira cinzenta. Sentado em minha cadeira entediado com o que estava fazendo fui cutucado pelo meu vizinho de mesa. Ele me chamou para uma conversa, embora antes eu nem soubesse dizer como é sua voz, e se mostrou um verdadeiro conhecedor da linha Freudiana, Lacaniana e outras bem assustadoras de tantas sessões terapêuticas que já havia feito. Soube descrever minha aflição melhor que eu e me propôs algumas reflexões.

Ele sugeriu uma terapia do grito, alegando que uma simples análise não resolve nada. Tentei sugerir algo menos escandaloso como interpretação de sonhos ou me indicar alguns calmantes. Ele riu da minha tentativa e tentou mudar minha opinião para uma terapia em grupo envolvendo hipnose. Desesperado, consegui convencer ele a continuarmos numa simples conversa mesmo, antes que ele começasse a juntar o pessoal do trabalho. Mesmo que simples assim me ajudou muito. Principalmente por perceber que perto dele mina loucura é igual a uma cassação de deputado. Não oferece perigo algum.

Eu agradeci vislumbrado. Ele sorriu e me mostrou a última coisa que aprendeu com seus psicólogos. A cobrar. Agora ele passará uma semana de folga e eu fazendo carga horária dupla. Disse adeus as minhas férias.

Enfim, para ser gente boa... Boa da cabeça... Precisei de ajuda que virou a nova moda verão-primavera desse ano. Então fui ao divã como uma criança que vai até o Papai Noel na praça de alimentação do shopping e fiz o meu pedido. “Doutor, você tem que me tornar um cara legal”. Afinal, eu também sou normal. Uso óculos escuros a noite como todo mundo, tomo pílulas para enxaqueca, gastrite e dor muscular como todo mundo e tenho bons problemas como todo mundo. Problemas que me deixam na dúvida da minha saúde mental. Se bem que louco é justamente o cara que tem certeza de sua sanidade. De qualquer forma, se essa crise não terminar em suicídio ou casamento, eu vou ficar legal.


Jefferson Rocha

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O galo no meu Sabino

O diacho já era difícil: ler. Aquele bando de letrinha, tudu junto, coladinho, exprimido que nem fosse pau-de-arara no primeiro dia da colheita. O tal do texto então, vixe!, era pior. Mas o professor disse-que-disse que eu tinha que aprender mais de lê e escrevê pra conseguir a tal da aposentaduria. Eu não entendi direito não, mas o professô dotô falô que é bão, mas bão mesmo porque a gente ganha mermo sem trabalhar e eu não sou cabra de ficar recusando dinheiro assim que sobrando num tá...

Comecei e já fiquei cabreiro. O nome do “homi” era Fernando. Até aí, vá lá, porque o nome do pequinininho do seu João lá da obra também é. Mas depois tinha escrito lá: Sabino. Tinha, sim senhor que eu vi. Foi nessa aí que eu encasquetei. Sabino, cê sabe, lá na minha terra é um pé de planta assim amaralinho, meio vexado, miúdo, que quase num dá, mas não é que dá.

Agora onde já se viu dar um nome assim tão garboso desse, Fernando, e botar do lado Sabino. Vá lá que seja, aqui na cidade grande eu já vi uns nomes abirobados que só: as minha vizinhas lá em casa mermo, uma é Madeinusa, e a outra Chevrolete. Mas é da Silva. Da Silva eu conheço. Da Silva tem um monte que tem. Agora, Sabino? Resolvi que era miór deixar isso pra lá que eu ainda num tinha lido era nada.

“A laranja foi um dia inventada por um grande industrial americano, cujo nome prefiro”... Có-Có-Ricó!

Ta aí o galo. Logo no começo do meu Sabino. Se fosse uma, duas, vá lá, até umas cinco vezes eu tinha mareado e pronto. Mas o diacho do galo ficou cantando o tempo todo. Era eu abaixar a cabeça e o embestado começava:

“Fruta cítrica, suculenta e saborosa, ela começou sendo chupada às dúzias por este”... Có-Có-Ricó! Óie, e o pior é que ocê num acredita. Eu dô um doce pra quem adivinhar o nomi do professor. Filipi Pena. Eita, mas vai ter coincidência assim lá nus inferno!

“Com o correr dos anos o molecote virou moleque e o moleque virou”... Có-Có-Ricó! “Apaixonou-se pela filha do dono do”... Có-Có-Ricó!! Diacho, assim é que eu não vou sair do lugar. “Meteu-se em peripécias amorosas que já inspiraram dois”... Có-Có-Ricó! “Passou a vender laranjas. Como, porém”... Có-Có-Ricó!! “Pior foi a emenda que o soneto, no caso”... CÓ-CÓ-RICÓ!!!!!! ARRE, EU VOUDAR FIM NESSE GALO!

Antes de entregar o bicho ao Sete-Pele resolvi conversar com o maldito e pedir pra ele pará com essa apurrinhação:

- Ô seu frango, será que não dá pro senhor ir cantar de galo em outro lugar, não?

Mas não deu foi em nada, e eu que já tava fumando numa quenga resolvi de uma vez: o galeto ia morrer. Só faltava decidir como.

Primeiro, eu pensei no mermo que ocê: vou degolar o safado. Mas eu não tinha UMA machadinha que fosse pra contar história... Aí eu pensei então em esfolar o bicho. Mas ia ficar tudo breado e eu ainda ia ter que limpar.

Pensei em matar o desgraçado de rir, de susto e até de vergonha, mas isso ia demorar muito e eu ainda não tinha lido era nadica de nada. Tinha que ser uma coisa rápida. Por causa disso aí também que eu desisti de fazer um canja, se bem que a patroa até que ia gostar...

Eu quis dar um tiro, uma facada e até uma flechada no frangote, mas eu não tinha nem arma, muito menos arco-e-flecha. Tinha uma baladeira daquelas que você bota a pedra no meio e puxa, mas duvido que isso fosse dar cabo do enxerido. Ainda dava pra eu tentar afogá, queimá, enterrá e atropelá o bicho. Mas no fim, resolvi que, cabra macho que sô, eu ia era esganá o galo.

Saí e fui atrás dele. O fingido tava logo ali e num foi difícil de achar porque até sem eu tá mais lendo ele continuava dando uma de cantor. Olhei pro desgraçado e disse:

- Ô seu galeto egoísta dos diabos, ocê quer é acabar comigo! Por sua causa o professor vai ralhar com mais eu até cansar e eu num vô consegui aprendê lê nem escrevê. Num vo consegui minha aposentaduria, vo ficar burro, velho e pobre, sem um tustão no bolso, meus mínimo num vão ter o que comer e minha patroa é bem capaz de mi enxotar purque eu num presto pra nada. E o ocê nem se importa!

Óie, mas eu juro pelo meu santo Antônio dos cajueiro do rio são Francisco da Paraíba que di repente, num é que o bicho parou de cantar? Ficô me bisoiando com aqueles óio miudinhos assim que nem tivesse achado um milho no meio da terra e eu já que já tava era achando aquilo tudo muito estranho, num tinha idéia do que ia se suceder dipois. O tal do galo sentô ali mermo no meio do quintal,baxô o pesoço, colocô a cabeça no chã, abriu o bico e soltô assim baixinho que quase num deu pra ouvir:

- Có.

E bate a caçuleta. Vixe!


Lois Lane

A lingüiça dos primeiros socorros

A história a seguir é baseada em fatos reais, corriqueiros. Portanto, leitor, é melhor ficar atento... isso também pode acontecer com você. Tudo começou em um cursinho de primeiros socorros, desses que todo mundo já participou na vida, ministrado por um instrutor dos Bombeiros – normalmente gordinho e careca, pois os saradões nunca são escalados para dar esse tipo de curso. A turma estava lotada, enquanto o instrutor falava de como reagir em casos de corte ou perfuração seguidos de hemorragia. Nesse momento, eu já sentia náuseas e via estrelinhas coloridas na minha frente, sentindo que iria desmaiar a cada foto exibida no slideshow que o bombeiro levara para ilustrar os acidentes. Ao levantar-me para ir ao banheiro, uma senhora - que parecia ter seus 45 anos – levantou o dedo e parou a apresentação para contar seu caso real.

Respirei, voltei, sentei e resolvi ouvir aquilo tudo. A senhora descrevia um domingo em família, com o filho de nove anos em casa e o amiguinho dele, da mesma idade. O filho, João Pedro, e o amiguinho, Marcos, estavam como dois anjinhos assistindo um filme qualquer na TV, deitados no sofá e comendo inofensivas pipocas. Ela estava na cozinha, fazendo mais alguma coisa para eles comerem e, conforme contou, achava incrível o silêncio vindo da sala – pobre mãe, será que ela não imaginou que isso seria um futuro “problema”?

Meia hora depois, a mãe resolveu levar pãezinhos de queijo quentinhos para as crianças. Chegou na sala somente a tempo de ver a cena do crime: João Pedro e Marcos estavam brincando, em silêncio, de correr em volta do sofá, até que um deles esbarrou na mesa. Em cima dela estava o recipiente de vidro lotado de milho de pipoca, que caiu justamente na cabeça do amiguinho de seu filho. A histeria estava armada: Marcos chorava com a cabeça aberta e cheia de sangue e João Pedro gritava socorro – mesmo sem ter mais ninguém em casa.

Por um momento – e também por instinto – a mãe pensou no mais óbvio, no que você provavelmente pensaria. Foi até a cozinha procurar gelo para pôr na cabeça da criança, mas lembrou-se do que a empregada dissera no dia anterior: a máquina de fazer gelo estava com defeito - uma espécie de Lei de Murphy para ricos. Num ato desesperado, abriu o freezer e pegou a única coisa congelada que havia: uma lingüiça para churrasco. Isso mesmo, leitor, uma lingüiça congelada. Rapidamente, a mãe levou a lingüiça para sala a fim de estancar o sangue da cabeça do amiguinho de seu filho. Com a lingüiça na cabeça e mais tranqüilo por estar sendo remediado, Marcos pediu para chamar a sua mãe. Ao fim do desespero inicial, a anfitriã da casa e heroína do dia ligou para o hospital e para a mãe de Marcos, explicando toda a história e vangloriando-se por ter uma lingüiça salvadora. Uma semana depois, ela contava o ocorrido naquele curso de primeiros socorros, aconselhando todos a terem, pelo menos, uma lingüiça para churrasco reserva no congelador.


Jornalista

Resquícios de uma criança curiosa

Iniciando a série “Memórias da aurora da minha vida” vou dividir com vocês um dos mistérios que me atormenta há aproximadamente 15 anos.

Cresci em Niterói, gozei a minha infância nos anos 90 e me recordo que um dos diálogos mais ditos pelas crianças do meu prédio é este que segue abaixo:

“- Foda-se.

-Corroda-se.

-Senta no meu pau e se acomoda-se.”

Particularmente, eu não era muita adepta destas falas. Primeiramente porque sempre fui uma lady (leia-se criança chata e fresca) e não costumava utilizar de palavras de tão pouco nível no meu vocabulário.

O fato acima justifica o porquê eu dificilmente falava um “Foda-se” e consequentemente um “Senta no meu pau e se acomoda-se” uma vez que, pela lógica da brincadeira aquele quem começa dando fora e quem termina o diálogo.

Além disso, o trecho “e se acomoda-se” doía aos meus ouvidos e eu me recusava a repetir algo assim.

E por fim, eu não falava essas frases pelo simples motivo de que eu não tinha (e continuo sem ter) um pau o que impossibilitava que eu convidasse os meus amiguinhos a sentarem em cima dele.

Ok, tudo bem, este meu último argumento não é muito válido. Se eu realmente quisesse levar esta frase no sentido literal eu poderia utilizar o Denis – o vibrador de estimação de mamãe.

Mas enfim, o meu objetivo não é contar pra vocês todos os palavrões que aprendi a falar enquanto criança e muito menos contar as aventuras sexuais da senhora minha mãe com o Denis (o melhor padastro do mundo se é que vocês me entendem.)

O foco deste desabafo é compartilhar a maior curiosidade que tenho. Trata-se de uma dúvida totalmente sem fundamento, super banal, mas que nem o Google soube me responder.

Acreditem, eu já pesquisei várias vezes no Google, inclusive antes de começar a escrever este texto e nenhuma resposta foi encontrada.

Então meu caro amigo, caso você saiba que maldição significa “Corroda-se”, por favor, manifeste-se e deixe-me apreciar a sua sabedoria.

Por muito tempo tive vergonha de ter esta dúvida. Na minha infância eu jamais perguntaria o significado desta palavra, pois eu sabia que todos iriam rir de mim e da minha inocência. (Da mesma forma que riram, a não muito tempo, quando eu contei que achava que 4 por 4 da música do Mr. Catra era um carro com tração nas quatro rodas).

Mas um dia, resolvi me libertar desta vergonha e perguntei pra minha irmã mais velha que confessou que também não sabia. Fiquei pasma!

Esse dia foi o marco para minha libertação, pois foi quando eu percebi que eu não era a única que não sabia o que era “Corroda-se” e me senti na obrigação de pesquisar e divulgar a resposta tão logo eu a descobrisse.

Porém, como já dito acima, pesquisei... pesquisei...e de nada adiantou. Falhei nesta tarefa e recorro à ajuda de vocês universitários (ou não) para dar um fim a esta dúvida.

Tá, tudo bem, neste momento você deve estar com vontade de falar um “foda-se” pra minha dúvida. No entanto, te aconselho e não fazer isto, pois é essa palavrinha mágica que você pensou em dizer que desperta toda a curiosidade do meu ser.

Como já dito anteriormente, tenho total noção de que essa dúvida não propósito e do quão idiota posso parecer procurando significado para algo tão inútil. Mas nada posso fazer já que ainda há resquícios de uma criança curiosa dentro de mim e é minha obrigação saciar a dúvida que ainda não a deixa em paz.


Vento

Um homem para chamar de seu

É fato, já diagnosticado e comprovado. O mais importante das nossas vidas é com quem iremos nos casar. Nem adianta dizer que é a profissão. Porque não é. Quantos filmes você vê sobre pessoas que estão indecisas entre serem médicos ou artista plástico? Agora me conta quantos falam sobre encontrar a pessoa certa para se viver feliz para sempre? Então, a gente sabe que a vida real não é bem assim. Mas a ficção é o processo catártico dos nossos desejos. Não são apenas as mulheres que dão suspiros na frente da tela entre os beijos apaixonados de Leonardo DiCaprio e Kate Winslet . Tudo bem, não é exatamente suspiro que os homens dão ao verem Scarlet Johanson se pegando com a Penélope Cruz, mas eles também têm seus sonhos românticos.

Existe uma coisa, que podem ter certeza, todos nós vamos ter durante a vida, e não é catapora, nem gripe. É a frustração amorosa. Quem nunca se apaixonou pela vizinha gostosona e tudo que conseguiu foi um “Bom dia!”, ou então, pelo professor do colégio e tudo que recebeu foi um “Muito bom”, por você ter respondido certo a questão. Bem é uma condição geral, nascemos, crescemos e temos correr para encontrar o ator principal da nossa história.

Tudo começa na infância, quando aprendemos que não existe amizade entre sexos diferentes. Pois, estamos brincando com um amiguinho, e nossos pais já começam com a ladainha: “Ohn... Olha o namoradinho dela, que bonitinho e blá, blá, blá...”. Assim, a gente começa a detestar os garotos, apenas para não passar por aquela pagação de mico. Mas a gente cresce e ocorre o inverso. Nossos pais afastam qualquer possibilidade de namoro até os 18 anos. Portanto, tenho a tese que a nossa vida, basicamente, consiste em nascer, sofrer, e se desesperar até conseguir um casamento. Estudos, trabalhos são apenas laboratório para aparecer bem na tela ao lado de um bonitão. No meu caso... Bem, terei que exemplificar por meio da minha história para vocês terem certeza que esta não é apenas uma hipótese, mas uma verdade comprovada cientificamente.

O percurso em busca do ator perfeito começa cedo. A gente passa a maior parte da nossa vida em papéis ridículos e contracenando com vários coadjuvantes. Ganhei o meu primeiro papel aos dez anos. Eu estava sentada na portaria do colégio, esperando o meu pai me buscar, quando o avistei. Cabelo em corte assa delta, pele branca e uma pinta do lado direito do lábio superior. Essas foram informações suficientes para eu me apaixonar perdidamente em segundos. Naquele dia, ao chegar em casa, corri para o meu diário e escrevi: “Não sei nada sobre ele, nome, idade ou endereço, mas estou completamente apaixonada pelo menino da pinta do lado direito do lábio superior”. E pronto, assim ficou registrado o começo da minha primeira e devastadora paixão. Que realmente devastou as minhas notas na escola, pois o dia que não estava sonhando acordada, eu passava o tempo tentando descobrir coisas sobre o tal rapazinho.

Primeiro comecei a segui-lo depois do recreio. Depois montei guarda onde colocavam as cadernetas, para descobrir a identidade da criatura que dominava as folhas do meu diário: “Eu amo o menino da pinta do lado direito do lábio superior. Eu amo o menino da pinta do lado direito do lábio superior,...”. Todo dia o inspetor olhava pra mim desconfiado e eu sorria. Às vezes, ele me olhava com as sobrancelhas já franzidas e eu dava sorrisinho bege. Roubar uma caderneta é como assaltar um condomínio fechado na Barra. Como atravessar a mesa de carimbos do inspetor? Um dia tive uma idéia. Fingi que ia amarrar o tênis e apoiei o pé em baixo da mesa e a forcei para o meu lado. Ela não se moveu. Coloquei mais força. Ela sacolejou. Saco! Meti a mão e virei tudo de uma vez no chão. Páááá. Inclusive, virei junto. Caderneta para todo lado, um inspetor furioso, e alunos rindo muito alto. Não me importei, afinal, era uma prova de amor. E eu consegui! Entre milhares de fotinhas de rostos feios no chão, lá estava a dele.

Agapito? Agapito Leite Troina Neto. 10 de agosto de 1976. Rua General Domiciliano Ramos, 171, Pau Ferro. Telefone: 2250.6969. Filiação... a caderneta voou da minha mão no momento em que eu ia anotar o nome da minha futura sogra. Fui mandada para sala de aula. Por que o indivíduo tinha que se chamar Agapito? Existe tanto nome bonito. Sempre sonhei em me apaixonar por Paulo ou Raul. Logo, as pessoas souberam da minha platônica paixão. Óbvio que as piadinhas surgiram, era: “fulaninha gosta de agarrar pinto” pra lá, “fulaninha gosta de leite do pinto” pra cá. Nome infeliz. Foram meses de embromação, eu morria de vergonha que ele soubesse que eu o namorava escondido. Mas, vocês se lembram da época de colégio, né? Ele ficou sabendo e tacou um baldo de granizo na minha cabeça. Palavras como pirralha, feia e sem peito ressoam na minha memória até hoje. Crianças são tão cruéis. Não acredito que levei um fora de alguém chamado Agapito. Terminou com muitas lágrimas e frases no meu diário, caderno e agenda: “Por que ele não me ama?”. A vida seguiu.

Não vou contar de cada frustração amorosa e pés na bunda que eu levei. Isso daria um filme de Woody Allen. Passei cinco anos sem querer saber do sexo aposto. Até que me apresentaram um roteiro muito interessante, não teve como recusar. Sinopse: Professor e aluna. Ele manda mensagens românticas, flores, telefonemas no meio da tarde, milhares de elogios e tudo para ganhar apenas um beijo. Você, a mocinha encantada, acredita que é irresistível e cede. Qual é a próxima cena? Você descobre que ele tem outra namorada. Há três anos. E no dia do aniversário dele, que ele quis passar com a família e não pode lhe ver, eles estavam viajando juntos. Final feliz: Eles se casam e você tem toda vida pela frente. Mais choros e postagens depressivas no blog.

Passamos por muitos coadjuvantes durante a história. Um deles era um cara que me amava desesperadamente, lambia meus pés, fazia o que eu mandava, me dava presentes a cada semana e metade do salário dele era direcionado a mim. Conclusão, eu o achava um panaca sem personalidade, o trai, e terminei com ele no nosso aniversário de seis meses de namoro. Comecei a sair com outro. Este não confiava em mim, não me pagava nada, reclama quando eu deixava de pintar as unhas e até de um fio desarrumado do meu cabelo. Uma espinha na testa! Me apaixonei perdidamente. Ele me chamava de egoísta, eu dizia que ele era um “cabeça-dura”. Ele trabalhava o dia inteiro e eu vivia nas chopadas da faculdade. Portanto, em seis meses, seis términos. Por fim, ele me trocou por uma mulher dez anos mais velha, engenheira e rica.

Nada mais de relacionamentos sérios e a minha idade aumentando. Minha mãe me mandava arrumar um homem. Eu comecei a olhar minha lista do MSN atrás de algum atrativo esquecido dos tempos da escola, nada. Lista do Orkut, entre mais de 500 pessoas, todos os coleguinhas bonitinhos tinham pendurado no pescoço uma patricinha com franjinha no cabelo. Frequentei boates e boates. Essa foi a época dos figurantes, você acaba aceitando qualquer papel, porque você não tem mais unhas e seu cabelo está caindo. Eles até ligavam no dia seguinte e marcávamos alguma coisa para o próximo fim de semana. Mas logo se perdia o interesse. Eu não ligava por orgulho. Eles não ligavam por que viam que não ia me levar para cama no terceiro, nem no quarto, nem no quinto encontro. Minha mãe já dizia: Quer arrumar namorado em festa? Só em festa de família. Na night, as pessoas só querem refeição para uma noite e a self-service.

Existe tempo pra tudo. Há tempo para você esnobar e o tempo de aceitar qualquer coisa que aparecer. Infelizmente para os homens as regras funcionam diferentes. Aos trinta anos estamos acabadas. Somos olhadas numa boate como espécie de animal nocivo e em extinção. Na igreja somos julgadas como beata contra a vontade de Deus. Como não crescestes e multiplicastes, mulher? A sociedade te vê como a mal amada ou semelhantes piores. Ou vai dizer que você nunca ouviu dizerem que tal professora é um carrasco por falta de homem? Hein? Sabe por quê? Pois desde pequenas aprendemos a encenar fazendo comidinha e a cuidando da casa e dos bonequinhos. Então, nunca conseguiremos o Oscar sem alguém para contracenar essas cenas. Conclusão geral: Não há saída, na verdade, todo mundo quer um homem para chamar de seu.


Raposa do Pequeno Príncipe

De volta para minha terra

No dia em que vim de Riachão de Jacuípe pensei que minha vida estaria solucionada. Acho bom fazer uma pausa já aqui para explicações. Minha cidade é rica, grande e importante, quase importada. Tenho provas vivas, na memória. Na época, lembro bem, as fazendas tinham das agriculturas de maior avanço que se podia ver. É bom que fique claro.

Mas vamos voltando pro que interessa. Não vim aqui me dar ao trabalho de falar das importâncias de minha terra, até porque são óbvias. O assunto é bem que outro.

Pois vinha eu para o Rio de Janeiro, em pensamento mais leve impossível, em formato de divagações distantes exatamente isso: “Agora, sim, minha vida está solucionada”. Penso hoje que, apesar de toda a boa educação de minha origem, educação sem igual pelas professoras do meu Riacho, mal devia saber eu o que realmente significava “solução”. Não falo daquelas químicas que se criam nesses laboratórios de avançadas pesquisas daqui, mas da resolução, mesmo, entende? Ter a vida feita. Antes fosse a solução laboratorial. Eu bem que jogava dos ácidos mais corrosivos em todos esses ônibus, pra eles virarem de miniatura pra criança brincar. É só pro que servem. Pois era disso que me referia quando vim aqui dizendo que queria voltar pra minha terra natural, nada desse asfalto todo que só roda sobrevive, ferradura gasta rapidinho. Esses meios de transporte duros como o chão que andam tão me tornando uma pessoa que eu não era quando de lá vim, com meu pensamento mole de sonho luminoso da cidade.

- Então, como foi que você passou a querer voltar?

Vou te contar como...

Cheguei aqui logo, com meu jegue que de mais resistência não havia. São os jegues de Jacuípe, fortes filhos dos cavalos bonitos de fazendeiros da História passada. O combustível deles é só mato do caminho, e o mato não precisa mudar de cor do verde pro azul e ainda estar acrescentado de mais e mais moedinhas pra que eles se deixem ser montados e saiam andando. Eles saem quando o jacuipenho bem quer e precisa. Às vezes é só dar uma pressionada, uma apertadinha a mais na barriga que eles logo vão. Com ônibus não é assim. Pressiona o motorista, aperta o despachante da tropa, pode dar até chute na lataria daquela porcaria, nem adianta... É só quando eles querem. Ou melhor, como bem repetiu pra mim o trocador da última vez: “O horário de partida é sete horas e 42 minutos”.

- Muito bem, então porque você quer voltar pra sua terra mesmo?

É que eu moro nos arredores do centro, como aqui chamam de nome bonito, “periferia”. Acontece que pra chegar no centro, que é onde consegui bom emprego, preciso pegar dois burros,..digo, ônibus! Aquele meu jegue, lembra? Pois ele ficou pra trás, numa cidadela de mais mato, porque achei que aqui, coitado, ia ter que comer capim gelado de geladeira. Então eu assumi que precisava de ônibus. Pensei “Mas quanto avanço ótimo! Meus caminhos vão ser mais rápidos e meu esforço vai ser nenhum..!”. Mal sabia, mal sabia que dali só ia querer meu jegue e terra muito molhada, a única coisa que faria ele empacar no caminho de volta...Porque relógio, relógio ele nem sabia o que era..!

- Então..?

Então eu preciso do que hoje vejo como uma lata de ferro duro, desconfortável e sufocante que funciona pela hora. Não uma, mas duas! E é essa combinação que trás o problema. A hora e o número. O número dois... Não tá entendendo, né? Pois meus colegas de infância já teriam entendido, nosso raciocínio lá era treinado pra ser rápido. É que eu saio de casa e pego um ônibus até mais perto e depois outro pro trabalho. Acontece que o primeiro ônibus sempre saia atrasado. Eu passei a não chegar a tempo de pegar o segundo, que de lá ta saindo quando no outro eu to chegando. Desde então eu tenho esse problema, e tenho que ficar lá, em pé, esperando o próximo que só sai depois de 42 minutos, que eu sempre penso que podia estar usando pra adiantar as minhas coisas, o meu dia. Coisa que não se pensa em Riachão, mas que os atrasos dos transportes rápidos te ensinam a pensar.

- E então, o que você concluiu disso..?

Calma, calma que a coisa só piora. O que acontece é que, quanto mais se chega perto de consertar as coisas e elas ainda não funcionam, pior. Nessa cidade do Rio é muito assim. As coisas são quase consertadas, ficam cada vez mais quase funcionando. E isso é que mais trás irritação, coisa que pouco se sente em Riachão, mas que o tempo perdido na falta de tempo te ensina a sentir. Foi o que pouco a pouco comecei a sentir e lá fui reclamar. Comecei aos poucos, pedindo que saíssem cedo, depois fui quase chorando, e então quase gritando. Os atrasos diminuíram, mas ainda estavam lá, e pior: agora quando o primeiro ônibus tava chegando eu via o segundo partindo, cada vez mais quase comigo, mas ainda sem mim. Até que a diferença passou a ser um minuto! Por um mísero minutinho eu não pegava o segundo ônibus. Aquilo me amargou mais e mais até o dia que perdi minhas estribeiras todas! Fui e gritei mesmo, coloquei dedo na cara e tudo. O despachante ficou até vesgo, como se tivesse procurando alguma coisa no meu dedo pra se justificar!

- É verdade... Mas, então, conclusão? Daqui a pouco já vamos pro próximo bloco!

Pois bem, tudo bem... No dia seguinte, eles solucionaram o problema. Deles. Atrasaram o horário oficial de partida pra um minuto mais tarde. O meu minutinho! E aí sim, então, passaram a sair estritamente no horário exato: seis horas e um minuto.

Uma hora antes da hora que chega ao primeiro destino.

Um minuto depois da partida do segundo ônibus.

41 minutos de espera urbana oficial para mim.

Todos os dias. É por isso que eu percebi que isso não é vida, sabe, essa espera toda que na minha terra não me incomoda, mas que aqui é perda de segundos doloridos contra o relógio, que cheiram a óleo diesel... Eu preferia o esterco fresco. Por isso, Gugu, vim aqui no “De volta para minha terra”... preciso voltar pra Riachão de Jacuípe!


Joaquim Lima

Sinceridade infantil

Dizem que criança não mente, e acho mesmo que todos vocês já devem ter presenciado um momento de “sinceridade infantil”. É trágico, torça para nunca ser alvo de um desses arroubos de franqueza. Eu tenho uma sobrinha com sete anos e ela consegue ser mais ácida do que uma fita com piadas do Costinha.

Nada me tira da cabeça que a babá dela na verdade tá dissimulando uma promessa ou cumprindo um carma. A pobre Shirley é meio gordinha, é verdade. Mas a menina não dá descanso, outro dia meu cunhado estava recebendo vários amigos em casa para um videokê e a Shirley quebrou uma cadeira. No ato, sem pestanejar, sem perder o timing a menina disparou: “Droga, Shirley! É a 3ª essa semana, vou ficar sem ter onde sentar”.

A Shirley passou por todas as tonalidades possíveis de vermelho. E por falar em cores, mais novinha quando ela ainda não sabia todos os nomes de cores, ela virou pra um dos tios –um negro azulão – e mandou na lata: “Tio Carlinhos, você é tão lindo assim todo roxo!”. Mas família não é termômetro pra isso, todo mundo dá risada e acha isso uma gracinha.

A verdadeira escola da vida é o primário. É lá que se aplica a lei do mais forte e a máxima de que “aquilo que vai, volta”. Com essa mania de perseguição aos gordinhos ela conseguiu uma bunda inchada. Virou pra uma menina barrigudinha e disse que ela tava grávida. “Quais vão ser os nomes dos seus gêmeos? Há há há. *risadinha escrota de criança chata*”. Levou um belo pontapé no traseiro e ganhou um bilhete na agenda que pedia pra minha irmã ir lá conversar com a “tia”.

A última dela foi demais. Minha irmã foi ao mercado fazer compras – e eu não sei porque as pessoas insistem em fazer compras com filho pequeno se já ficou mais do que comprovado que isso dá merda em 101% dos casos – e ela pediu porque pediu pra passar na casa a minha avó, a “bisa”. Tanto fez que a mãe dela resolveu ir. Chegou lá e minha avó disse “Oi querida, veio visitar a velha?” ao que minha irmã foi logo respondendo “É vozinha, vim matar a saudade”. Não é que a garota emplacou um: “Mentira, bisa. Ela nem queria vir, só eu e ela só me trouxe porque não tinha almoço pronto lá em casa”.


Srta. Bones I

Crônicas de Frufru

Tenho um poodle-toy macho chamado Frufru. Frufru é um daqueles cachorros únicos, sabe? É ele quem me acorda irremediavelmente às oitos horas todas as manhãs e quem me lembra de ir às compras quando falta algo na despensa de casa. Também é Frufru quem me avisa se alguém bate à porta, desde que a campainha quebrou. O alarme de Frufru é seu inconfundível latido, seco e veemente. Antes, ele rosna. Segundos depois late como um animal em desespero, prestes a ser executado. O veterinário explicou que o latido reflete a personalidade do cachorro. O meu é, sem dúvida, impaciente. Talvez ele o seja por nunca na vida ter cruzado. Mas é que Frufru jamais se interessou por cadela alguma. Sempre que andamos na rua juntos ele esnoba todas as fêmeas de sua espécie. A verdade é que Frufru, em sua ânsia companheira, nunca demonstrou interesse em participar da reprodução canina. Desculpe, preciso me corrigir. Ele nunca - havia - demonstrado interesse, até um episódio peculiar ocorrido três dias atrás.

Estávamos na fila do mercado, para pagar pelos hambúrgueres que Frufru me lembrara de comprar algumas horas antes. Foi quando vimos, logo à frente, dona Milú. Dona Milú era a vizinha de minha mãe, que eu e meu cachorro visitávamos duas vezes por semana. Frufru gostava muito de ir lá. Ele encostava a cabecinha no parapeito da janela e observava, sem cessar, os movimentos da casa ao lado, onde dona Milú invariavelmente cozinhava. No mercado, ao notar a presença de dona Milú, Frufru começou a latir ansiosamente. Foi quando percebi que ele latia de maneira diferente. Não era mais aquele ruído seco e afobado. Era um latido mais calmo e paciente, diria que até um pouco sedutor.

Há anos, dona Milú mantinha um penteado impecável, indo com freqüência ao salão de beleza, me contara mamãe uma vez, com um pontinho de inveja. Então me dei conta de que Frufru não tirava os olhos dos cabelos de dona Milú, e estava a ponto de saltar em cima deles. Quando consegui exercer certo controle sobre a ânsia de meu cão, finalmente tudo fez sentido. Os cabelos grisalhos e longos de dona Milú, presos numa espiral roliça que ia quase até sua testa, firmados com alguns grampos e certamente um tubo inteiro de laquê, eram uma autêntica poodle-toy fêmea. E Frufru estava perdidamente apaixonado pela poodle-toy capilar de dona Milú.

Cumprimentei dona Milú e fui embora o mais rápido possível, deixando os hambúrgueres para outra ocasião. Saí do supermercado direto para o Petshop. Era preciso arranjar uma namorada para Frufru antes que ele tentasse outra vez molestar o coque de dona Milú. Não adiantou. Ele se recusava a flertar com todas as cadelinhas, das tosadas às peludas, das velhas às novas, das grandes às pequenas. Até outras raças eu tentei, mas não surtiu efeito algum. Frufru estava decidido. Depois de perder a hora três vezes numa mesma semana, me preocupei. Meu cachorro havia parado de latir não apenas para me acordar, mas também para que eu atendesse a porta e fosse ao mercado. Ele estava deprimido, era visível. Tomei uma decisão, provavelmente a mais difícil de minha vida. Dei Frufru para dona Milú. Agora, toda vez que visito mamãe, bato na porta ao lado, para rever meu cãozinho. O coque de dona Milú está sempre desarrumado...


Bertholdo

Questão de segurança

Cerca de alguns dias atrás, enquanto conversava com um antigo companheiro de guerra, tive de parar para refletir acerca de um assunto que foi posto em questão. Quando perguntado sobre que tipo de argumento este meu velho companheiro de guerra usaria em determinado momento de uma discussão política, a resposta dele foi simples: "Eu jogaria uma bomba nele!". Diante da reação de estranhamento de todos os presentes, ele emendou: "Que tipo de argumento seria melhor do que uma bomba?". Afinal, que tipo?

Regredindo um pouco, comecei a pensar em algumas ocasiões na vida de alguém em que ter uma bomba não seria uma má idéia. Por exemplo, não seria ótimo ter uma bomba quando mandavam que parássemos de brincar para tomar banho ou fazer a lição de casa? Ou ainda mais quando nos cobravam essa lição no colégio? Quando o fortão do colégio dizia que queria jogar bola no seu time e no seu lugar? Ou até passar na frente na fila da cantina? A bomba, afinal, mostra-se um argumento poderoso, principalmente para crianças. "Filho, larga esse carrinho e vai tomar banho!", "Nem vem mãe! Eu tenho uma bomba e não há nada que você possa fazer que mude isso!". E talvez até a rebeldia adolescente ganhasse algum sentido.

O tempo vai passando e o indivíduo cresce e naturalmente seus objetivos se alteram, mas mesmo assim a bomba ainda se apresenta impecavelmente de novo como argumento. Imagine um rapaz nervoso de tremer as pernas ao pedir um beijo (o que seria o seu primeiro) para uma menina. Agora imagine este mesmo rapaz com uma bomba no bolso, que será usada em caso de "emergência". As pernas dele naturalmente já não estarão tremendo. É tudo uma questão de segurança. "Não vai me dar um beijo é? Olha que eu jogo essa bomba em você!". Tomemos como exemplo também o período do vestibular. Neste caso, a bomba seria um argumento tão simples que beira o ridículo. Bastaria enviaruma carta fazendo suas solicitações à universidade de seu gosto, caso contrário ninguém mais estudaria neste local. Ou até, quem sabe, explodir os principais colégios da cidade da tal universidade.

E não adianta acrescer números à idade do indivíduo "em questão" que a bomba vai continuar sendo o melhor argumento. Ela pode ser útil desde o momento em que se quer explodir o (a) cônjuge, o chefe, a sogra, as ruas e estradas por causa do trânsito, o policial abusado, o político safado, ou até o bandidinho que tenta te ameaçar com uma arminha de fogo. Afinal, quando se tem uma bomba, o que temer? Tenho que aplaudir esse meu antigo companheiro de guerra. Como eu nunca havia pensado na bomba com toda esse poder argumentativo? Afinal, não é assim que povos inteiros são convencidos que suas culturas são erradas?


Rambo

História de mau gosto

Estou apaixonada. Mas ele é feio. Muito. Seria mais fácil se eu não tivesse que me desculpar por isso toda hora.

- E aí amiga, como ele é?

- Normal, mas é suuper gente boa.

-Ah...

O próximo passo é baixar a cabeça e desconversar. Pior é o momento da apresentação. O cara sempre vai ser invisível nos lugares. Fato! Principalmente se houver muita gente.

- Cadê ele?

- Aquele ali de cinza.

- Onde?

- Ali, encostado na pilastra.

- Aquele moreno forte de Ray-ban??? Se deu bem, hein...

- Não, o de óculos de grau.

Silêncio...

Nunca imaginei que a beleza fosse tão importante para as pessoas e para mim. Já pensei em não mostrá – lo às amigas. Não deu certo. Melhor assumir o mau gosto do que ter fama de encalhada com namorado imaginário.

O mundo é mesmo cruel. Não há espaço para a beleza interior na era dos anabolizantes, chapinha e silicone. E quem se mistura com feio, feio é.

E como explicar isso aos homens? Porque, para eles, quem anda com feio, mercenária é. Eles sempre pensam que o cara tem dinheiro.

Não me importo. Não é uma coisa, nem outra. Beleza acaba. A do meu namorado se resumiu a ser um lindo bebê. Mas o que fazer se é ele que meus olhos procuram todo o tempo, em cada rua, todo dia? Se é a voz dele que precisa ser ouvida para eu ficar em paz. Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz. E ninguém mais.


Papel

Jogo do cidadão

Um prazer que tenho na minha vida é observar as pessoas. É impressionante como são tão diferentes e tão iguais ao mesmo tempo. E um lugar onde várias dessas pessoas se encontram é o ônibus. Realmente, os transportes coletivos em geral são, no mínimo, estranhos. Pessoas que nunca se viram na vida se aglomeram e passam horas juntas (tudo bem que podem ser minutos, mas eu gosto dos extremos) sem nunca terem se visto na vida, e sem trocar nenhuma palavra. Acho que uma sensação bem parecida de quando você está no ônibus é a de quando você está em um elevador. No momento em que pisa ao momento em que as portas se abrem e você sai, a sensação de desconforto está presente, você fica olhando para a cara das pessoas e não tem nada para falar, às vezes solta um sorriso só para se mostrar mais simpático, mas não passa disso. No ônibus idem, mas essa sensação dura muito mais tempo e, além disso, entrar e sair do ônibus se mostra muitas vezes como uma tarefa difícil.

Primeira fase: entrar no ônibus. Quando você chega no ponto de ônibus já começa a tortura. É bem comum ter linhas que demoram muito a passar, e outras que passam um ônibus de cinco em cinco minutos e entram três pessoas. E justamente as linhas que demoram a passar são sempre as mais requisitadas. Você fica prestando atenção no horizonte e vê que lá atrás o seu ônibus está vindo (sempre, é claro, em alta velocidade). Você se prepara para fazer o sinal e tenta ficar em um lugar estratégico para ser a primeira a entrar. O ônibus para, todos correm para a porta, e sonham com um lindo lugar para sentar. Já na entrada, acontece aquele típico empurra-empurra, ordenado pelo motorista que quer fechar a porta e dar a partida, No arranque muitas pessoas voam, e quase caem, por mais trágico que pareça, isso já é normal. Passado o trocador vem a próxima fase. E detalhe, algumas vezes pode ser que você não consiga passar da primeira fase, já que o ônibus pode estar lotado e o motorista falar que não dá para subir mais ninguém, ou então, quando você avista o ônibus no horizonte e ele faz uma manobra espetacular cortando todos os ônibus que estão parados no ponto, e passa ignorando o seu sinal. É, realmente, nessa hora a raiva é tão grande que vale xingar o motorista e todas as pessoas do mundo.

Segunda fase: conseguir um lugar para sentar. Embora essa fase tenha controvérsias, eu ainda acredito que sentar é sempre melhor do que ficar de pé. Quando você passa do trocador e acha um lugar, é melhor sentar logo, pois se você pensar um pouco alguém pode roubar o seu lugar. Também, pode acontecer de o ônibus estar vazio e você poder escolher entre a janela ou o corredor. Essa duvida muitas vezes é cruel. Sentar na janela é bom, porque se você der aquela cochilada pode apoiar a cabeça na janela, mas é ruim porque o medo de ser assaltado é maior, já que agora nem é preciso entrar no ônibus para assaltar. O assaltante pode fazer isso pela janela é só aproveitar quando o ônibus fica um tempo maior parado no ponto e abordar o passageiro distraído apoiado na janela. Ótimo não?! Já sentar no corredor é bom porque os riscos de ser assaltado são menores, mas é ruim porque normalmente a pessoa que der aquela cochilada do seu lado pode usar seu ombro de travesseiro. E quando o ônibus fica cheio você acaba servindo de porta-mochila, porta-pasta e porta-bolsa das pessoas que estão no corredor. Além disso, pode acontecer de entrarem no ônibus idosos e gestantes, ou adultos com criança no colo. Nessa hora, os passageiros se entre olham para ver quem vai tomar a iniciativa. Demora um tempo, mas sempre alguém levanta. Ufa, não foi você. Nessa fase, pode ser que você não consiga sentar, mas mesmo ficar em pé em algumas linhas pode ser considerar uma vitória, não desanime e siga para a próxima fase.

Terceira fase: coisas para se fazer durante a viagem. Essa fase tem uma explicação curta, mas com certeza é a mais demorada para o passageiro. Quando você está no ônibus é comum você passar algumas horas mudo, já que está acompanhado de estranhos. E se você começar a conversar com alguém do nada, a pessoa pode vir a ficar com medo de você, ou te achar um maluco, já que essa atitude é suspeita. Por essa e outras razões é sempre bom carregar com você alguma forma de entretenimento como, livros, jornais, um celular com fone de ouvido, ou algum aparelho de som. Quem consegue ler no ônibus é guerreiro, já que a velocidade sempre alta e as curvas bem mal feitas dificultam a leitura. E, além disso, quando você sai do ônibus percebe que leu apenas duas páginas. Ouvir musica é o melhor conselho, mas também, tem pessoas que perdem a noção. Ouvem a musica as alturas e ainda ficam cantando. Se você está lendo ao lado dessa pessoa, é melhor desistir na hora. A paz da viagem, também, pode ser quebrada pelos vendedores de mentos a um real, dois amendoins cinqüenta centavos, ou três jujubas a um real. Há, também, os que ajudam entidades carentes, de ex-drogados e de idosos e por ai vai. Pode contribuir com o que você tiver. Embora você saiba que essas pessoas estão aí, porque elas podiam estar matando ou podia estar roubando, só o que você queria era um pouco de silêncio, no mínimo apenas o barulho do motor.

Quarta fase: descer do ônibus. Seu ponto final está próximo a viagem está chegando ao fim, mas não pensa que terminou por aí. A última fase nem sempre é tão fácil como se pensa. Com o ônibus lotado, muitas vezes é necessário fazer barra para conseguir chegar até a porta, ou ir empurrando todo mundo e batendo a mochila na cara das pessoas. Que violência, não?! Se você ainda está na terceira fase em pé no corredor, com certeza você vai ser vitima da fúria e da impaciência da pessoa que está na quarta fase. Puxou a cordinha, desceu do ônibus. Ufa, acabou. E parabéns você venceu essa fase e todas as anteriores, você pode ser considerado um cidadão de uma cidade grande. Pena que a vitória dura pouco, e amanhã você deve retomar a primeira fase.


Vivianne Medeiros

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Alguns segredos femininos

Por onde eu ando vejo uma bolsa maravilhosa e caréssima, um sapato perfeito que custa meu salário inteiro, um vestido deslumbrante que causaria inveja até na minha melhor amiga... E isso me deixa desesperada, ainda mais quando eu não tenho dinheiro pra comprar – o que acontece com mais frequência do que eu gostaria porque meu salário nunca dura o mês inteiro. Ai que raiva que isso me dá!

Eu faço sempre o mesmo caminho então passo sempre pelas mesmas lojas. Em uma loja de acessórios tem sempre várias coisas que chamam a minha atenção. Essa semana foi uma bolsa preta grande e linda. Ela fica lá na vitrine se exibindo e me chamando. Eu sempre paro na loja para dar uma paquerada nela, pra ela se sentir mais amada e prometo a ela, todos os dias, no horário de visita, que ela terá um lar quentinho e aconchegante. Às vezes eu me perco olhando a vitrine, mergulhada na minha imaginação, pensando em como ficaria linda e deslumbrante com ela.

Nessa de ficar olhando todas as vitrines de todos os lugares eu me apaixonei por um vestido lindo, mas ele estava total e completamente fora das minhas condições financeiras. Eu sempre passava na loja para olhar pra ele, ver como ele estava, se estava recebendo o devido destaque... Fiquei até amiga da vendedora! Minha obsessão era tanta que uma noite eu sonhei com ele. Sonhei que estava usando o vestido em uma festa, deixando todas as mulheres com invejinha, quando de repente apareceu uma menina com um vestido igual ao meu, até na cor! Isso, numa situação normal, seria o fim da festa. Mas não pra mim, não no meu sonho. Eu pulei em cima da garota, que nem naqueles filmes onde o Presidente dos EUA precisa ser protegido do terrorista, e comecei a brigar com ela. Bati e apanhei, mas pelo menos o meu cabelo e meu vestido continuaram intactos. No final eu venci a briga – afinal era o MEU sonho – e consegui expulsar a garota da festa.

Quando paro para pensar nas minhas “descobertas maravilhosas” eu sempre me pergunto por que as coisas que eu gosto tem que ser tão caras?! Será o dono da loja não tem pena de mim?! Será que ele não pensa que apesar de não ter dinheiro eu também quero andar elegantérrima e de preferência com meu nome bem longe do SPC!? Será que ele não consegue ver que estou ficando profundamente deprimida porque não consigo comprar nessa loja?! Eu estou a um passo de começar a tomar remédio de tarja preta e o dono da loja nem liga pra mim. INSENSSÍVEL!

A essa altura os homens devem estar se perguntando: “Mas as lojas sempre fazem liquidação para acabar com os estoques. Porque ela não espera até lá!?” Por uma simples razão e óbvia meus caros: ninguém vai sentir invejinha da roupa da estação passada.


Mônica Sampaio

domingo, 20 de setembro de 2009

Dor de amor

Eu gosto de causos. Conto causos à noite, assim, perto da fogueira, ou de manhã, quando acordo, com o cacarejo singelo da minha esposa. É, da minha esposa. A gente até cria umas galinhas aqui em casa - Marcelina, Eva e Gigi - mas o cacarejo que me acorda, pontualmente, todo dia, às cinco e meia, é o da minha esposa.

Maria Angélica sempre foi doce assim. A gente se conheceu num baile da venda do seu Martins faz uns trinta e dois anos, e desde aquela época o seu jeito meigo, doce e singelo me agradava. Muito singelo. Não gosto muito de contar essa história porque tem gente que até acha que é causo meu, história inventada dessas que eu conto. Mas não é não.

Tinha o baile da fazenda do seu Martins, festa boa que todo ano ele fazia pros cantos de São João da Brasa, perto de Reis do Sul. Era coisa de matar um boi por pessoa, pra sair todo mundo satisfeito. A família toda da Maria Angélica foi pro baile esse dia. Eu fui também, com Rita de Cássia, minha irmã.

Cheguei lá e de longe já bati o olho na Maria Angélica. A saia rodada bonita, cinto, bolsa, colar, pulseira, boné, cachecol, outro cinto, casaco e meia eram a combinação perfeita pra minha madame de filme de bacana. Até hoje, Rita de Cássia me fala que eu não tinha nada que ter ido tirar a Maria Angélica lá de cima do telhado do curral, não tinha mesmo, de forma nenhuma. Mas como eu ia saber se essa não seria a prova de amor que ela precisava pra se apaixonar por mim? Fui e tirei.

A nossa história de amor é bonita assim mesmo, e começou nesse dia com meu olho roxo, carinho da mão leve de Gegé. Ou Gélinha, minha anja do céu. Chamo minha flor de nome carinhoso, sou homem carinhoso. Mas sou homem. De verdade. Ainda tem cabra por aí que acha que homem que é homem tem que ser ruim, bater em mulher e gritar. Sou homem e sou bom, não grito, e às vezes até apanho. Prova da minha macheza, da minha bondade. Prefiro apanhar, ah prefiro! Não tenho coragem - e meu São Joaquim é prova - de que eu nunca bati, nem com uma flor que fosse, na minha Angélica. E é sorte dela eu ser bom assim, porque a minha força é forte, das mais fortes, e ai de quem sente o peso do meu braço.

Gélinha nunca há de sentir, nunca! Porque nosso amor é de verdade. Coisa bonita é ver a gente acordar, como eu falava pro leitor no começo dessa história. É coisa de emoção. Eu sinto até um negócio no peito assim, forte, uma pontada. Comentei outro dia com Dr. Teles e ele me passou um chá calmativo pra eu tomar. Falou que é coisa de gente que emociona, é mal de coração mole. Tomo o chá quando me lembro, mas quando esqueço ainda sinto aquela dor.

As galinhas ficam com ciúme aqui em casa. As três. Já falei com elas que não dá. Gélinha canta porque gosta, e o que eu posso fazer se ela cacareja mais bonito que as três galinhas juntas? Falei com a Marcelina, com Eva e com Gigi que o ovo delas pelo menos é bom - cheio de sustância - e compensa o canto, que é bem mais fraco que o de Maria Angélica. Incomparativo, já falei. O troféu do ano passado eu dei pra Gigi, de compensação, só pra ela não sentir mal e não querer mais colocar ovo. Mas segredei pra Gégé que era ela que cantava melhor, que aquilo era tudo encenação. Precisava deixar as coisas claras.

Mas o nosso acordar é bonito e é romântico. Quem é que não vai gostar de acordar todo dia com a voz da mulher amada? Me sinto muito bem de ter dor de cabeça e de ouvido o dia inteiro, sinto que nem dói, é dor de amor.


Maria Sofia

Banheiro feminino

Todo homem já se perguntou pelo menos uma vez na vida: por que as mulheres sempre vão ao banheiro acompanhadas? Sempre no mínimo em dupla. Todo representante do sexo masculino mesmo depois de anos e anos de evolução, se intriga em ver duas, três ou muitas irem ao toalete - como preferimos chamar - juntas, como um time de futebol entrando de mãos dadas no gramado do Maracanã. Tentarei em algumas linhas explicar para você, caro leitor, um fenômeno cada vez mais comum na vida da mulher moderna.

Se a pessoa que chamamos é nossa amiga, com certeza vamos ao banheiro para falar de vocês homens. Primeiro falamos mal, procuramos algum defeito. Depois podemos até falar bem, mas sem elogiar muito. Talvez você venha a saber mais tarde o que fofocamos, pois cada dia que passa estamos mais diretas. Mas sempre cabe deixar o sexo oposto curioso. E não venha dizer que curiosidade é coisa de mulher, porque está mais que provado que homens são sim curiosos.

Agora, se não conhecemos a nossa companheira de banheiro, de duas uma. Ou queremos conhecê-la melhor ou ela representa algum perigo para nós. Seria loucura deixá-la sozinha conversando com vários homens, principalmente se ela for o que vocês costumam chamar de “gostosa”. Para nós não passa de um corpo que é resultado de horas de malhação. Na verdade, na maioria das vezes a achamos “normalzinha”, mas sabemos reconhecer um exemplar que é considerado pelos homens uma “gostosa”. Farejamos o perigo de longe, é uma espécie de instinto de sobrevivência. Ah, vale lembrar que se a mocreia for ainda boa de papo, a situação se agrava muito.

No caso de irmos ao banheiro em grupos, nosso objetivo geralmente vai além de falar de homens ou se livrar do perigo. Estamos bolando uma estratégia de como agiremos depois de sair de lá. Quem vai conversar com quem ou até como fugir daquele garoto chato. Depois de cerca de dez minutos - é claro que não levamos esse tempo todo fazendo xixi - saímos de lá lindas e cheirosas prontas para darmos prosseguimento ao nosso plano. Um grupo de mulheres quando sai do banheiro pode ser facilmente confundido a um batalhão pronto para a guerra. E você, representante do sexo oposto, se sentirá como um adversário que não tem a menor ideia da estratégia de seu oponente. Mas não fique preocupado, é isso mesmo que queremos.

Sim, falamos algumas coisas que os homens não podem ouvir. Mas por que mesmo quando estamos em uma mesa só de mulheres não vamos sozinhas? Essa pergunta é ainda mais fácil de responder, porque vamos falar mal umas das outras. Dizer que não foi com a cara da fulana ou que a roupa da cicrana é horrorosa! Acredito que esta parte da questão até - eu digo até - os homens já sabiam.

Não, não temos medo de ir ao lavatório - já usei banheiro e toalete muitas vezes e estava ficando chato - sozinhas. Até porque, banheiro feminino tem sempre uma fila imensa, então, o medo da solidão não é o problema. E por que se formam as filas? Porque são diversas duplas, trios, quartetos, enfim, grupos de mulheres para fazer ao mesmo tempo tudo isso que eu já expliquei.

Não, também não vamos pedir o batom emprestado da amiga. Competitivas como somos, seria inadmissível voltarmos a mesa usando o mesmo batom da nossa companheira. Pode ser que os homens não reparem, como de fato não reparam, mas com toda certeza alguma mulher vai notar e na próxima jornada ao banheiro com a amiga, fofocar com ela. Nos vestimos para as outras mulheres, afinal, pros homens qualquer coisa serve. Temos mais medo dos comentários femininos a nosso respeito do que dos masculinos, isso é um fato.

É claro que também atendemos as nossas necessidades fisiológicas, mas isso é apenas um detalhe da ida ao toalete. Uma grande contribuição para o mundo feminino seria a invenção de cabines no mínimo duplas. Não perderíamos tempo e a conversa poderia começar ali mesmo. Mas, por outro lado, isso poderia nos causar um grande transtorno. E se alguma menina do grupo adversário estivesse retocando a maquiagem e ouvindo nossa conversa sem que a gente pudesse ver? Nossos planos iriam por água a baixo e acabaríamos perdendo a guerra.

Algumas perguntas não podem ser respondidas. E com isso tudo que eu disse, outras poderiam ser formuladas. Mas não adianta, quando falamos de mulher os homens ficarão sempre sem entender. Ah, e tem outro detalhe. Eu não disse nem de longe o que se passa no banheiro feminino e vocês nunca saberão. Simplesmente porque os homens não podem entrar!


Mel

Valeu, piloto!

Numa manhã, como outra qualquer, peguei minha pasta que guardava meu estojo e um velho caderno de capa dura, meus óculos de sol, um guarda-chuva dobrável e minha carteira. Marchei em direção ao ponto de ônibus. Não era o mais próximo da minha casa, mas lá passavam os ônibus principais. Hoje teria que ir ao centro, levar e pegar uns documentos. Coisa chata, sabe?

Cheguei à parada do ônibus e como sempre ela estava bem cheia. Pessoas de todas as idades, com os mais diferentes tipos de roupas. Alguns nitidamente iriam trabalhar, outros iam para a escola e os outros poderiam estar somente indo passear. Mas quem passearia às sete horas da manhã de segunda-feira?

Minha atenção foi fisgada por duas colegiais que vestiam saias minúsculas e meias até o joelho. Quem será que foi o depravado que desenhou esse uniformes para alguns dos colégios públicos do Rio de Janeiro? Dava para perceber que as jovens haviam, ainda por cima, dobrado a cintura da saia uma ou duas vezes para que ela ficasse ainda mais curta. Acho engraçado como elas gostam dos olhares dos homens e velhos babões para suas pernas.

O ônibus chegou e eu fui o primeiro a entrar. Como sempre. Todos estavam muito educados essa manhã, eu reparei. Cederam a passagem e não foi difícil encontrar um lugar vago a minha espera. Me sentei ao lado de uma moça muito bonita e bem arrumada. Seu perfume era forte. Ela carregava uma bolsa muito grande e um rádio na mão.

Prum...

- Oi querida.

- Fala gatíssima!

Prum...

- Só pra avisar que estou atrasadíssima hoje. Queria chegar no escritório mais cedo, mas é que ontem o Roberto me levou para jantar num restaurante ma-ra-vi-lhoso em Ipanema e chegamos muito tarde na minha casa.

- Você já levou ele pra sua casa na primeira noite?!

Prum...

- Eu sei... Eu sei... Mas ele não dormiu lá não... Menina, depois eu te conto. Avisa pro Eduardo que eu vou chegar atrasada, dá uma desculpa qualquer?

- Claro amiga!

Prum...

- Ah, obrigada Célia! Um beijão!

- Beijos! Até daqui a pouco!

Acho engraçado como as pessoas não têm mais vergonha de expor em público suas vidas pessoais. Agora todo mundo no ônibus sabia que, possivelmente, a mulher excessivamente perfumada ao meu lado, levava os homens que saía pela primeira vez para a casa. As mais variadas conclusões poderiam ser tiradas disso. Mas isso não era da minha conta. Peguei meu caderno e comecei a fazer minha primeira anotação.

Meu hobby era escrever sobre situações bizarras do cotidiano. Não só bizarras, mas que a meu ver passavam despercebidas na pressa do dia. Por exemplo, as meninas de mini-saias e a Chanel nº5.

Outra situação que me chamou atenção e mereceu destaque em meu caderninho foi a de uma jovem de mais ou menos 25 anos. Ela estava à minha direita, sentada ao lado de uma janela. Ela tinha os cabelos longos e cheios e um problema. A janela mais próxima dela estava escancarada e seus cabelos se desgrenhavam a medida que lufadas de vento entravam. O ônibus desgovernado imprimia tal velocidade que o vento era insuportavelmente forte. Ela tentava fechar a janela e não conseguia. O veículo era velho e suas janelas enferrujadas. Ela não conseguia. Me levantei para tentar ajudá-la e ela ficou muito constrangida.

- Por favor, senhor. Não precisa se incomodar. A janela está emperrada, acho que o jeito é mudar de lugar.

- Mas o ônibus está cheio, senhorita. Fique com meu lugar e eu fico com o seu. Já não tenho mais cabelos para atrapalhar.

- Não, de forma alguma, senhor. Este vento está muito forte.

Um rapaz forte chegou e pronto. Com dois dedos, fechou a janela e colocou um fim ao diálogo.

- Obrigada. Aos dois.

E ela voltou para seu lugar. Para seu aparelho de música. Como se eu nem estivesse lá.

Sentei-me e escrevi. Em determinado momento, me senti envergonhado por não ter conseguido ajudar a moça e me senti um inútil. Fiz sinal para o motorista e fui andando calmamente até o fim do ônibus, me segurando bem nas barras para não cair em uma dessas freadas bruscas. O mesmo jovem forte que ajudou a moça dos cabelos cheios, correu e me ultrapassou. Parou nas escadas, bem próximo a porta de saída e deu um assobio tão alto que meu aparelho auditivo ressonou.

- Campeão! Deixa eu descer aí!

A porta se abriu, no primeiro sinal vermelho em que o ônibus parou.

- Valeu, piloto! Vai com Deus!

Refleti por um segundo. Por que era tão comum as pessoas chamarem um motorista de ônibus de piloto? Como eles chegaram a essa associação? Será por que o ônibus ia tão rápido e tão desembestado que parecia voar?

- Vai descer aí também senhor? – Gritou o cobrador do ônibus, me fazendo retornar ao mundo real.

- Prefiro no ponto, se não se importar.

Desci do ônibus ainda constrangido. Reparei que a jovem me olhava da janela aberta. Ela acenou. Coisa rara. Na maioria das vezes as pessoas somente ignoram a presença dos outros. Engraçado era que seus olhos não pareciam olhar diretamente para mim. Olhei para trás e vi outra menina, igualmente vestida como a jovem do ônibus de roupas caras, e entendi. Não era para mim aquele aceno.

Não ia deixar isto me deprimir. Estava quase no centro e desisti de manter a farsa dos documentos. Iria para outro lugar agora. Iria para a praia do Leblon. Fiz sinal para o 172, já do outro lado da rua. Eu entrei, saquei minha carteira e meu Rio Card Sênior e fui rumo a mais um passeio.

- Valeu, piloto.


Wilma Dantec

Circunferência Abdominal

Não. Eu não vou ao médico. Podem falar o que quiserem. Eu não vou.

Só por causa de uns poucos centímetros a mais no que chamam por aí de circunferência abdominal, eu não vou não. Estou pouco ligando para essa merda. Médico é coisa de otário. Você paga a consulta, paga os remédios e ainda passa por boiolinha. Eu sou homem e não sou frouxo. Não vou ficar me preocupando com esse negócio aí. Como é mesmo o nome? É...Estética, né? Essa tal estética de mulherzinha! Tomar no cu com essa palhaçada. Eu sei me cuidar. Não preciso de um babaca metido a estudado para me dizer o que fazer. Vou tomar um suco. É. Um suquinho natural agora vai fazer bem para o meu corpo. Preciso absorver esses amídios, perídios, essa porra toda que tem nesses iorgutes infantis aí. Isso deve ser bom. Eu só não gosto muito de ir na lanchonete do Pereira. Aquele panaca. Dizem por aí que a birosca dele devia se chamar “mosca feliz”.Panaca e sujismundo. O problema é que essa merda de botequim é a única aqui por perto. Puta que pariu. Aturar esse panaca me chamando de Jojô sem pinto de novo. Só porque eu tirei o pinto da minha mãe! É, a safada traiu meu pai e homem nenhum é corno na minha família! Aí não teve jeito. Fui no cartório e tirei o sobrenome dela do meu nome. Pinto. Que nome de merda! O problema agora é aturar esse imbecil me chamando de Jojô sem pinto. Um dia ainda quebro a cara dele! Mas não vai ter jeito! Vou ter que ir neste muquifo mesmo ou essa porra de circunferência abdominal não vai parar de me infernizar.

-E aí, Pereira? Que suco você tem aí?

-Fala, Jojô! Só no suquinho hoje, é? Eu indicaria um suquinho de açaí, que é bem estimulante. Mas como você é o nosso querido Jojô sem pinto, acho que para você não tem efeito!-E soltou uma gargalhada. Panaca. Filho da mãe. Eu não deveria ter vindo nessa merda. Esse gordo asqueroso com peitinho de mulher! Quem ele acha que é para tirar sarro com minha cara? Vou pular o balcão e sentar a mão nele!

-Não gosto de açaí,não, Pereira. Não tem outro?

-Tem tangerina,abacaxi,mamão e siriquela.

Siriquela?!?! O que será isso? Será que essa baleia está me zoando de novo? Não,não,deve ser. Duas vezes é sacanagem. Porque se ele estiver de novo fazendo piadinha com a minha cara, vai sentir a dor que o Babel sentiu (quando seu irmão o matou ). Eu sou igual ao Caim: Pavio curto. Mas não deve ser isso não. Siriquela... Deve ser algum suco de frutos do mar, né? Essas porras com siri,sei lá. Hoje em dia tem suco de tudo! De laranja com beterraba,couve com limão,clorofila...Eu sinceramente acho que esse suco de clorofila é feito com água da piscina,por isso não bebo essa merda. Mas siriquela? Isso eu nunca ouvi não. Esses boiolas não tem mais o que fazer e ficam inventando esses sucos de porcarias. Daqui a pouco vai ter até de morango com repolho!Que viadagem! Não vou tomar esse troço não. Nem vou perguntar o que é,se não vou parecer muito interessado no assunto. Eu sou esperto. Finjo que sei o que é e peço logo um de mamão. É até bom para ajudar a soltar a batata-doce que eu comi ontem de noite. Problema de intestino é foda.

-Dá um de mamão aí!

Caralho! Ainda tenho que passa na casa da Dorinha!Não vai dar tempo!Tenho que tomar esse negócio logo! E isso que dá querer mudar a alimentação para essa palhaçada natureba. Bem , pelo menos está gelado. Mas tenho que ir rápido. E é até bom eu ir logo que assim não dou oportunidade para o Pereira soltar mais uma piadinha infame. Esse babaca! Um abraço na família!

Amanhã eu paro com essa babaquice. Suquinho! Isso ainda vai acabar com a minha reputação. Tomara que esse idiota não espalhe por aí que eu ando tomando essas coisas. Eu queria mesmo é ter comido um misto com bastante presunto. Presunto,não mortadela! Esses palhaços colocam mortadela no lugar do presunto e acham que a gente não vai notar.É um bando de filhas da puta!Mas amanhã não tem jeito. Vou comer um misto e vou exigir que o peitudo do Pereira coloque presunto. E vou conferir!Se tiver mortadela,quebro a cara dele. Puta que pariu. Que dor de barriga é essa? Não devia ter bebido essa merda! Eu devia mesmo é ter comido o misto. Presunto não me dá dor de barriga. Cara! Não to aquentando! E o pior é que a Dorinha ainda vai me encher o saco se eu cagar na casa dela. Vai dizer que o cheiro é desagradável porque eu não cuido da minha alimentação. Babaquice. Quem é que já viu merda cheirosa? Frescura de mulherzinha! Minha nossa! Ta na porta! Vai ter que ser lá mesmo. Não queria aturar de novo ela me torrando a paciência com o seu discurso saúde, mas não vai ter jeito ... Eu devia é ter tomado o suco de siriquela,isso sim!Mas quer saber de uma coisa? Até que foi bom. Pelo menos assim finalmente vou conseguir diminuir a minha circunferência abdominal.


Semíramis

Hora do rush

Notei hoje minha condição lamentável e sem volta em que me encontro. Entristecido, constatei que de fato havia acontecido comigo algo que tentava adiar dês de que entrei na faculdade, algo que abalava minha liberdade e sepultava minha vida social. Havia me tornado um engravatado. O terror de todas as crianças, o pavor de todos os jovens desleixados já não tão mais crianças assim e o demônio dos fantasiosos socialistas bem marmanjos e barbudos.

E de um dia para o outro, conseguir economizar cinco reais na compra de um anti-séptico bocal e descobri que vai poder acordar mais tarde no dia seguinte, são as únicas coisas que consegue te pegar de surpresa e fazer o seu dia. Assim, corre para comprar uma agenda, almoça correndo, perde aula para resolver pepino e agüenta a hora do rush.

Ah! A hora do rush! Quando o transito anda a dez por hora os nervos ficam a mil. Por mais que isso seja comum, uma hora cansa. E imagine minha tristeza quando me dei conta que enfrentar uma viagem de ônibus em pé e espremido fazia agora parte da minha vida. Não mais era mais um simples universitário .

Pois bem, a hora do rush pode ser traduzida literalmente como uma hora de grande movimento, de pressa, de afobação. Talvez por isso quem deixe pra ir pra casa mais tarde vive um happy hour. A minha hora do rush favorita sem dúvida é a volta para casa. Pois de manha muitas vezes as pessoas ainda nem acordaram direito, ficam até simpáticas de tanto sono. De noite não. A noite é um caos, um espetáculo! Aquele momento mágico em que as ruas se iluminam de luzes vermelhas (as do freio), de gritaria, de movimentação (ou a falta dele). Quando chove então tudo se compara ao penteado que sua tia usava nos anos 80, engraçado de tão triste.

E o olho de furacão de tudo isso é com certeza um ônibus parado no meio da ponte Rio-Niterói. Lotado de pessoas, malas e crianças chorando. Não há muita opção. É encarar isso ou a as barcas e seus passageiros andando a passos mais curtos que o próprio pé e de cabeças baixas para entrar na embarcação. É a marcha dos condenados. Só falta as roupas listradas e as bolas de metal presas aos tornozelos.

De qualquer forma, o ônibus é o lugar dos insatisfeitos. Quem está de pé quer sentar, quem está sentado quer outro lugar melhor. São horas da sua vida desperdiçadas por mais que você tente torná-las aproveitáveis. Tem os que lêem (sortudos sentados), os que ouvem música (trilha sonora de um filme em que nada acontece) e os que dormem (os mais talentosos conseguem fazer isso até de pé). Mas com certeza a atividade favorita para passar o tempo é fazer amizades novas. Afinal, todos ali têm algo em comum. A melancolia. Quando menos se espera um estranho vira pra você, bufa e reclama de alguma coisa. E é sua obrigação como trabalhador devolver uma reclamação ainda mais indignada, caso contrario você não merece estar ali. É um estranho no ninho. O alvo mais comum das reclamações é o motorista e sua lerdeza, mas por fim a culpa mor vai para a viação, aqueles “cheios da grana que não pensam no trabalhador” e não dão um jeito de melhorar o transporte público.

Assim, por mais de uma hora três ou mais pessoas revoltadas trocam injurias. No final se despedem sorrindo. “Foi um prazer te conhecer” e vão pra casa dormir cedo.

Quando se tira férias disso tudo todos querem ir a um lugar totalmente diferente do seu dia-a-dia e cometem a burrada de ir para o meio do mato e fingir que está gostando de todas picadas de mosquitos, noites mal dormidas e do calor. Levam a câmera digital, que conseguiram comprar economizando seis meses, ou seja, passando aperto por seis meses. E logo vão botar seu investimento pra funcionar. Mas como se tira foto no meio do mato? “Ah, sei lá! Fingi que tá contemplado a natureza!” Então o urbaninho vira de costas e abre os braços para a mãe natureza, mas mesmo tendo contas para pagar, datas para lembrar, matérias para decorar, tarefas a zelar, uma alergia para tratar, um namoro para administrar, sonhos para apagar, a natureza te grita de volta “Perca peso”.

E quando você está preste a largar tudo para ir morar no Sana, lhe falta aquele motivo para pirar. Domingo chega para aliviar e segunda para recomeçar.


Jefferson Rocha

Pelo pêlo e a mulher de verdade

"Pêlos são apêndices filiformes de origem dérmica e formados por queratina, que revestem a pele dos mamíferos, fornecendo-lhes proteção contra as diferenças de temperatura. Ou, tão-só, são hastes queratinizadas formadas pelo folículo piloso, lubrificadas por uma substância chamada sebo, produzidas pelas glândulas sebáceas. Sua espessura é a mais variada possível: varia de alguns centésimos de milímetros até 0,03 mm (nas barbas e sobrancelhas)."

Faz um tempo já que chegou, às terras brasileiras, uma modinha que tem afetado desde mocinhas até mesmo as exuberantes afilhadas de Balzac. Não imagino ao certo por que motivo ou influência, de uns tempos pra cá, entre tantas outras bobagens estéticas, as meninas começaram uma luta ferrenha contra seus pobres e adoráveis cachos púbicos. Para felicidade geral da nação de esteticistas e depiladoras, os tão sonhados e admirados ninhos vêm sendo devastados com o avanço da cultura estética imperialista no meio (literalmente) de nossas meninas. Já ouvi falar que esse tipo de “corte” é muito comum na parte norte do nosso continente americano, por exemplo. Mesmo assim, me sinto na obrigação de iniciar aqui uma campanha pela beleza de nossa gente e tradição. Não suporto a idéia de que, daqui a alguns anos, esteja deitado numa cama ao lado de meu companheiro nicotinoso recordando de saudosas sensações que podem não mais existir, como as provocadas por Sônia Braga encarnada na melhor lascívia inocente de Gabriela e pelo banho de piscina, “em pêlo”, de Claudia Raia no horário nobre em Deus nos Acuda. Sem contar os inesquecíveis ensaios de Cláudia Ohana e Vera Fischer para a Playboy.

"É mais uma desgraça da modernidade!”, compartilhou meu guru amoroso e barbeiro, Joca, no alto dos seus 68 anos de vivência e maturidade. Não satisfeito, com a delicadeza que lhe é usual, o sábio senhor prosseguiu: “Porra! Como se não bastasse essas viadagens de homem que raspa o peito e faz a sobrancelha, agora mulher não gosta mais de pêlo. Daqui a pouco, você vai pra cama com a mulher e vai parecer que ta trepando com um desses manequins de loja”.

Como não poderia deixar de ser, meu parceiro de sueca está certo mais uma vez. O que seremos de nós, pobres adoradores da graça feminina se não tivermos mais nossa almofadinha macia pra recostar a cabeça depois de um dia difícil? Onde recordaremos perfume de nossas noites homéricas? Qual será a graça dos novos mancebos no esperado momento em que suas mãos, ainda trêmulas, conseguirem alcançar o interior das calças e saias femininas? O que será do prazer de sentir os dedos perdidos no emaranhado de cachos? E as brincadeiras? Os bigodinhos de Hitler, os corações, as fechaduras e toda a diversão proporcionada pela surpresa de arrancar a calcinha com os dentes?

Algumas dessas gazelas-pós-modernas-super-antenadas ainda nos querem convencer de que é mais higiênico. Não entendem elas que não falamos de um processo cirúrgico. Falamos do gosto, do cheiro, do suor, do orgânico, do tesão, de vida! Não se trata de unhas ou sobrancelhas. O bom sujeito pode até se sentir constrangido ao se deparar, no meio de seu ímpeto libidinoso e carnal, com aquela criatura (porque algumas parecem ter vida própria, independente da dona) desprotegida, à mercê dos perigos da vida, pronta pra pegar uma gripe com a primeira brisa da madrugada. Nem mesmo as gloriosas “série rosa” deveriam ousar um visual tão radical.

Gozozos de todo mundo, uni-vos! Pelo fim de uma vida sem pêlos, asseada, fria e sem tesão! Pela volta dos cabelos embolados, pela volta do pentelhinho da parceira misturado nos nossos, pela volta do cheiro de foda! Pela volta da mulher de verdade, da carne, e pelo fim dos manequins de shopping!


Zé Caruso